sexta-feira, 13 de novembro de 2009

HOMENAGEM A ARNALDO GAMA







PROVA DE VIDA


Quando eu morrer,
ficará tudo como está.

Nem mulheres e homens se suicidarão,
Nem a lua nascerá em vez do sol,
Nem haverá novos planetas a anunciar.

Quando eu morrer,
Tudo ficará como dantes,
Senão eu que já cá não estarei.

Os animais não se espantarão,
Nem enlouquecerá ninguém...

Será um dia diferente,
Sim
Mas só para quem me quer bem.


Helena Soares

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

QUANDO A MINHA FILHA FOI PROCURAR UM BANCO PARA LÁ METER O SEU DINHEIRITO





Esta cena passou-se talvez há 23/24 anos.
A minha filha e eu fomos procurar um banco para ela guardar o dinheiro que lhe davam.
Podia-se começar esta história de outra maneira, então comecemos.
Ía a Mariana na sua infância e um dia eu disse-lhe : "queres escolher um banco para guardares o teu dinheiro?"
Ficou muito contente e fomos para a Av. dos Aliados, palco onde se encontravam os edifícios dos bancos à época, escolher o cofre com casa.
A Mariana, com cerca de 8/9 anos observou os edifícios e depois de muito matutar nas vantagens/desvantagens das diversas hipóteses que se lhe colocavam à vista desarmada e estando eu inclinada para o Montepio, banco com referências na família, devido às suas características mutualistas, a minha filha afirmou: "Mãe quero pôr o dinheiro aqui".
Este AQUI era no Banco de Portugal.
Perguntei-lhe porque tinha escolhido aquele e a resposta foi: "Porque este é todo de pedra, é forte e vai guardar melhor o meu dinheiro".

Tenho-me lembrado deste episódio quando na televisão se ouve e vê adultos que colocam o seu dinheiro em qualquer "edifício", sem nenhum critério de escolha e que depois se queixam muito, muito.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

QUANDO A MINHA FILHA TOMOU CONTACTO COM A MORTE

Tinha cerca de seis anos.
Íamos a passear pela Av. dos Aliados e ela viu uma pomba morta.
Ficou muito impressionada. Fez muitas perguntas sobre a pomba morta. Como tinha morrido, porque a tinham matado, porque estava ali morta?
Seguiram-se os lamentos: que a pomba não devia ter morrido; que tinha muita pena dela; que era muito bonita e por aí fora.
Foi dramático! Uma cena irremediável.
Não se pôde evitar. Tinha-se passado por ali naquele momento e não por qualquer outro sítio.
A morte assim ali. E nós tivemos que a enfrentar.
Soubemos uma e outra que a partir daí nada era igual.

domingo, 8 de novembro de 2009

ÓRFÃ DO MEU PAÍS



Estou orfã de país. Há muitos anos que o meu país estava gravemente doente, com doença prolongada. Agora morreu, defuntou-se.
Ele é: a corrupção com níveis italianos. Ele é: a iletracia dos deputados ( apenas são letrados para desdobrarem bilhetes de avião e usar em proveito próprio as milhas percorridas em missão oficial).Ele é: a promiscuidade entre serviços públicos e privados.Ele é: o endividamento ciclópico dum pequeno país que não sabe poupar. Ele é: a surdez crónica dos diversos governantes quando o povo ou os seus representantes dizem da sua justiça. Ele é: uma justiça que quando funciona só atende os ricos, uma justiça parcial que leva os ricos e corruptos a afirmarem à cabeça que acreditam na justiça.
Ele é: um PM oriundo duma família com nome feito em negócios, ditos de família. Ele é: os políticos, a começar por deputados e governantes a servir-se do Estado e não a servir o Estado. Eles só vão para os partidos para arranjarem uma carteira de clientes e de contactos para melhor manobrarem na empresas privadas. Privadas também começa a ser apelido, já que elas vivem quase todas, em especial, as grandes, à custa do estado e é preciso não esquecer que o ESTADO SOMOS TODOS NÓS.
Mas o facto pelo qual me sinto órfã é, essencialmente, por haver pessoas que dão supremacia ao resultado final em detrimento dos princípios e dos valores (como no caso das elevadas percentagens com que ganharam autarcas corruptos), e altos gestores e governantes deste país virem afirmar com cara de sérios que as atitudes de alguns dos seus pares visados em não quererem largar os tachos e resistirem o mais que podem, para só depois de obrigados pelas pressões, largarem o osso, são atitudes muito dignas (temos o exemplo do presidente da Caixa Geral de Depósitos em relação a Armando Vara, mas poder-se-ía falar de muitos outros casos que infelizmente vão caíndo no esquecimento popular com tanto adormecimento ministrado pelos anestésicos vários, em especial, telenovelas e futebol).

Estou ÓRFÃ DO MEU PAÍS e se calhar nem dinheiro consigo para lhe fazer, pelo menos, um funeral digno.

sábado, 7 de novembro de 2009

TELEJORNAIS





Em primeiro lugar fazem intervalo todos ao mesmo tempo. Em primeiro lugar ainda, dão todos as mesmas notícias e em primeiríssimo lugar, que é um bocadinho mais que em primeiro lugar, todos os canais contratam repórteres mal pagos (só pode!), que além de não saberem falar, também não sabem noticiar, nem tão pouco estar.
Quanto às notícias a que se referem, são só desgraças e mais DESGRAÇAS.
Iniciam telejornais com notícias de futebol o que indicia bem o que consideram notícias relevantes.
Os comentadores das notícias são os próprios jornalistas da estação televisiva, por exemplo, na SIC, temos o Ricardo Costa, o patrãozinho, a emitir sempre opiniões e mais opiniões, que eles apelidam e promovem a análises.
Fazem do telejornal uma página de "casos do dia", que antigamente havia numa secção dum jornal. Quem é que matou, como matou aquele e aqueloutro e etc. Notícias de "faca e alguidar" que consideram ser as que mais puxam pelo cliente, neste caso o telespectador.
Quando querem aligeirar, então falam da QUICA que namora com o QUICO que já engravidou do LICO mas que tem muita esperança e projecta um grande futuro com a TEQUINHA.
E mais grave que isto tudo é que se chama a isto Informação.
Por isso proponho, sem querer plagiar a Manuela Ferreira Leite, qual animal feroz da nossa Praça, suspenda-se a audição e visão dos telejornais, por estas razões e também porque passam a horas impróprias para adultos, normalmente, às horas das refeições, não se conseguindo distinguir, por vezes, se se mete à boca um bocado de bife ou a perna de algum morto, nos cenários de guerra (chamam-lhe cenários talvez porque achem que isto é um espectáculo a que devemos assistir), com a chancela da América ou de Israel ou de algum outro imitador destes realizadores laureados.
Vamos manter as televisões fechadas durante os telejornais e verão que a tristeza nacional cairá uns pontos.
MÃOS À OBRA!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O MOVIMENTO DO GEOFÍSICO

Quando desemboco na minha terra, vejo o que está a mais e o que está a menos. As lojas que abriram e as que fecharam. As ruas que se rasgaram de novo e os jardins/parques que se fizeram ou não fizeram.
A minha terra tem sítios em que apetece dizer: Como isto era lindo e como está agora?
Em alguns casos foi a destruição total. Noutros, apenas a mudança, através do cimento e na maioria o esquecimento, o desleixo alterou-os irremediavelmente.
Dizia-me uma amiga no outro dia, aquando das eleições autárquicas: "O que eu queria mesmo é que eles (= autarcas) não fizessem nada durante uns anos, porque quando mexem é mesmo para estragar".
Achei-lhe piada ao desabafo, mas estou em crer que é só quase isso que devemos desejar, chegado ao ponto em que algumas cidades e não só, chegaram, como é o caso do Porto, cidade que me viu nascer.
A minha cidade hoje reflecte a decadência, quer de costumes quer de riqueza.
Andamos pela sua "Baixa" e o que vemos é confrangedor. Todo o ambiente é de "bas-fond". Parece que a Rua Escura toda desaguou na cidade. A freguesia de Stº Ildefonso, a maior da Baixa, está irreconhecível. Tornou-se um retrato da cidade.
Cheira a miséria por todos os lados, casas de chineses pululam. Até o Hotel Infante Sagres, um esteio dos bons velhos tempos, de alguma aristrocracia, se alterou, "adaptou-se" à nova cidade.
Encontramos a rua de Sta. Catarina, num dos seus quarteirões, o do Café Magestic com vida, tudo o resto está morto, descaracterizado, feio, doente, atingido de doença terminal.
Os portuenses tomaram a atitude de sair, aqueles que amam a cidade sofrem com ela, assinam abaixo-assinados, mas quase nada resolvem.
A ganância, o primado da economia sobre a ecologia a estética e o social, tem-lhe infligido duros golpes, feriu-a de morte.
O que se passa no Porto é uma tragédia.
E o pior de tudo, o pior mesmo é que as pessoas também mudaram e se mudaram.
Mas como em todas as tragédias, há sempre alguma coisa, mesmo que seja pequenina que reluz, que ficou que faz com reconheçamos onde estamos e porque estamos. No caso do Porto, no Outono, são as castanhas, o fumo das castanhas e os vendores de castanhas a darem aquela ambiência. Só isso salvou a minha ida última ao Porto e me fez estar em família.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

MEMÓRIAS DUM PASSADO DISTANTE




Ontem fui à minha infância e adolescência.

Segui, inconscientemente, o caminho que me levou à casa da Murra na freguesia de Bitarães de que a minha avó tanto me falava.
A casa da Murra ainda continua de pé, encerrando em si todas as memórias de um passado distante.
Homenageio a minha avó em dia de defuntos e lá vou eu, como detective, entrar pelo passado adentro.
Encontro um velho, bonito e fazendo versos, a sussurrar-me as suas "malandrices" com a mulher que o levou a ter 11 filhos e penso que esta casa teve um passado feliz. Este velho era o caseiro que me fala dum passado cheio de riqueza, delapidada por um filho da casa que vendeu a quinta a retalho para investir em jogo.

Como não possuo lentes anti qualquer coisa que me preparem de antemão para recusar o que quer que seja, vem-me à cabeça, a história antiga desta família, que é sempre a mesma. Era rica e tornou-se pobre, à custa de muito gastar em vícios. Foi uma família que conseguiu colocar quase todos os seus antigos criados com os bens que antes possuíam, que conseguiu tornar realidade os seus antigos sonhos, ficarem com tudo quanto era dos donos. Nesse aspecto a nossa família contribuiu grandemente para a felicidade do povo.

Ontem, cumpri o meu dever cívico e, como o meu corpo raramente entra em automatismo, infelizmente, cumpri uma função.
Fui à casa da família da minha avó,(tios direitos, por parte de seu pai, dos Soares), ao bosque como lhe chamam actualmente.
Senti que acendi uma vela à minha avó e que pertinho se encontrava o meu pai, bem pertinho, com uma lamparina na mão que também se acendeu e ele sorriu.

Senti que eu era também aquilo que fazia naquele momento.