sexta-feira, 20 de novembro de 2009

GESTOS

Sento-me ao computador.
Ligo para o Cabide.
Quero falar de simplicidades.
Então começam a aparecer, de imediato, as primeiras letras no quadrado branco.
Primeiro o título, a seguir os porquês, os comos nas curvas das letras.
Nunca há novidade no que lá vou colocando, porque nos meus escritos há uma batota de base. Há sempre uma pergunta respondida, logo não há novidade.
No final, sinto: cumpriu-se.
Agora que visualizo o que escrevi, verifico que estava previsto o que agora vejo, apenas actualizei um gesto antigo desde há muito.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

VER O MAR





Éramos uma multidão, embora não fôssemos juntos, íamos.

Queríamos ver o mar e para lá nos dirigíamos.

Houve um que disse: " Só temos o mar. O mar é lindo!"

E logo a essa expressão se foi juntando gente para o seguir, para se dirigir em direcção ao mar.

Pelo caminho mais gente se lhe juntava. Perguntavam: "Onde vão? Porque vão?"

A resposta era sempre a mesma:"Não temos outro sítio, sentimo-nos encurralados".

E continuava a marcha. Alguns ainda pegavam nas coisas mais queridas, algumas fotografias de família, outros achavam que não valia a pena, não sabiam se ficariam por ali ou se um dia regressariam.

Enquanto caminhavam, íam-se ouvindo alguns comentários: - "o meu país abandonou-me; os monstros perseguem-me; são muitos eles; têm muitas armas; eles estão por todo o lado; já não há sítios altos para onde possamos ir; usam uma grande rede e muito apertada; estão a tomar conta de tudo".

Alguém gritou, desesperado: "SÃO VAMPIROS, ELES COMEM TUDO E NÃO DEIXAM NADA".

Nessa altura a multidão começou primeiro a acelerar o passo para depois correr mesmo.

QUEREMOS RESPIRAR, QUEREMOS RESPIRAR, diziam.

Somos pessoas honestas, trabalhadoras, pagamos os nossos impostos, tivemos os nossos filhos, somos cumpridoras, porquê viver assim, sem ar, com medo, não queremos os vampiros!

Ouve-se uma voz lancinante no meio da turba: "Corre! Alguns de nós estão a transformar-se em vampiros".

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

HÁ ATRASO NAS CIDADES



No mundo rural(?), convencionou-se chamar assim, em oposição ao mundo urbanita, há menos "rodriguinhos" no que diz respeito à atribuição do famigerado dr. antecedendo o nome da pessoa.

As pessoas destas bandas não atribuem esses títulos, chamam mesmo pelo nome quando não, o você, que lhes é mais familiar e sai muito melhor.

Os jovens e até os menos jovens tratam-se por tu, mesmo não se conhecendo e é assim que as relações e o tratamento entre as pessoas se desenvove.

Nas cidades, pelo contrário, o dr.vem à frente, o tratamento não é por tu a não ser para interlocutores com mais confiança ou relações de escola e/ou trabalho.

Verifica-se pois, menos abertura no relacionamento e um maior atraso no tratamento verbal entre uns e outros.

Talvez estes aspectos de trato sejam apenas uma forma compensatória de tantos outros atrasos entre o mundo rural e citadino, em que este fica com a maior fatia em relação àquele.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SER RESPEITADO/RESPEITAR

Esta questão tem muito que se lhe diga.
E porquê?
Todas as pessoas que respeitam são respeitadas?
O que é preciso para ser respeitado?
Só sabemos ou sabemos melhor, o que é necessário para respeitar, mas será que saberemos qual a fórmula para sermos respeitados?
Convicta estou que para ser respeitado, necessário se torna escolher, seleccionar, pessoas que tenham a capacidade de respeitar.
E o que é respeitar?
Diz o dicionário, entre outras coisas, que é tratar com urbanidade; ter em consideração e também dar-se ao respeito, etc., etc.
Mas basta querermos definir o que é tratar com urbanidade, para logo percebermos que estamos perante algo de muito difícil de ser cumprido.
O que é ter urbanidade? E onde se encontra urbanidade?
Volta assim tudo ao princípio, podemos ser respeitadores e não terem respeito por nós.
E o que é terem consideração por nós. Reside em nós essa capacidade do outro? Diz o dicionário da Porto Editora que sim, porque temos que nos dar ao respeito.
Claro que nos temos que dar ao respeito, mas será que com isso somos respeitados?
Tudo se torna mais fácil quando estamos atentos às diversas formas como podemos ser respeitados, e a mais eficaz actualmente, é a que nos informa que ser respeitado é quem tem dinheiro, estatuto social. É respeitado quem é "chico-esperto", quem consegue ter muitas casas, carros de milhares e for capaz de se fazer subtrair aos impostos. Esse(a) sim, são admiráveis! Conseguiram chegar LÁ, ao que é desejado pelos outros e passam a ser respeitados.
Em Esmoriz querem erigir uma estátua ao Sr. Manuel José Godinho,o homem que foi preso por ser corrupto,no âmbito da operação "Face Oculta". É um homem admirável- dizem conterrâneos seus: "Ele apenas faz bem feito aquilo que todos os portugueses fazem". E pronto! Prontos como dizem os deputados.
A nova definição de respeito no dicionário da Porto Editora deve incluir esta vertente, caso contrário, tratar-se-á dum dicionário não actualizado.
Para se ser respeitado e respeitar é preciso ter a capacidade de ser corrupto/ser corrompido.
É também verdade que os banqueiros corruptos que estiveram na A.R foram tratados com urbanidade e respeito, essa parte da definição pode continuar a fazer parte da definição do dicionário.

domingo, 15 de novembro de 2009

NOVO MUNDO



Revisitei hoje nos meus livros de pintura Pieter Brueghel e a sua tela "O Combate Entre o Carnaval e a Quaresma", de 1569.


Quando tomei contacto com este quadro pela primeira vez, exposto, permaneci não sei quanto tempo a decifrá-lo e sabia que nunca mais o iria esquecer.

Será preciso recordar que sou uma amante de sátira e da pintura flamenga.

Hoje, ao olhar de novo a fotografia, veio-me à ideia o mundo em que vivo e o meu mundo português, que é semelhante ao francês, ao espanhol, ao italiano e a tantos outros.

Pieter Brueghel era satírico, expunha as fraquezas e loucuras humanas, fazia realçar o absurdo na vulgaridade. Neste quadro há uma liberdade geral de costumes.

No passado o Carnaval ocorria após o ano novo, marcando o fim do ano velho, dos velhos tempos e este quadro fez-me lembrar que os velhos tempos, da honra, da honestidade, da palavra dada, da integridade, já se foram e o futuro é debochado.

O novo mundo hoje parece-se com um mundo carnavalesco.

A natureza é paradoxal. A nossa natureza faz com que nós sejamos simultâneamente "isto e "aquilo" e, no entanto, não sejamos nem"isto" nem "aquilo".

Sampaio Bruno que acabei de ler há pouco, numa edição reeditada, dizia que as verdades estão acima da razão e eu estou de acordo.

A nossa verdade, a verdade de ser português hoje é: Oeiras votar um autarca que a justiça já tinha condenado, ter um PM sempre referenciado em tudo que é menos claro, em matérias de tráfico de influências, ter banqueiros, administradores públicos, desonestos e corruptos, parecermos um Itália à nossa escala, mas é, fundamentalmente, o povo permanecer em pleno Carnaval, ser ALEIJADO ( são vários os deficientes que por ali andam na festança ) como se vê no quadro de Pieter Brueghel.

O novo mundo chegou embora não seja um MUNDO NOVO.

sábado, 14 de novembro de 2009

O TEMPO






Este Senhor de barbas tão glosado.

O tempo e eu sempre tivemos uma relação muito íntima, mas ao mesmo tempo muito cerimoniosa.

Se, por vezes, dou comigo a pensar que as coisas passadas aconteceram mesmo ontem, há bocadinho, também me acontece que me vêm à memória lembranças que se fossem datadas eram demasiado antigas, doutras épocas, quase sem direito a tempo porque tempo são.
Ambos gostamos de jogar o jogo da sedução e acabamos , na maior parte das vezes, seduzidos.

O tempo é cronológico, claro!
Mas é fundamentalmente psicológico. Cada pessoa tem o seu tempo e o tempo seu.
Há tempos que não nos pertencem e outros que são só nossos e que não dão nem para partilhar.

O tempo mede-se de maneiras várias, todos o sabemos.
Os médicos medem-no em sintomas que vão aparecendo nos seus pacientes.
Os psicólogos privilegiam a análise da memória nas suas diversas fases.
As esteticistas nos produtos que vão ter de utilizar com os seus clientes.
O mercado nos nichos de ofertas apelativas (hotéis, viagens seniores, seguros, produtos bancários, soluções medicamentosas, etc.,etc.).

Hoje falei do tempo talvez porque ontem passei uma parte da tarde a observar mulheres com mais de 65 anos a passear no Centro Comercial e concluí que há mulheres nesta faixa etária que não tratam o tempo por tu, mas por você, lhe mentem e brincam com ele ao jogo do esconde-esconde. Vi mulheres que vestem e se apresentam como se na flor da juventude se encontrassem com calças justas, blusas desabotoadas até ao 4º botão, posturas rijas de ginásticas moldadas, mulheres que fazem do corpo o seu cartão de visita, da sua aparência um jogo de adivinhação. Tudo isto eu vi e pensei: Como as coisas mudaram!
Claro, que desconheço se para melhor se para pior, mas o certo é que estas mulheres se sentem de bem consigo próprias, estão despertas para a vida, militam em estéticas várias e despertam muito mais os olhos e os neurónios que para si olham. Consideram que o futuro é já ali e que o passado só lhes trouxe vantagens.

Nós também somos aquilo que parecemos ser.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

HOMENAGEM A ARNALDO GAMA







PROVA DE VIDA


Quando eu morrer,
ficará tudo como está.

Nem mulheres e homens se suicidarão,
Nem a lua nascerá em vez do sol,
Nem haverá novos planetas a anunciar.

Quando eu morrer,
Tudo ficará como dantes,
Senão eu que já cá não estarei.

Os animais não se espantarão,
Nem enlouquecerá ninguém...

Será um dia diferente,
Sim
Mas só para quem me quer bem.


Helena Soares