segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ZARZUELA






Este país transformou-se numa zarzuela. Há figuras que se destacam nesta ópera cómica, pontificam até. Têm vozes insinuantes, veja-se a do Presidente da República. Mas há outras figuras, igualmente com amplos créditos firmados na opereta e na comédia, como é o caso do Primeiro-Ministro que poderia ser considerado como um manual de suficiência de modos, qual CONDE DANILO na opereta de Franz Léhar da Viúva Alegre, de que tanto Adolf Hitler gostava. Há ainda a considerar os pífios. Há uma máxima grega que diz: "Gnôthi séauton nosce te ipsum" que quer dizer: Conhece-te a ti mesmo. É bom que o país, todos nós, saibamos o que somos, onde estamos, para onde vamos. Eu penso que estamos entre o FADO E A ZARZUELA. Somos um país de opereta, com partes faladas e outras cantadas. Não há dúvida que pertencemos e somos Ibéria e neste preciso momento, estamos mais do lado da ZARZUELA.

domingo, 29 de novembro de 2009

O PENSAMENTO POSITIVO




O pensamento positivo está na moda.
Circulam camiões e camiões nas nossas estradas deste produto.
Descarregam-no nas livrarias (Dan Brown, José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Margarida Toda Cor-de-Rosa, etc.)
As farmácias também comercializam pensamento positivo.
As caixas de correio electrónicas estão a abarrotar destes panfletos.
A tristeza merece castigo. Quem está triste devia ir para a cadeia, não merece viver.
Não é um ser normal.
Toda a gente prescreve mezinhas para o pensamento positivo e, não são só os brasileiros, campeões desta fórmula para a indústria.
Mas não se pense que o pensamento positivo só oferece desvantagens, como tudo na vida,há também o outro lado. Assim, quem tenha comprado pensamento positivo em livros, pode dizer aos amigos que lê muito, que não é nenhum (iliterato) que possui uma biblioteca carregada de Paulos Coelhos de todos os países, que regrediu à adolescência eterna, que são iguais a toda a gente, que pertencem a um grupo (ao grupo que fornece as estatísticas para a iliteracia, que já não lêem só UM livro por ano que lêem todos os Códigos Da Vinci que forem editados).
Mas tudo é bom quando acaba bem. A escola portuguesa através dos seus actores principais, os professores, considera que o importante é ler, ler nem que seja mau.
Os oftalmologistas devem ter comissão nesta recomendação porque ao fim duns anos de hábitos de má leitura, os olhos estão cansados, logo mais óculos se vendem para ver se ainda se chega a tempo de ler bons livros.

sábado, 28 de novembro de 2009

A DESENHAR



Se fosse possível ver as nossas vidas de longe como vemos a das biografias, tudo era contínuo, em linha recta.
Mas a vida que nos pertence, é por nós vista como um traço descontínuo.
Vamos desenhando a nossa vida, apondo mais pinceladas, mas como não é duma tela que se trata, não nos podemos distanciar para poder desenhar e pintar com maior precisão e beleza, traço a traço, as impressões que queremos que figurem na tela.
Estamos dentro da vida, por isso não vemos bem o quadro. Estamos demasiado perto, não distinguimos as imagens, apenas um conjunto de traços.
Vivemos em trânsito.
É do fundo de nós que construímos ou desconstruímos conforme as necessidades.
Não podemos recriar a vida como se recria um texto, apagando episódios, retirando parágrafos, colocando vírgulas, como se faz quando se escreve ao computador, mas podemos reordenar o texto, trabalhar na síntese.

No meu caso, vou dedicar-me, na tela da vida, ao cantinho da memória.
Agora queixo-me da falta de memória, mas se recuar nos tempos, ela nunca laborou com afinco, mas se a comparar com a de alguns dos meus contemporâneos jovens que a têm em tão mau estado que chegam ao ponto de pensar que o mundo é da mesma idade deles, então posso considerar-me uma privilegiada.
Como a nossa vida está sempre em recurso, podemos e devemos acrescentar-lhe mais alguns pontinhos . Estou a lembrar-me do desenho impressionista de A. Durer.

Hoje, sugiro que o façamos através da memória, que nos agarremos à memória viva.
A memória mantém-nos vivos e tem entre muitas outras virtudes, a de suscitar questões e respostas que suscitam outras questões e fazer com que as palavras dos homens nunca consigam esgotar os infinitos sentidos da outras palavras, das dos tempos, das que vivemos, vimos e observamos.
A nossa vida é uma obra inacabada e a memória também.
Precisamos da memória para prosseguir no diálogo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

YouTube - Relaxing Musica Relax Sonidos del Bosque Monasterio de Piedra

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O PARADOXO

Quando saímos é difícil encontrarmo-nos com os grandes.
Estamos quase sempre entre pequenos.
Tal verifica-se nos restaurantes, nos cafés, nos transportes públicos, nos cinemas, centros comerciais, enfim...por todo o lado.
O barulho está sempre presente. Um barulho desagradável, de lavagem e arremesso de pratos e chávenas,de televisões permanentemente ligadas,de motores de aparelhos em ronco constante,de pessoas que falam altíssimo, de telemóveis com ruídos esquisitos. Tudo isto e mais, nos entulha de banalidades estridentes.
No centro e lado destes encontros, há pessoas que dizem estar sempre bem, em nome da sua prodigiosa capacidade de adaptação, de abstracção.
Para este batalhão de adaptados, de normais, de abstraídos que banalizam o barulho, o ruído, a qualidade de vida eclipsou-se, a exigência com ambientes de qualidade desfez-se, a reivindicação da qualidade não os visita.
Neste mundo de vulgaridade crescente, os acomodados, agora auto-intitulados de adaptados, tudo é para aceitar, não há direito a lamentações. Só o fazem os passadistas, os nostálgicos de outros tempos.
Sucumbem ao ordinário, mergulham diariamente em declínios vários.Eles sim mumificaram, mas insistem em apelidar os outros, de dasadaptados, de buscadores de lembranças perdidas.
Estamos condenados ao mau gosto, ao trivial, à superficialidade. Em todos os domínios impera a mediocridade, a baixa qualidade.
Toda a gente quer ser "politicamente correcta", mesmo que seja na rua, na cidade, nos estabelecimentos comerciais. Toda a gente quer ser "normal", sendo que ser NORMAL É HOJE ACEITAR A ANORMALIDADE. Eis o paradoxo!
Alguém que aprecie o silêncio e que goste do enlevamento intelectual ou espiritual é considerado(a) pessoa desadaptada, a caminho da depressão. Os médicos e outros "especialistas",em todas as esquinas eles existem, até ao telefone, diagnosticam de imediato: rua, encontros com a MEDIOCRIDADE.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

DINHEIRO A MAIS




O meu país tem dinheiro a rodos.Bruxelas continua a emprestar. É péssimo!
Se não viesse dinheiro em pacotes, estou convencida que era diferente. Talvez os dirigentes, fossem eles quais fossem (todos têm duas caras a do governo e da oposição), pensassem uma vez que fosse, no que mais o país precisa e por onde começar.
Não há dinheiro para a Educação, para a Cultura, para o Saneamento Básico, não há estradas secundárias aceitáveis, mas vêm pacotes e pacotes para aquilo que convencionaram chamar de INVESTIMENTO (auto-estradas; aeroportos; TGV, etc.)

Há dias tive conhecimento dum homem que já não tinha orçamento para fazer face à prestação do carro e o que fez?
Vendeu o que tinha e comprou um melhor, mais caro, mas que tinha uma menor prestação mensal.
Conheço igualmente casos de casais que se dirigem ao banco para contrair um crédito bancário para aquisição de habitação e saem de lá com casa e carro e quando não com férias marcadas em qualquer país exótico.

Os bancos portugueses (os que me interessam neste momento) têm feito o mesmo que os Fundos Sociais Europeus e o que lhes acontece? Cada vez obtêm maiores lucros. E o que acontece a quem contraíu créditos? Cada vez fica mais pobre, vive uma vida faz de conta, parece rico mas é pobre porque deve quase tudo.
Quem vai ficar mais rico? Quem empresta. Com os juros altos que cobra, porque se não os conseguir cobrar, penhora os bens para pagamento da dívida.

Estamos a penhorar o país.
E mais do que isso, estamos a dar um péssimo exemplo aos vindouros. A cultura do gasta agora e paga depois, a cultura do endividamento, a cultura do faz de conta.

Centenas, senão milhares de professores, vivem metade do mês com cartão de crédito.
Poucos gastam em função das suas possibilidades e das suas necessidades.

As crianças têm brinquedos a mais, os adultos casas a mais, carros a mais, roupa a mais, telemóveis a mais, créditos a mais, preocupações a mais, mas felicidade a menos, paz a menos, fruição do que têm a menos.
E o mais preocupante ainda é que como toda a gente ou quase, vive de faz de conta, também passam a ser pessoas faz de conta.
Assim, se vê como o capitalismo com o seu filho mais dilecto o consumismo, perverte a mente das pessoas, lhes atinge a personalidade e até o carácter.

Toda a gente sabe disto, toda a gente ou quase, teoriza sobre o tema, mas quase toda a gente ou muita, muita gente, continua a incorrer e a correr para esta loucura.

Quem começou primeiro? Os bancos? Claro! Para conseguirem obter no final do ano esses lucros obscenos, mas o povo, o povo, é verdadeiramente culpado. Ninguém pára para pensar, ninguém reflecte ou só o fazem em hora de aperto grande e, mesmo assim, não voltam atrás, pelo contrário, fazem fugas para a frente, endividam-se mais e mais e mais. É a loucura total!
O país continua numa roda de loucos, rodam, rodam.
Já se sentem todos tontos mas não param.
Alguns, poucos que estão de fora gritam: "Parem, parem. Vão cair! É preciso parar para descansar".
Mas as "crianças" continuam num rodopio sem fim, riem-se, riem-se e exclamam: "Isto é bom, é boa esta sensação, não queremos parar".
Esta história chama-se SISTEMA CAPITALISTA.
A roda tem como apelido DESENFREADA.

P.S. Quero fazer aqui uma declaração de princípios: não sou contra o crédito,antes pelo contrário, acho que quem pode contrair dívidas, oferece capital de confiança e oferece segurança a quem empresta. Portanto, trabalhemos, amealhemos para termos sempre capital de confiança e não o contrário.

A MINHA SOMBRA E EU




A minha sombra persegue-me
Para onde eu vá, ela vai atrás.
Para quê fazer de conta?
Se ela vai sempre comigo.

Nunca se desfaz
Aquilo que nós somos e fizemos
Nunca se desfaz
Nem que seja só aos nossos olhos.

Não posso confundir
Aquilo que me dizem que sou
Com o que sou.
Porque confundo a minha sombra comigo?
Mas ela não se desfaz.

A minha sombra não é uma "second life".
Mas a minha sósia
O meu frisson metafísico.

Às vezes dá-me um calafrio
Da identidade dúplice, a minha sombra.
A vertigem do labirinto dos espelhos.

Estará a minha sombra apostada
Em causar-me alguns percalços?

É que há pessoas que se colocam
No ponto de vista do sol e da lua
Ou de outro foco de luz

E vêem a sombra
como o reflexo do ser
E me dão uma vida segunda.

Tudo começa quando me encontram
E dizem: "És uma radical", "És mesmo...
Fico a saber que não sou eu
Que sou a outra.

Palpita-me que a minha sombra
Me prega partidas
Que tem uma vida
Aventurosa e divertida umas vezes,
E outras não me deixa em paz.

Se algum dia encontrar a minha sombra
Ainda troco de lugar com ela
Para saber se é um reflexo de mim
Ou eu sou um reflexo dela.