quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SEI TÃO POUCO DE TI


Sei tão pouco de ti que mais parece que o teu enigma sou eu.
Se não li isto em algum lado é como se tivesse lido e daí ter decidido naquele dia conhecer-te melhor.
Abandonar-me de mim e partir em passeio para ti.
Dava passinhos pequeninos, tentando perceber o caminho que calcorreava à medida que prosseguia. O Eu ía ficando lá atrás, acabando por parecer um conjunto de pontos pequeninos rosados.
A primeira diferença que senti à medida que me distanciava de mim, foi a ausência de ruído. Não havia memórias, buzinas, músicas de fundo.
Havia falta de hábito, isso sim. Ouvia outro canto, outra melodia.
Lembrei-me que já tinha ouvido essa melodia em outros dias mas não a escutava.Estava temporariamente surda.

Continuava na caminhada e reflectia nos sons que ouvira e pensava que as palavras, por vezes, se podem assemelhar a cantos de aves ou ao sopro da brisa nas árvores.
Há um efeito diferente nas palavras se as conseguimos escutar.
Lembrei-me de outras palavras, de outros sons e de outros lugares e sentia que era como se as escutasse pela 1ª vez.
A sensação era de leveza. Verifiquei que os aromas à minha volta eram conhecidos e inspiradores.
Olhei em volta e deparei com uma pedra vestida de tons amarelos e concluí que neste passeio havia sentidos nos sentidos como estes se tivessem mantido ocultos até aí.

O imprevisto, o imprevisível pode chegar. Há sempre um esperança, que embora não seja científica faz com que a certeza vacile.

Mas o primado está na certeza e essa revela-nos que nunca vemos os outros tal e qual eles são, mas no que parecem ser e eles vêem-nos no que julgam que somos mas não somos, porque aquilo que somos é o que julgamos que somos mas não somos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER




SUSTENTABILIDADE- a palavra muitas vezes dita por políticos, economistas, comentadores e outras espécies que pululam por aí.
O que é sustentável/insustentável para nós, OS OUTROS?
Que interrogações colocamos quando a ouvimos?
Falo por mim e por aquilo que ouço aqui e ali.

É sustentável haver tanta gente a precisar de receber das diversas ONG, alimentos e outros artigos, para poder sobreviver?

É sustentável haver milhares de jovens desempregados, grande parte licenciados?

É sustentável haver cada vez mais horas, crianças e adolescentes, armazenados uns e à sua sorte outros, por cada vez mais pais e mães trabalharem mais horas, mesmo sem maior remuneração?

É sustentável deputados e políticos que deveriam estar ao nosso serviço, ao serviço do país, servirem-se a eles próprios e aos amigos, esquecendo-se completamente da função que desempenham e para a qual foram eleitos?

É sustentável magistrados e médicos serem desviados, embora de formas diferentes, para exercerem outros cargos e funções que não para os quais foram formados e todos nós pagamos, para além de serem mais necessários nos lugares que deixaram suspensos?
É insustentável clínicas privadas, que mais parecem fábricas de doença, empregarem médicos formados pelo sistema público. As empresas privadas, chamadas clínicas, não gastam um euro a formar os seus médicos, é só lucro!
É insustentável os tribunais terem falta de magistrados e estes serem convidados para lugares políticos e para outras carreiras.

É sustentável a hipocrisia reinante?

É sustentável o 4º poder, assim chamado, a comunicação social, por vezes e cada vez mais, passar a 1º poder?

É sustentável esta democracia ter características de fascismo?
É insustentável ter ministros mentirosos, oposições arruaceiras sem sentido de responsabilidade, presidentes medíocres, administradores corruptos, bancos e empresas públicas com lucros obscenos?


ETC. ETC. ETC.

NÃO FALEM DE SUSTENTABILIDADE P.F.

A ÚNICA COISA EM QUE PODEM FALAR ÀCERCA DO TEMA É DA "A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER" DO MILAN KUNDERA, de 1984.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

NÃO É FÁCIL





Ser-se artista é fácil. Ter o "dom" mais fácil ainda.
É estar acima, vogar nos espaços siderais. É receber os eflúvios da lua.
Não se ser artista é muito mais difícil.
Os artistas suspiram nas pausas da arte. Os outros, os não artistas suspiram na realidade envolvente.
Digamos que um não artista não toca os raios de sol da intimidade. Aquela intimidade secreta e invisível onde universos inteiros se renovam sempre.
Nós, os Não Artistas, os outros, os que ficam à porta, sofrem as explosões, tocam-nas, mas não as conseguem transformar em formas; em cores azuis, verdes, laranjas ou vermelhos; em frases/pensamento, poesia.
É muito difícil ser-se um Não Artista, embora ainda haja a música.
A música ampara-nos, faz-nos sonhar acordados enquanto assistimos, quase manietados, à passagem dos esqueletos vários da democracia, de desejos humildes que tínhamos nas grandes avenidas de esperanças e lutas várias.

Como conseguimos sobreviver a tanta desilusão, a tanta miséria, a tanto crime? Como?
Como? Não sendo artista?
Os artistas, no meio das tempestades, construem momentos de paz, percorrem a luz, criam armistícios com a violência e a angústia. Voam mais alto, pairam nas nuvens da ternura da arte.
E nós, os outros?
Sobrevivemos com o intolerável. Choramos lágrimas nossas e dos restantes pelas mesquinhezas humanas.
Estou em crer, que quase é preciso ser ARTISTA para se o não ser.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PENSANDO EM VINICIUS





A minha pátria é inquietação,
Desolação.
Minha pátria senhoreca
Que passou de sem sapatos
a ter carros e a ingerir Ben-U-Rons.

Tens albergado gente má
Expulsado gente boa.
Sinto-me no exílio pátria minha.
Porque a minha pátria é como se não fosse.

Foi assaltada, vilipendiada, violada
Apareceu em coma ao outro dia.

Dá vontade de chorar só de olhar
Vontade de a mudar toda.
Está tão mal vestida e calçada
A minha pátria que dá dó.

Perguntaram-me no outro dia
Quem é a minha pátria?
Respondi: Não sei!
Às vezes sinto grande tristeza
Por ver a minha pátria tão doente.

Minha pátria povoada de simples
Mas de insaciáveis apetites
Cheia de ilusões.
É ela
É a minha pátria!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ZARZUELA






Este país transformou-se numa zarzuela. Há figuras que se destacam nesta ópera cómica, pontificam até. Têm vozes insinuantes, veja-se a do Presidente da República. Mas há outras figuras, igualmente com amplos créditos firmados na opereta e na comédia, como é o caso do Primeiro-Ministro que poderia ser considerado como um manual de suficiência de modos, qual CONDE DANILO na opereta de Franz Léhar da Viúva Alegre, de que tanto Adolf Hitler gostava. Há ainda a considerar os pífios. Há uma máxima grega que diz: "Gnôthi séauton nosce te ipsum" que quer dizer: Conhece-te a ti mesmo. É bom que o país, todos nós, saibamos o que somos, onde estamos, para onde vamos. Eu penso que estamos entre o FADO E A ZARZUELA. Somos um país de opereta, com partes faladas e outras cantadas. Não há dúvida que pertencemos e somos Ibéria e neste preciso momento, estamos mais do lado da ZARZUELA.

domingo, 29 de novembro de 2009

O PENSAMENTO POSITIVO




O pensamento positivo está na moda.
Circulam camiões e camiões nas nossas estradas deste produto.
Descarregam-no nas livrarias (Dan Brown, José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Margarida Toda Cor-de-Rosa, etc.)
As farmácias também comercializam pensamento positivo.
As caixas de correio electrónicas estão a abarrotar destes panfletos.
A tristeza merece castigo. Quem está triste devia ir para a cadeia, não merece viver.
Não é um ser normal.
Toda a gente prescreve mezinhas para o pensamento positivo e, não são só os brasileiros, campeões desta fórmula para a indústria.
Mas não se pense que o pensamento positivo só oferece desvantagens, como tudo na vida,há também o outro lado. Assim, quem tenha comprado pensamento positivo em livros, pode dizer aos amigos que lê muito, que não é nenhum (iliterato) que possui uma biblioteca carregada de Paulos Coelhos de todos os países, que regrediu à adolescência eterna, que são iguais a toda a gente, que pertencem a um grupo (ao grupo que fornece as estatísticas para a iliteracia, que já não lêem só UM livro por ano que lêem todos os Códigos Da Vinci que forem editados).
Mas tudo é bom quando acaba bem. A escola portuguesa através dos seus actores principais, os professores, considera que o importante é ler, ler nem que seja mau.
Os oftalmologistas devem ter comissão nesta recomendação porque ao fim duns anos de hábitos de má leitura, os olhos estão cansados, logo mais óculos se vendem para ver se ainda se chega a tempo de ler bons livros.

sábado, 28 de novembro de 2009

A DESENHAR



Se fosse possível ver as nossas vidas de longe como vemos a das biografias, tudo era contínuo, em linha recta.
Mas a vida que nos pertence, é por nós vista como um traço descontínuo.
Vamos desenhando a nossa vida, apondo mais pinceladas, mas como não é duma tela que se trata, não nos podemos distanciar para poder desenhar e pintar com maior precisão e beleza, traço a traço, as impressões que queremos que figurem na tela.
Estamos dentro da vida, por isso não vemos bem o quadro. Estamos demasiado perto, não distinguimos as imagens, apenas um conjunto de traços.
Vivemos em trânsito.
É do fundo de nós que construímos ou desconstruímos conforme as necessidades.
Não podemos recriar a vida como se recria um texto, apagando episódios, retirando parágrafos, colocando vírgulas, como se faz quando se escreve ao computador, mas podemos reordenar o texto, trabalhar na síntese.

No meu caso, vou dedicar-me, na tela da vida, ao cantinho da memória.
Agora queixo-me da falta de memória, mas se recuar nos tempos, ela nunca laborou com afinco, mas se a comparar com a de alguns dos meus contemporâneos jovens que a têm em tão mau estado que chegam ao ponto de pensar que o mundo é da mesma idade deles, então posso considerar-me uma privilegiada.
Como a nossa vida está sempre em recurso, podemos e devemos acrescentar-lhe mais alguns pontinhos . Estou a lembrar-me do desenho impressionista de A. Durer.

Hoje, sugiro que o façamos através da memória, que nos agarremos à memória viva.
A memória mantém-nos vivos e tem entre muitas outras virtudes, a de suscitar questões e respostas que suscitam outras questões e fazer com que as palavras dos homens nunca consigam esgotar os infinitos sentidos da outras palavras, das dos tempos, das que vivemos, vimos e observamos.
A nossa vida é uma obra inacabada e a memória também.
Precisamos da memória para prosseguir no diálogo.