A propósito do 11º ano de Correntes d'Escritas que se realizará do dia 24 a 27 deste mês, na Póvoa do Varzim, pergunto-me sempre qual o papel do público nestas conferências ou eventos, como agora se diz.
Neste caso, os conferencistas são escritores e os participantes leitores, em princípio, aqueles que gostam de conhecer os escritores pessoalmente.
Pessoalmente, já fui conferencista, não aqui mas noutros locais e com outros públicos e talvez por isso me tivesse surgido este tema hoje (continuo sem saber como me surgem os temas e dos vários que surgem como os selecciono).
É do lado do público que me coloco hoje e que me interrogo.
Porquê estar lá, porquê ver os escritores em carne e osso, com voz, como pessoas iguais a todas as outras, se o mais importante é lê-los, é precisamente retirá-los desses contextos de realidade.
Então porque se assiste? Não há "voyeurismo" nisto? O que se passa?
É para se fazer parte do grupo? O sentimento de pertença é que move?
O público é desconhecido para os escritores.
Cada um, por certo, leu cada folha, cada frase duma maneira diferente e única, sendo que cada livro de cada autor foi reescrito tantas vezes quantas as lidas.
Vêem coisas que os autores nunca pensaram.
Será que para os leitores/participantes, mais importante que a obra, é a pessoa que a cria? Como veste, como se comporta, como anda, como fala, etc.? Há como que um "conhecimento conhecido" nisto tudo. Há muitos actos da vida que me(nos) surpreendem.
Antes não havia estes encontros que são absolutamente queridos aos editores e livreiros. Para os escritores é como que cumprir uma obrigação com o editor, fazer o "mailing" do livro que saiu, dar-se a conhecer, enfim, são um produto para se comprar e como tal é necessário, publicitá-lo.
Mas o público? Qual o frémito que tem nisto?
O público explorador, o público que lê os outros para os tornar noutros, que reescreve.
Penso que os escritores devem ter uma enorme vontade de voltar as costas ao público. Mas isto sou eu a pensar o que do outro lado pensam e o que pensarão mesmo?
E nós, os participantes? O que retiramos de prazer na nossa presença?
É perturbador reflectir-se sobre isto. Somos potenciais compradores, sem dúvida. Há até livros a vender como duma feira se tratasse, bem como lançamento de livros pelas editoras.
Não sei porquê, mas faz-me lembrar reuniões de "tuppwares" que se faziam na minha juventude e a que assisti uma vez.
De que falam realmente os conferencistas/escritores quando falam dos seus livros, da sua vida? Alguns há que têm um prazer especial em se esconder, de se blindar frente a esse público, outros o prazer é o contrário, mais raros estes do que aqueles.
Mas o público, "genius loci", quer falar do espírito do lugar?
"THE SHOW MUST GO ON" e lá está o público, os participantes.
Sempre pensei que ao escritor estivesse reservado o lugar do morto no jogo da escrita, mas as editoras não pensam assim.
Enquanto participante, considero que o escritor escreve sempre para ele, não espera nada dos outros, a não ser que compre, claro, e para isso, precisa de gostar do que lê.
O escritor deve pensar que não é fácil lidar com o público, que abraça mas também odeia, mas o público pensa o mesmo do escritor.
O público, cada elemento que dele faz parte, também precisa de se isolar para ler, para explorar as obras. Então porquê estar ali?
Esta dupla escritor-leitor e vice-versa é interessante, porque ambos são solitários de si mesmo, até que os editores e livreiros marquem o encontro e as Câmaras Municipais façam o espírito do lugar.
O acto, neste caso de ler, já não é o que era, já não está garantida a total intimidade, já se conhece o autor(a).
Não é fácil, mas estes encontros estão a multiplicar-se no nosso país e em todo o mundo. Sinais dos tempos.
