domingo, 28 de março de 2010

AMOLGADELAS NOS DIAS

Nem sempre temos muitos instrumentos para interpretar aquilo que vemos, aquilo que nos acontece.
Há irracionalidades que não entendemos.
Há pessoas que ao absterem-se de tomar atitudes são indecorosas, actuam pela surdina.
Há pessoas que se parecem com animais perdidos à sombra do que podia ser e não será. Nunca sabem onde mora o pecado.
Há pessoas que suspendem a vida ou a razão dela, arredondam a voz, ocupam-se de nos adoecer, são violentas porque não falam, têm intuitos deliberados, vêem a água arder e nada fazem.
Não gosto de resignados, de asténicos morais.
Há pessoas que cujas ambições os destacam dos demais e que por isso mesmo não são de leitura fácil. Apresentam-se pacientes sem idade. Perturbam-me. Parecem irreais.
Não sei até se se assemelham a artistas em que falar ou não falar acaba por ser tudo arte.
Há pessoas que têm a arte e a distinta lata de serem os ausentes sempre presentes e costumam pôr ordem na desordem das vidas que os rodeiam.
Falta-me saber se confundem fantasia com realidade. Para mim, actuam como uma espécie de bailarinos, com exercícios de equilíbrio, em cima das camas, das mesas que por sua vez estão pejadas de objectos que enchem tudo e me obnibulam o pensamento.
Os encontros com estas personagens limitam-me, fazem-me parecer um livro em branco, embora saiba que para elas o efeito é o contrário, é desta forma que ilustram a sua história.

(tal como) ALEXANDRE HERCULANO





Ele escolheu o retiro de Vale de Lobos, eu Entre-os-Rios, trata-se duma imagem recorrente dos desiludidos da política e da governação dos homens, incluindo autarcas.
Alexandre Herculano nasceu há 200 anos (28/3/1810) faz hoje.
O meu pai chamava-se Eurico, devido ao título da sua obra mais conhecida "Eurico o Presbítero".
Herculano passava férias em Penafiel, na quinta duns amigos e eu gosto muito desta terra, do meu pai e da minha avó, em que os meus antepassados se cruzaram com o escritor.
Mudamos muito enquanto nação desde essa época?
Se calhar não.
Cá estamos a repetir falhanços e falsas esperanças de há dois séculos, a nossa tragédia mantém-se. O país continua um altar de gula e cobiça.
Alexandre Herculano era um pensador e historiador importante.
D. Pedro IV nomeou-o bibliotecário da Biblioteca do Porto.
Foi sócio da Academia das Ciências de Lisboa (1852).
Recusou honrarias e condecorações, recusou fazer parte do primeiro Governo da Regeneração, chefiado pelo duque de Saldanha.
Numa carta a Almeida Garrett confessou ser seu desejo ver-se entre quatro serras, dispondo de algumas leiras , umas botas grosseiras e um chapéu de Braga.
Homem frágil e de carácter inquebrantável, dizia: "isto dá vontade de morrer", decepcionado pelo espectáculo da vida pública portuguesa.
Lembro-o hoje aqui como sua grande admiradora. Herança que herdei de minha família paterna que também o admirava.

quinta-feira, 25 de março de 2010

EXCEPÇÃO PRECISA-SE





Desobriguem-nos do comum, do vulgar.
Precisamos todos de uma sabática.
Fintas da História já chegam.
Conhecemos todas as combinações de todas as modelações de todas as hipóteses de governação, legitimadas por eleições. É absolutamente verdade.
Vemos demasiadas pessoas sem nada que fazer ou perder. Demasiadas pessoas sem sonhos, sem esperanças e vemos os predadores profissionais.
Somos muitos e encontramo-nos mutilados de crenças e descrenças com cansaços históricos, com gritos de angústia e fome de excepções.
Assistimos à entronização dos novos bandidos. Bandidos transformados em respeitáveis políticos, outros menos respeitáveis, banqueiros e gestores públicos, esta nova profissão de liquidatários, colocados no epicentro de todos os projectos.
Assistimos durante todos estes anos a estes cínicos todos, jurarem uma coisa e a acreditarem noutra, o último foi o Ministro das Finanças acerca dos impostos. Não aumentava impostos e o que fez?
Afinal por mais de 1,5 milhões de reformados, dos quais 900 mil de titulares de pensões mínimas haverá "actualizações anuais".
Afinal os aumentos no IRS afectarão 4,6 milhões de contribuintes e não só 1,1 milhões de portugueses.
Estão sempre a ver onde podem roubar aqueles que não podem furtar-se ao roubo. Ameaçam, inventam mentiras novas, colocam a culpa na crise mundial, em Bruxelas e nos "ratings".
Pagamos muito caro, muito caro pela liberdade de expressão. A liberdade tem o custo da guerra.
Os nossos ideais esboroam-se.
Queremos excepções, pelo menos uma, uma excepçãozinha por favor.
Que carentes estamos de excepções!

domingo, 21 de março de 2010

TODOS OS BURACOS

É exactamente isso o que estás a pensar.

Há mais buracos neste país, refiro-me aos diversos desaparecimentos de processos que se verificam, por exemplo, aquele em que falava da isenção do IVA do prédio em que Sócrates comprou o andar, o desaparecimento das fotografias dos violadores de casapianos, o desaparecimento da carta da família pedindo à Direcção da escola em que aquele professor que se atirou da ponte 25 de Abril por não poder suportar os maus tratos de que era sistematicamente e impunemente vítima, trabalhava. Vem isto a propósito duma crónica do jornalista Manuel Pina no JN em que diz que já ninguém reage a mais uma notícia que anuncie estranhos desaparecimentos de documentos.
Políticos, figuras públicas, banqueiros, autarcas, políticos e todos os seus acólitos desfiguram a realidade, munem-se de uma sensibilidade nervosa.
Vivemos anos de delinquência.
Os documentos, as provas são sugados. Há como que uma espécie de assalto à nossa memória futura que ruma ao arquivo morto. Se um dia for descoberta será maior que a Torre do Tombo e muito falará do povo que somos. Há uma espécie de palco em que todos reconhecem no outro uma necessidade que complementa a sua.
Há interesses mútuos nestes silêncios que são garantias para o estabelecimento duradouro destes desaparecimentos.
Todos dependem uns dos outros, hoje silencio eu, amanhã silencias tu, temos que ser uns para os outros.
Afinal, verificamos atónitos que o segredo não é desprezado, em certos casos, aqueles e tão só que convenha calar.
A lista de dependências e de dependentes alastra e mesmo aqueles que gritam de protesto, apenas fazem que gritam. Gritam sem protestar.
A arte do fingimento e da subtiliza campeia, claro que tudo isto leva à aspiração de viver no mundo, e ao mesmo tempo, não viver nele, e desapegar- mo-nos totalmente, como forma de encontrar técnicas de sobrevivência.
Quase todos são parecidos com quase todos.

sábado, 20 de março de 2010

PORQUE HOJE É DIA DO PAI

Querido paizinho,

Como estás?
Quero-te oferecer um livro que comprei para ti. É um novo, descobri-o agora, é pequeno e tem as letras grandes.
Vais gostar, vais ver, só espero que a Paula não compre o mesmo.
E depois, depois podes lê-lo na cama e também não pesa muito. Tem tudo o que é necessário.
Estás a rir-te?
Pois claro! Mas aí onde estás também te apetece ler, não é verdade?
Não podes estar sempre a ouvir música celestial, que diacho!
Também te envio um CD da Mafalda Arnaut porque tu gostas.
Olha, vê lá se vamos dar um passeio qualquer dia, pira-te daí, ao menos por um dia paizinho, é que o tempo vai melhorar e podíamos ir atè à Foz ao domingo de manhã ou outro dia qualquer. Agora temos todo o tempo do mundo e eu apetece-me falar contigo, tenho muitas coisas para te contar. Podemos discutir se quiseres também um bocadinho, não é? Claro, é sempre mais divertido.
Telefona-me a combinar.
Até logo, meu querido.

sexta-feira, 19 de março de 2010

LIBERTEMOS ENDORFINAS




Apetece-m rir,mas apetece-me também que riam comigo.
Rio agora mais do que antes, porque antes sorria mais do que ria.
O riso liberta e que bom é dar uma boa gargalhada. Não nos fiquemos pelo sorriso apenas.
Um riso puro, de criança ou de adulto que o imita é fantástico!
Rio-me de alegria e felicidade, de prazer e satisfação mas também me rio com vontade com o que vejo na televisão, ainda ontem me ri às gargalhadas com a má disposição e atitude duma parte da bancada do PS, fechando os computadores e do empenhamento do Sr. Presidente da A.R., Jaime Gama, ao ter mandado por três vezes um Secretário de Estado levantar-se e dirigir-se à A.R. e ao seu Presidente em termos formais, para falar.
É maravilhosa a comunicação através do riso, estabelece logo à partida, uma outra interacção e ainda por cima é contagioso.
Há sessões terapêuticas só centradas no riso, já para não falar dos diversos músculos faciais que movimentamos numa boa risada. Por isso, a minha sugestão de hoje é: riam-se, riam-se por tudo e por nada, porque rir faz bem e acumulem o riso à leitura das situações sociais e políticas do país. É também uma forma de sobrevivência.
Quando rimos para alguém, estamos a dizer-lhe que nos estamos a ligar a elas, ficamos felizes e fazê-mo-las felizes.
Quero rir, rir como quando o meu pai me colocava nos seus joelhos, quando eu era criança, me elevava e me fazia cócegas.
O nosso riso activa o sistema cardiovascular e não só, aumenta a pressão arterial, por exemplo.
A raiva e a frustração diminuem a imunidade do nosso sistema, aumentam o colesterol e a frequência dos ataques cardíacos. O riso, pelo contrário, pode promover mudanças hormonais benéficas e libertar transmissores neuroquímicos chamados endorfinas que reduzem a sensibilidade à dor a promovem sensações de prazer e de bem estar.
Mas o que eu gosto mesmo é que me digam que gostam muito de me ouvir rir, em especial, quando se trata de pessoas que eu também gosto muito de ouvir rir.

PEC OU FUTURO QUE AINDA NÃO É PASSADO


A imagem representa a Alegoria do Tempo Governado pela Prudência (Ticiano - 1565)
Passado, presente e futuro entrelaçados no tronco comum dos tempos, simbolizados pelo lobo, leão e o cão



Sinto-me no futuro governado pelo passado.
Os governantes de hoje, a soldo de Bruxelas, imprudentes, projectam-nos, duma forma catastrófica para um futuro que ainda não é passado, logo impossível (porque não tem memória) mas passível de ser analisado.
Governantes da FAST governação. Irresponsáveis do presente, seguidistas duma União Europeia dos ricos, amantes dos poderosos, enterram-nos o futuro num passado miserável.
A responsabilidade do presente ausentou-se. Fazem com que o presente aborte.Trabalham incessantemente, sem pensar, para a desagregação do estado. Desmantelam-no rapidamente (prevê-se privatizações a preços de saldo das principais empresas públicas e estatais (EDP, GALP,REN CTT e pior ainda as ÁGUAS de Portugal, entre 32 previstas) à custa de alguns milhões, prevê-se 6 milhões de euros, para segurarem más governações sucessivas, incluindo a actual.
Estes governantes e políticos só se interessam por eles e também por o louvor de Bruxelas que aplaude as medidas portuguesas do agora apresentado Programa de Estabelecimento e Crescimento- PEC.
Vivemos a liberdade sim, a única que nos distingue do fascismo, mas esta é sem objectivo e para nosso desamparo cada vez mais se parece uma outra forma de condenação.
Estamos todos presos e quando isso acontece cultiva-se a sensação de não estar em sítio nenhum como os fantasmas, o povo tornou-se especialista em silêncios, silêncios profundos, tão profundos que se encontram escondidos. Onde? à superfície.
Os governantes, estes e os anteriores e os futuros, quais predigitadores à maneira de Xerezade, que duma história è outra iludia o tempo, são imprudentes e encerram-nos no futuro que só será prudente quando já for passado.
Estamos desamparados, aqui, refiro-me à classe média, à qual pertenço, estamos encerrados pelo lado de fora.
Não vamos ter regresso, não conseguimos achar o modo do regresso ( e tantos modos há no modo de não haver regresso).
Somos matéria da memória, da memória activa, da futura quando passado formos.
Não temos a palavra, não no-la dão, só nos fazem falar para pagar impostos e aquando de eleições.
Os governantes exalam um cheiro suicida. Dizem adeus ao país pobre mas nosso e entregam-no à morte, dando-lhe apenas pouco tempo para viver.
Tenho medo de perder o meu país antes de o ter encontrado.
Estamos no fio da espada (somos um protectorado de Bruxelas para evitar falências), quem nos governa quer fazer deste país um género substituível. Pacificam e desconflituam os dias presentes, esforçam-se por libertar-se do que os oprime, a falência imediata e ficam contentes como animais.
Deixaram de imaginar. Deixaram-se reduzir e reduzem-nos.
Há uma deriva cartográfica do corpo nacional.
Contribuem duma forma acelerada para destruir "territórios" em tempos conquistados, com finalidades obviamente controversas.
Estes governantes para defender os interesses da minoria, a fracção dos políticos, gestores públicos e empresários com ou sem milhões nos off-shores, aproveitam para desenvolver uma guerra contra o povo em geral e a classe média em particular, aumentando-lhes os impostos, congelando salários, alterando as regras do jogo no final duma carreira contributiva, adiando as reformas, etc., etc.
Estão a atar Portugal, vamos ter que combater de novo, os novos que se preparem para virar o futuro e torná-lo um passado digno, somos o presente e este, tal como na Alegoria do Tempo, de Ticiano, deve ser governado pela Prudência.