Devíamos tratar a morte por tu, mas não é isso que acontece, nem os católicos de verdade, o fazem. Alguns tentam esquecer.
Todos somos sobreviventes, tens diante de ti, diante de vós, uma sobrevivente. Faço parte, como vós igualmente.
Estamos todos na linha de montagem, embora cada um de nós evite a sua vez muitas vezes, no meu caso coleccino os pormenores.
Não conseguimos fugir-lhe, mesmo que lhe ofereçamos todos os nossos bens, não é corruptível, considera toda a gente igual.
Os fanfarrões, os dogmáticos, os burgueses, os idiotas, os maus, os bons, todos se vão.
Claro que não pensamos na morte, isso só acontece quando nos morre alguém que conhecemos e temos que contactar com ela mais de perto, mesmo assim, quando nos poupa o sacrifício do corpo, quando só pratica antropofagia psíquica ou o assassínio da alma, é só durante um certo tempo. Às vezes dá-nos lugar à solidão, quando nos leva os nossos entes mais queridos, mas ainda aí, o corpo medita o espírito e a tristeza promete a lucidez e só fazemos um intervalo da morte quando as lágrimas secam e se instala o luto.
Nestas altura reflectimos e acreditamos que não somos tudo.
Vivemos em busca dos prazeres e muitos de nós também buscam objectivos, enquanto assim é, a vida torna-se clara e paradoxalmente repousante.
Conhecemos pessoas que se querem sempre apaixonadas, em constante princípio do prazer, exactamente para fugirem e se protegerem do desaparecimento, torna-se uma espécie de refúgio, embora a morte duma paixão os torne uma espécie de extra-terrestres, mas que preferem ignorar.
Carregamos connosco toda a carga de amargura, de ternura, de deixa-andar fechada a cadeado, insuspeitos fardos que acumulamos, brincamos a pessoas normais, às vezes a adultos, outras a intelectuais, mas não deixamos de ser aquele ou aquela rapariga que nos conhecemos na juventude que mora por baixo das palavras. Podemos até construir personagens, coleccionar segredos e somos uns desconhecidos para nós-mesmos. Quando o deixamos de ser a morte está perto.
Há mortes que mais não são que um estoirar de amargura.
Vou acabar este tema hoje, se calhar ainda não estou preparada para o abordar, mas de tantas vezes que me visita, necessidade tenho de o "debater".
Prefiro terminar com um tema, que será um dos próximos a abordar e que é a paixão ou as paixões, já no outro dia abordado, no que confere à idade uma certa habilidade para jogar com o prazer, com o que concordo.
Quanto à morte só lhe podemos marcar encontro, escolher a ocasião sem sermos surpreendidos por si numa única situação, se nos concentrarmos e quisermos ter o sentido do limite, de contrário é sempre ela a mostrar-nos os nossos limites e os dos outros, é irmã gémea da vida.
Logo que possa, eu, tu, ele, nós, vós, eles vamos esquecer tudo isto e continuarmos nos pormenores do quotidiano, insignificantes, mesquinhos, até horríveis, mas estes assuntos também, se calhar, farão parte apenas dos nossos diários íntimos, se conseguirmos lá chegar.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
José Carlos Ary dos Santos
AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Lisboa, Julho-Agosto de
1975
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
terça-feira, 24 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
ATÉ AO DIA 25 DE ABRIL DAREI A VOZ A OUTROS
POR José Alexandre Rodrigues Henriques O ANTES E O DEPOIS DE 25 DE ABRIL DE 1974
Nasci em 1955, o que equivale
a dizer que vivi 19 anos no regime ditatorial do Estado Novo, tempo mais do que
suficiente para sentir os efeitos da opressão e do despotismo exorbitante que
era exercido pelos órgãos do poder e pelas classes sociais mais favorecidas,
sobre os mais pobres e desprotegidos. A injustiça social começava logo pela
impossibilidade dos jovens oriundos de famílias pobres poderem estudar para além
da 4ª classe, pois não existiam apoios para que isso pudesse acontecer. Assim
apenas alguns, nem sempre os mais inteligentes, podiam aspirar a frequentar um
curso superior, sendo cerceada essa hipótese a outros, com boas aptidões, apenas
porque não tinham tido a sorte de terem sido postos no mundo por progenitores
ricos. Isto mesmo foi o que se passou comigo, que apenas pude estudar até à 4ª
classe, tendo que iniciar a vida de trabalho aos 10 anos. Não quero dizer com
isto que tivesse uma inteligência invulgar o que possuísse fortes aptidões para
os estudos, creio até que não tinha e, a prová-lo, está o facto de só ter
conseguido a obtenção do 12º ano há cerca de um ano atrás; apenas me refiro ao
que de facto aconteceu, que era afinal o que se passava com a maioria dos
jovens, na altura. No entanto conheço algumas pessoas, mais ou menos da minha
idade, que concluíram licenciaturas em regime de trabalhadores estudantes,
começando a exercer tardiamente a sua profissão, tendo havido assim um
desaproveitamento de talentos que, de algum modo, terá prejudicado o
país.
Embora já existisse alguma
legislação sobre matéria laboral, ela era manifestamente insuficiente para
proteger os trabalhadores do autoritarismo de alguns patrões que, visando apenas
o lucro, admitiam e despediam trabalhadores a seu bel-prazer, fazendo-se aqui
notar a ausência de sindicatos livres, apesar de eles já existirem, o que era
comprovado pela quota sindical descontada nos salários. Assim era frequente o
despedimento individual e colectivo de trabalhadores sem que fosse efectuada
qualquer negociação ou pagamento de indemnizações e sem direito ao recebimento
de subsídio de desemprego. Felizmente naquela altura (refiro-me ao período entre
1965 e 1974), as ofertas de emprego eram maiores do que actualmente, o que era
devido, em parte, ao facto dos meios técnicos de produção não estarem ainda
amplamente desenvolvidos e haver necessidade de muita mão-de-obra humana. A
atestar isto mesmo está o facto de, neste período, ter sido impedida de se
instalar em Miranda do Corvo, uma empresa que ali pretendia construir uma
fábrica para produzir produtos para construção, a que os empregadores do
concelho se opuseram com receio de falta de trabalhadores para as suas
indústrias.
Outra condicionante económica
das pessoas mais pobres era o facto do comércio ser muito restrito, existindo
pouca concorrência, o que no caso da aquisição de bens essências se tornava
problemático devido à impossibilidade de escolha, existindo por isso uma
sujeição aos preços praticados pelas mercearias, ao contrário do que hoje
acontece com a imensidão de grandes superfícies comerciais o que impede, de
algum modo, o inflacionamento dos preços.
Nesta altura não existia
liberdade de imprensa, sendo camufladas muitas noticias que diziam respeito às
lutas dos trabalhadores e também a desastres ocorridos na guerra do Ultramar,
sendo ocultado ou diminuído o número das baixas sofridas pelos nossas tropas,
para não ferir ainda mais a imagem do governo, originando assim a existência de
altos níveis de ignorância sobre a verdadeira realidade do país.
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| Embarque de tropas para África |
Mas o facto mais marcante
deste período foi, sem dúvida, a guerra colonial que teve o seu início em 1961 e
se prolongou até 1974. Na vida dos jovens estava sempre presente a obrigação do
cumprimento do serviço militar, o que condicionava os seus planos para o futuro,
existindo por isso uma incerteza e uma angustia permanente dos pais sobre o
futuro dos seus filhos, existindo, por isso, o desejo de que essa guerra
terminasse o mais rapidamente possível. Não foi de estranhar, portanto, a enorme
alegria sentida pelo povo quando soube das acções desencadeadas pelas Forças
Armadas, para pôr fim ao regime opressivo do Estado Novo, que possibilitou o
inicio das negociações com os Partidos Africanos de Libertação, para o fim das
hostilidades, com vista à sua independência.
Esperava-se muito da
revolução. O povo queria, com todo o direito, melhores condições de vida e um
futuro melhor para os seus filhos e por isso aderiu de alma e coração aos ideais
do Movimento das Forças Armadas, na esperança de que com novas pessoas e outro
sistema político as coisas evoluíssem no sentido de serem criadas novas
oportunidades, de uma mais justa distribuição da riqueza e, sobretudo, que fosse
posto fim ao conflito ultramarino.
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| Cartaz publicitário dos S.U.V. |
Os meses que se seguiram à
revolução foram de alguma confusão e anarquia, principalmente no seio das
próprias Forças Armadas, onde durante algum tempo grassou alguma indisciplina,
tendo sido criado um movimento clandestino que apelava à união dos soldados e de
todos os trabalhadores para prepararem condições com vista à destruição do
Exército burguês e a criação do braço armado do poder dos trabalhadores: O
Exército Popular Revolucionário. Este movimento denominava-se S.U.V. Soldados
Unidos Vencerão e, eu próprio, cheguei a deslocar-me a Évora para participar
numa manifestação promovida por este movimento. Este período conturbado teve o
seu apogeu no «verão quente» de 1975, terminando com o golpe
contra-revolucionário de Novembro de 1975.
Foi um período épico, com
amplas massas populares a tomarem em mão a construção dum futuro melhor, no
qual, então, acreditavam. Período épico e alucinante, com um ritmo desenfreado
de acontecimentos naquele «verão quente»: ocupação de casas
vagas, nacionalizações, “caso República” (19 de Maio), Lei do Divórcio, «caso
Rádio Renascença» (25 de Maio), prisão de elementos do MRPP (28 de Maio),
independência das antigas colónias africanas, fuga de vários elementos da
PIDE-DGS, da cadeia de Alcoentre (30 de Junho), assaltos e massiva destruição de
sedes dos partidos de esquerda no Norte; ameaça separatista nos Açores; famoso
discurso de Vasco Gonçalves (em Almada, a 18 de Agosto), pronunciamento de
Tancos contra Vasco Gonçalves (2 de Setembro), desvio de 1000 espingardas
automáticas G3 do Depósito Militar de Beirolas (10 de Setembro), posse do VI
Governo Provisório, chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo (19 de
Setembro), assalto e destruição da embaixada de Espanha (27 de Setembro), 50
feridos nos confrontos junto ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, no
Porto (8 de Outubro), grande debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal na RTP,
com o célebre «olhe que não, olhe que não!» (6 de Novembro),
ataque à bomba contra os emissores da Rádio Renascença, ordenado pelo Governo (7
de Novembro), famosa manifestação pró-governo no Terreiro do Paço, com o
deflagrar de granadas de fumo, dando origem à celebre frase do primeiro-ministro
Pinheiro de Azevedo: «o povo é sereno. É só fumaça» (9 de
Novembro), manifestação de trabalhadores da construção civil junto à Assembleia
Constituinte e Palácio de S. Bento, com vaias ao primeiro-ministro Pinheiro de
Azevedo, o qual retorquiu com o contundente «vão à bardamerda»
(12 de Novembro), o Governo entra em greve e suspende o exercício da sua
actividade, acto inédito no mundo (20 de Novembro).
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| Assembleia Constituinte |
De facto foram tempos difíceis
para o país e a mudança para melhor, tão esperada pelo o povo, tardava em
chegar. Mas o país tinha imensos problemas para resolver e não se podia esperar
que fossem resolvidos de um dia para o outro. Estava em elaboração uma nova
constituição para a República Portuguesa, tendo sido realizadas, em 25 de Abril
de 1975, eleições por sufrágio directo e universal, para formar uma assembleia
parlamentar que foi designada de Assembleia Constituinte, que teria a seu cargo
a missão de elaborar, discutir e aprovar as leis fundamentais por que o país se
iria reger. A nova Constituição foi concluída em 31 de Março de 1976, tendo sido
aprovada em votação final global em 2 de Abril.
Nesta altura já tinham
regressado muitos soldados portugueses das províncias ultramarinas, no entanto,
em Angola, apesar da proclamação da sua independência ter ocorrido em 11 de
Novembro de 1975 e, devido à sua complexidade especifica, derivada da existência
de três partidos de libertação, que não se entendiam, ainda por lá se mantiveram
algumas tropas, estando lá, precisamente nesta altura, o meu irmão mais velho,
que prestou serviço militar em Cabinda e que para lá foi destacado já após a
revolução. De resto Angola após a independência passou a viver uma nova guerra
que praticamente só terminou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi líder da
UNITA, um dos três movimentos de libertação.
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| "Retornados" livro de António Trabulo |
Mas Portugal tinha outro
problema em mãos, que era o regresso dos portugueses de África, os denominados
“retornados”, que chegavam em massa a Portugal; muitos deles tinham deixado
todos os seus haveres em África e era por isso necessária uma intervenção activa
com vista à sua integração. O regresso destes portugueses, feito em condições
tão adversas, terá sido motivado pela descolonização um pouco apressada que foi
feita, sem que tivessem sido acautelados alguns dos seus direitos. No entanto,
apesar das dificuldades, acho que foi feita uma óptima integração destas pessoas
e, passado algum tempo, já a maioria tinha a sua vida novamente organizada, pois
eram pessoas habituadas a lutar, que não se deixaram vencer por estas
contrariedades.
Passado este período muito
difícil da vida do país, as coisas começaram lentamente a melhorar tendo até, na
década de 80, havido algum desenvolvimento e, consequentemente, um aumento de
postos de trabalho e uma melhoria das condições de vida dos portugueses. Em 12
de Junho de 1985 é assinado o tratado de adesão de Portugal à Comunidade
Económica Europeia, tendo vindo para o país elevados fundos destinados a ajudar
o desenvolvimento e a estimular a economia, com a formação de novas empresas.
Infelizmente muitos desses fundos não foram bem geridos e terá havido uma
utilização menos própria desse dinheiro, por alguns sectores empresariais, o que
terá impedido um maior desenvolvimento do país nos anos seguintes à adesão. No
entanto, até finais da década de 90 e do século XX assistiu-se a uma
significativa melhoria das condições de vida dos trabalhadores, com o aumento
dos salários e uma maior estabilidade no emprego.
Infelizmente a partir do
inicio do novo século, coincidente com a adesão de Portugal à moeda única
europeia, houve um regredir da situação, talvez derivado de má gestão e
políticas erradas de alguns governos, o que faz com que actualmente, os
trabalhadores e o povo em geral, se vejam confrontados com a deterioração dos
rendimentos provenientes do seu trabalho, agravada com o aumento constante do
desemprego e da precariedade no trabalho, com medidas impostas aos
trabalhadores, principalmente na Administração Pública, completamente injustas
que agravam, sobretudo, as condições dos trabalhadores mais novos, que se vêm
impedidos de subir nas carreiras, auferindo salários bastante mais baixos, o que
configura uma situação de violação dos direitos humanos, cuja Declaração
Universal diz no seu artigo 23º que “todos têm direito, sem
discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual”.
Neste novo século, as
tecnologias de informação e comunicação têm tido uma enorme evolução e, o
governo actual, tem estado a investir fortemente em equipamentos informáticos,
tentando também aumentar as qualificações dos portugueses através do programa
«novas oportunidades», dando assim seguimento ao seu plano
tecnológico.
Em resumo, a vida no país após
a revolução, comparativamente ao período de 1960 a 1974, caracterizou-se
essencialmente pela vivência e participação democrática do povo, com a
realização de eleições livres para os diferentes órgãos de poder e pela
liberdade de imprensa e opinião, no respeito pelas diferenças e pelas conquistas
alcançadas pelos trabalhadores como: o direito à greve, a implementação do
salário mínimo nacional, o direito ao subsídio de desemprego, o direito a férias
e respectivo subsídio, protecção do emprego, a universalização do direito à
segurança social e à saúde.
Actualmente fala-se muito em
crise. Este termo está a ser utilizado para uma maior precariedade e
despedimento de muitos trabalhadores, fazendo aumentar o sentimento de mal-estar
e revolta das classes mais desfavorecidas. É certo que a crise existe e está
perfeitamente instalada no nosso país, no entanto era tão fácil diminuir os seus
efeitos e diminuir as injustiças sociais! Tenho ideias muito próprias a esse
respeito, que não vou dizer quais são, mas que tenho a certeza que teriam
sucesso se fossem implantadas. Ninguém ficaria prejudicado, pois não seria
necessário abdicar de nada que fizesse falta e toda a gente se sentiria melhor.
Vou levantar uma pontinha do véu e falar de uma medida que se fosse tomada
beneficiaria muitos trabalhadores, sem moralmente prejudicar
ninguém:
A maioria dos trabalhadores
aufere durante um ano 14 meses de remuneração, equivalentes a onze meses de
trabalho, um de férias, um de subsídio de férias e um mês de subsídio de Natal.
A retribuição correspondente ao subsídio de férias e subsídio de Natal é igual
ao ordenado dos restantes meses, descontado o respectivo subsídio de almoço. Por
este motivo muitos trabalhadores com ordenados elevados, podem perfeitamente
esbanjar em compras supérfluas pelo Natal o que a outros faz falta para
necessidades primárias. E o subsídio de férias? Porque é que uns podem ir para
as praias douradas do Havai e outros têm que procurar, no mês das suas férias,
tentar encontrar mais uma ocupação para obter mais uns “tostões”, para adquirir
qualquer coisa de que necessitem ou para pagar dívidas. A ideia era muito
simples e facilmente se poria em prática. Bastaria para isso recorrer a alguns
cálculos matemáticos, bem simples por sinal: Bastava somar um mês de ordenado de
todos os trabalhadores de uma empresa ou de uma instituição. O resultado dessa
soma seria dividido pelo número de trabalhadores e o resultado dessa divisão era
o que corresponderia ao mês de subsídio de férias ou Natal de cada um dos
trabalhadores. Era uma forma absolutamente democrática de fazer a retribuição de
fundos que não correspondem a trabalho efectivo e que atenuaria algumas
desigualdades. De resto isto é o que vigora em relação ao subsídio de almoço em
que é atribuída uma verba igual para todos.
O presidente dos Estados
Unidos da América, Barack Obama, recentemente eleito, anunciou o congelamento
dos ordenados de alguns dos seus colaboradores próximos, partindo do princípio
de que devia dar um exemplo às famílias americanas afectadas pela crise. Ora aí
está uma medida, que seria aplaudida pela maioria dos portugueses, se fosse
adoptada pelos nossos governantes. Andam para aí muitos gestores de bancos e
empresas públicas a auferirem ordenados imorais, de que é exemplo o governador
do Banco de Portugal, que está sempre a falar em contenção de salários, mas que
não fala em conter o seu! Na minha opinião o que faz falta ao país é uma equipa
governativa com coragem para tomar as medidas certas, sem se intimidar com os
arrufos dos privilegiados da nação.
Atualização em 24 de Março de 2012
Este artigo foi publicado em Maio de 2010, mas a história do pós-25 de Abril continua e, infelizmente, o que há a dizer sobre ela até este momento é muito negativa. O governo de José Sócrates tentava combater a crise implementando sucessivos pacotes de austeridade que ficaram conhecidos como PECs (Planos de Estabilidade e Crescimento). Não estava a ter sucesso nos seus intentos e a situação agravava-se de dia para dia, com o país a ter imensa dificuldade em se financiar, devido ao descrédito a que estava votado pelos mercados financeiros que cobravam juros muito altos, influenciados pelas avaliações negativas das agências de rating.
Atualização em 24 de Março de 2012
Este artigo foi publicado em Maio de 2010, mas a história do pós-25 de Abril continua e, infelizmente, o que há a dizer sobre ela até este momento é muito negativa. O governo de José Sócrates tentava combater a crise implementando sucessivos pacotes de austeridade que ficaram conhecidos como PECs (Planos de Estabilidade e Crescimento). Não estava a ter sucesso nos seus intentos e a situação agravava-se de dia para dia, com o país a ter imensa dificuldade em se financiar, devido ao descrédito a que estava votado pelos mercados financeiros que cobravam juros muito altos, influenciados pelas avaliações negativas das agências de rating.
Começou a pairar no ar a ideia de que o país não ia
conseguir escapar à bancarrota sem a intervenção do Fundo Monetário
Internacional, Banco Central Europeu e União Europeia (a Troika), intervenção a
que o primeiro-ministro se opunha terminantemente. O maior partido da oposição
espreitava a oportunidade para ocupar o poder e tentava lançar a ideia de que a
situação de crise era da exclusiva responsabilidade do governo que, no seu
entender, geria o país com incompetência.
Cada vez eram mais as vozes que se faziam ouvir
exigindo que o país recorresse à ajuda externa, tendo finalmente, em Abril de
2011, Sócrates se decidido pelo pedido de ajuda à Comissão Europeia, após o
chumbo do seu IV Plano de Estabilidade e Crescimento.
A
não aprovação do PEC IV levou à demissão de Sócrates, mas este ainda confiava
que seria capaz de obter uma nova vitória eleitoral, o que não se confirmou pois
o Partido Socialista foi derrotado pelo PSD nas eleições antecipadas realizadas
em 5 de Junho de 2011.
Pedro Passos Coelho substituiu José Sócrates no cargo
de primeiro-ministro, mas a exemplo dos governantes anteriores, quando tomou
posse fez exatamente o contrário do que prometera agravando ainda mais a já
periclitante situação de muitos portugueses, com o aumento de impostos, corte de
ordenados e eliminação de subsídios, estes últimos penalizando sobretudo os
trabalhadores da Administração Pública.
A
situação tem piorado de dia para dia com o aumento do custo de vida e o
encerramento de muitas empresas o que provoca um aumento exacerbado do
desemprego, sem que os governantes consignam dar uma resposta efetiva a esse
flagelo. A única resposta, para já, foi a sugestão do primeiro-ministro
convidando à emigração, o que é de algum modo um convite ao regresso ao antes do
25 de Abril, mais precisamente aos anos 50 e 60, quando muitos portugueses
procuravam no estrangeiro condições que o seu país não queria ou não lhes podia
dar.
O
25 de Abril de 1974 está cada vez mais longe no tempo e na esperança. Talvez por
isso muitos se interroguem sobre se esse dia valeu a pena. Outros há que
acreditam que só com uma nova revolução a esperança pode ser renovada. Uma coisa
é certa a História de Portugal escreve-se com intensidade.
Este trabalho foi elaborado
para o Processo RVCC – nível sec.- Núcleo SABERES FUNDAMENTAIS DR 4 -
Estabilidade e Mudança.
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