quinta-feira, 24 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
PORTUGAL ESQUIZÓIDE
As pessoas deixaram de ser pessoas para serem moedas e números.
Os governantes de circunstância têm cérebros de pardal uns e outros, são felizes por gerirem os nossos bens como se fossem deles, sem pecados, virgens de ideias.
Temos a presidir à República um velho economista liberal em passeio por terras longínquas com o seu séquito, à espera de chegar a casa para descansar e perguntar à mulher se gostou do passeio e do que gostou mais, a gozar as delícias de uma reforma repousada e farta.
Temos um governo incendiário.
Temos uma sociedade com carência de maturidade ética dos indivíduos.
Com todos estes ingredientes é o caos que se proclama vencedor. Nada ou quase nada é exacto e verdadeiro do que se lê e do que se ouve. As pessoas começaram a juntar as poucas palavras que conhecem, a maioria repetidas, como antigamente preenchiam cadernetas com cromos.
Todos pugnam pela festa da harmonia precária.
Todos falam, mas falam sozinhos em imensos solilóquios.
Tudo me parecem metáforas. Não encontro respostas explícitas em nada do que leio, encontro sim metáforas várias: a de como o ser humano pode viver alienado da realidade, em tempos de pessimismo e desorientação, a metáfora de como a economia afecta as relações humanas ou a metáfora da hipocrisia política e social.
Parece que estamos todos a endoidecer nesta loucura europeia de que fazemos parte.
Todos prestam depoimentos, apenas para não depor.
Todos ou quase se desculpam com os outros, mas nada dão de si. A má-fé e a cobardia é o ar que se respira.
Portugal está numa tal debilidade física e psíquica que uma simples lufada de ar lhe pode determinar a morte por pneumonia, no entanto não passou pela fase de hipersensibilidade ao frio; passou directamente da fase ideal à conformista, de desejar tudo para acabar a não pedir nada, a se conformar com tudo.
Portugal está em chaga, largou a pele e metade parte contando sarar sob outros céus e os restantes assistem a tudo como se estivessem a ver um filme passar em qualquer sala de cinema, como se não fôssemos nós os actores e os realizadores.
Tudo se passa como se não fosse connosco; às vezes vertemos lágrimas sentidas, que saem do fundo de nós próprios, compadecemo-nos com o que vemos, porque passa em todas as salas de cinema mais perto de nós, resistimos até ao fim e no final aflitivo, parece que desabafamos dizendo: "ainda bem que nada disto é connosco, é com os gregos, esses ignorantes que apenas gostam de se divertir e pouco de trabalhar, com os espanhóis, com os italianos, com os franceses, com... com...
Quando saímos destes filmes, vendo a luz clara do dia ou cintilantes da noite, pensamos pisar outros caminhos, inspiramos e expiramos, falando baixinho e consideramos haver uma mão cheia de possibilidades, por isso não partimos vidros ou estilhaçamos pouco a pouco.
Ao outro dia pensamos que estamos a pisar caminhos vedados e nenhuma estrada é a real e parece que estamos no filme de novo, dentro dele e forçamo-nos de novo, como uma criança que destrói um brinquedo a pensar sou eu que sou ignorante, que não estou a fazer uma análise correcta, esta não é a estrada que deve ser seguida, não sou escravo(a), ainda não, mas tão pouco mais livre que outrora e consideram que agora que não tem nada mais a sacrificar, nada mais lhes apetece escolher.
Naturezas pobres e bravias, agarrada a orgulhos desmedidos e grotescos e dizem de si para si, ninguém me esmaga, antes de me esmagarem, eu mordo-os, para de seguida, esses mesmos se esmagarem mais cedo do que tarde.
Não, não eram gregos e dobrados sobre a mesa sacudindo a espuma da cerveja, varrendo de vez os seus horizontes interiores tão longínquos quanto apagados.
nota: como quase sempre os tempos dos verbos são conjugados em diferentes pessoas, dependendo quiçá, de maior ou menor identificação, preferindo a autora publicar sem qualquer emenda para servir de sua memória futura.
Os governantes de circunstância têm cérebros de pardal uns e outros, são felizes por gerirem os nossos bens como se fossem deles, sem pecados, virgens de ideias.
Temos a presidir à República um velho economista liberal em passeio por terras longínquas com o seu séquito, à espera de chegar a casa para descansar e perguntar à mulher se gostou do passeio e do que gostou mais, a gozar as delícias de uma reforma repousada e farta.
Temos um governo incendiário.
Temos uma sociedade com carência de maturidade ética dos indivíduos.
Com todos estes ingredientes é o caos que se proclama vencedor. Nada ou quase nada é exacto e verdadeiro do que se lê e do que se ouve. As pessoas começaram a juntar as poucas palavras que conhecem, a maioria repetidas, como antigamente preenchiam cadernetas com cromos.
Todos pugnam pela festa da harmonia precária.
Todos falam, mas falam sozinhos em imensos solilóquios.
Tudo me parecem metáforas. Não encontro respostas explícitas em nada do que leio, encontro sim metáforas várias: a de como o ser humano pode viver alienado da realidade, em tempos de pessimismo e desorientação, a metáfora de como a economia afecta as relações humanas ou a metáfora da hipocrisia política e social.
Parece que estamos todos a endoidecer nesta loucura europeia de que fazemos parte.
Todos prestam depoimentos, apenas para não depor.
Todos ou quase se desculpam com os outros, mas nada dão de si. A má-fé e a cobardia é o ar que se respira.
Portugal está numa tal debilidade física e psíquica que uma simples lufada de ar lhe pode determinar a morte por pneumonia, no entanto não passou pela fase de hipersensibilidade ao frio; passou directamente da fase ideal à conformista, de desejar tudo para acabar a não pedir nada, a se conformar com tudo.
Portugal está em chaga, largou a pele e metade parte contando sarar sob outros céus e os restantes assistem a tudo como se estivessem a ver um filme passar em qualquer sala de cinema, como se não fôssemos nós os actores e os realizadores.
Tudo se passa como se não fosse connosco; às vezes vertemos lágrimas sentidas, que saem do fundo de nós próprios, compadecemo-nos com o que vemos, porque passa em todas as salas de cinema mais perto de nós, resistimos até ao fim e no final aflitivo, parece que desabafamos dizendo: "ainda bem que nada disto é connosco, é com os gregos, esses ignorantes que apenas gostam de se divertir e pouco de trabalhar, com os espanhóis, com os italianos, com os franceses, com... com...
Quando saímos destes filmes, vendo a luz clara do dia ou cintilantes da noite, pensamos pisar outros caminhos, inspiramos e expiramos, falando baixinho e consideramos haver uma mão cheia de possibilidades, por isso não partimos vidros ou estilhaçamos pouco a pouco.
Ao outro dia pensamos que estamos a pisar caminhos vedados e nenhuma estrada é a real e parece que estamos no filme de novo, dentro dele e forçamo-nos de novo, como uma criança que destrói um brinquedo a pensar sou eu que sou ignorante, que não estou a fazer uma análise correcta, esta não é a estrada que deve ser seguida, não sou escravo(a), ainda não, mas tão pouco mais livre que outrora e consideram que agora que não tem nada mais a sacrificar, nada mais lhes apetece escolher.
Naturezas pobres e bravias, agarrada a orgulhos desmedidos e grotescos e dizem de si para si, ninguém me esmaga, antes de me esmagarem, eu mordo-os, para de seguida, esses mesmos se esmagarem mais cedo do que tarde.
Não, não eram gregos e dobrados sobre a mesa sacudindo a espuma da cerveja, varrendo de vez os seus horizontes interiores tão longínquos quanto apagados.
nota: como quase sempre os tempos dos verbos são conjugados em diferentes pessoas, dependendo quiçá, de maior ou menor identificação, preferindo a autora publicar sem qualquer emenda para servir de sua memória futura.
terça-feira, 22 de maio de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
CONVERSA NOCTÃMBULA
É imperioso e urgente ter ilusões, ilusões que afaguem e acalmem a alma, digo de mim para mim.
É preciso tornarmo-nos vencedores e começarmos a narrar na 1ª pessoa, não deixarmos que os vencedores contem as nossas histórias, recusarmo-lhes esse privilégio. E reparo que não consigo ter ainda um/dois pensamentos, com o eu, acabo por voltar ao nós sem tão pouco dar por isso, eu que nem tenho qualquer vocação para política.
Nós que somos constituídos de espermas variados, entre os quais o dos Celtas, temos que ser capazes de arrancar definitivamente.
Não quero estar desavinda com o quotidiano. Não quero esta realidade que me rodeia.
Não quero ver as pessoas aflitas, a dizerem que não sabem se amanhã têm o que colocar ao lume no fogão. Não quero ver gente do meu país a correr para os médicos porque têm dores de tudo e essas dores são feitas na sua maioria de frustração, da frustração implacável que os vem mordendo há tempos sem qualquer piedade.
As pessoas estavam desprevenidas, mentiram-lhes, sentem-se oprimidas. Estão revoltadas, mas passivas porque têm um enorme complexo de inferioridade diante dos senhores todos que para aí pululam por os julgarem inteligentes. Ainda ontem ao falar com uma vizinha aqui na aldeia, o conceito de vizinha introduz alguma distância, mais uma vez verifiquei isso. Danificaram as famílias, muitas delas estão sem âncoras, algumas ajudam-se entre si, os mais velhos, com o pouco que têm, vão servindo de segurança social aos mais novos.
As suas lágrimas coincidem com as minhas.
Agora que a madeira da juventude já carbonizou para muitos de nós, ainda temos que acudir ao mundo que clama por socorro.
Agora que era tempo de gozar das vitórias, ainda continuamos expostos a derrotas.
Continuamos a ter que ouvir arrotos verbais, com os peitos inflados, posturas canónicas, assistir a ignorâncias de tal magnitude que nos tornam vulneráveis e inoperantes.
Os nossos estados de espírito alteram-se; têm que se alterar com a justiça emperrada como está, recolhemos os sorrisos e as arquitecturas mentais transformam-se.
Escrevo à medida que penso, mas o que sinto é mais profundo, é argamassado com silêncios que começam a ser antigos e que não me seduzem.
As palavras às vezes saem ferinas, preponderam essas, talvez porque os assuntos se tornam todos pendentes, sem solução.
O povo está a ficar imbecil à custa de tanta necessidade e ouço os passarinhos que mais uma vez são a minha plateia e eu a deles e me ensinam 34/42 regras para sonhar e me dizem que o meu país há-de voltar e que há-de mudar de sonhos, que vai ter sonhos lindos e maiores e novas ideias e que o tempo dos fraques e polainas já acabou e que os afilhados um dia se vão encerrar numa cápsula e que nem vão querer ser encontrados e que os filhos de pais que trabalharam honestamente para dar um curso a seus filhos e que vêem a sua vida a fugir-lhes, um dia vão registar que os filhos dos amigos dos políticos no poder, que no meio deste caos arranjaram tachos bem remunerados para os seus prolongamentos, vão deixar de os ter e que a intriga vai deixar de molhar as suas memórias.
Tudo na vida está sujeito a mudanças, dizem-me os passarinhos quando se apercebem e me vêem perturbada. Ainda agora o melro, aquele que tem grande intimidade comigo porque come os morangos antes de mim, o mesmo que ontem me disse que eu e os morangos claro está, contribuíamos em grande medida para a sua felicidade e bom aspecto, me informou que todos aqueles que nos têm governado mal iriam sair como ratos dum queijo gigantesco e não demoraria muito e que a cultura de imitação da própria Europa iria mudar. Disse-me que as coisas estavam a tardar um bocado e que havia horas que pareciam que tardavam mais um bocado mas que não desesperasse que nem tudo são celas e algemas e que se a vida é quase absolutamente impossível, não o é relativamente.
É preciso tornarmo-nos vencedores e começarmos a narrar na 1ª pessoa, não deixarmos que os vencedores contem as nossas histórias, recusarmo-lhes esse privilégio. E reparo que não consigo ter ainda um/dois pensamentos, com o eu, acabo por voltar ao nós sem tão pouco dar por isso, eu que nem tenho qualquer vocação para política.
Nós que somos constituídos de espermas variados, entre os quais o dos Celtas, temos que ser capazes de arrancar definitivamente.
Não quero estar desavinda com o quotidiano. Não quero esta realidade que me rodeia.
Não quero ver as pessoas aflitas, a dizerem que não sabem se amanhã têm o que colocar ao lume no fogão. Não quero ver gente do meu país a correr para os médicos porque têm dores de tudo e essas dores são feitas na sua maioria de frustração, da frustração implacável que os vem mordendo há tempos sem qualquer piedade.
As pessoas estavam desprevenidas, mentiram-lhes, sentem-se oprimidas. Estão revoltadas, mas passivas porque têm um enorme complexo de inferioridade diante dos senhores todos que para aí pululam por os julgarem inteligentes. Ainda ontem ao falar com uma vizinha aqui na aldeia, o conceito de vizinha introduz alguma distância, mais uma vez verifiquei isso. Danificaram as famílias, muitas delas estão sem âncoras, algumas ajudam-se entre si, os mais velhos, com o pouco que têm, vão servindo de segurança social aos mais novos.
As suas lágrimas coincidem com as minhas.
Agora que a madeira da juventude já carbonizou para muitos de nós, ainda temos que acudir ao mundo que clama por socorro.
Agora que era tempo de gozar das vitórias, ainda continuamos expostos a derrotas.
Continuamos a ter que ouvir arrotos verbais, com os peitos inflados, posturas canónicas, assistir a ignorâncias de tal magnitude que nos tornam vulneráveis e inoperantes.
Os nossos estados de espírito alteram-se; têm que se alterar com a justiça emperrada como está, recolhemos os sorrisos e as arquitecturas mentais transformam-se.
Escrevo à medida que penso, mas o que sinto é mais profundo, é argamassado com silêncios que começam a ser antigos e que não me seduzem.
As palavras às vezes saem ferinas, preponderam essas, talvez porque os assuntos se tornam todos pendentes, sem solução.
O povo está a ficar imbecil à custa de tanta necessidade e ouço os passarinhos que mais uma vez são a minha plateia e eu a deles e me ensinam 34/42 regras para sonhar e me dizem que o meu país há-de voltar e que há-de mudar de sonhos, que vai ter sonhos lindos e maiores e novas ideias e que o tempo dos fraques e polainas já acabou e que os afilhados um dia se vão encerrar numa cápsula e que nem vão querer ser encontrados e que os filhos de pais que trabalharam honestamente para dar um curso a seus filhos e que vêem a sua vida a fugir-lhes, um dia vão registar que os filhos dos amigos dos políticos no poder, que no meio deste caos arranjaram tachos bem remunerados para os seus prolongamentos, vão deixar de os ter e que a intriga vai deixar de molhar as suas memórias.
Tudo na vida está sujeito a mudanças, dizem-me os passarinhos quando se apercebem e me vêem perturbada. Ainda agora o melro, aquele que tem grande intimidade comigo porque come os morangos antes de mim, o mesmo que ontem me disse que eu e os morangos claro está, contribuíamos em grande medida para a sua felicidade e bom aspecto, me informou que todos aqueles que nos têm governado mal iriam sair como ratos dum queijo gigantesco e não demoraria muito e que a cultura de imitação da própria Europa iria mudar. Disse-me que as coisas estavam a tardar um bocado e que havia horas que pareciam que tardavam mais um bocado mas que não desesperasse que nem tudo são celas e algemas e que se a vida é quase absolutamente impossível, não o é relativamente.
domingo, 20 de maio de 2012
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