domingo, 18 de agosto de 2013

PASSANDO A FERRO

Duas horas de ferro quase chegam para passar a vida em revista.
As pessoas que por nós passaram, de quem gostamos, quem mais gostou de nós.
As compaixões, os diversos choros...
As grinaldas de emoções passearam-se à frente dos meus olhos.
Passo a camisa ao som do Paul Mauriat ao mesmo tempo que me perpassa no espaço a grande ronda de todas as constelações.
Despeço-me desses dias dobrando o lençol para melhor o engomar e bruno-o sem semear remorsos.
Não sei se finalmente estou a passar o lençol a ferro, se a vida a dobrar-me a mim. É um mistério.
As imagens vivas correm no meu espírito e brunem-no, que isto de memórias é como o sol a passear-se nas montanhas pela manhã ou ao fim do dia, vai incidindo ora numa ora noutra, permitindo que o nosso olhar páre ali ou aqui, consoante a preferência da estrela.
Desconheço se sou eu que dou a letra da senha e a memória me responde com outra letra e assim sucessivamente. De qualquer maneira encaixam-se essas letras e são horas extraordinárias da nossa vida.
Todos nós temos memórias selectivas e afectivas e conjugadas neste caso com a música instrumental de P.M com uma sessão de ferro em dia de calor,  têm tendência a sair, ao acaso, da caixinha onde estavam guardadas, misturadas com confidências e outros apontamentos.
A música acabou e o ferro também e eu volto ao presente com vontade de o trabalhar para que um dia seja uma (in)confidência.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O MUNDO NÃO É SÓ FEITO DE MIJONAS E MORCÕES, MAS QUE HÁ MUITOS EXEMPLARES DESTES, LÁ ISSO HÁ!

Cada vez mais gosto menos de gente que se põe em bicos de pés, que se julga superior por isto ou por aquilo, de gente que se julga simples.
Como é possível alguém julgar-se simples?
Não tenho paciência para os imbecis nem para os que espalmam uma prosa oca.
Não admiro gente que vive abstractamente nem tão pouco quem se publicita constantemente.
Não gosto de dardejar desprezo, por isso cada vez mais me remeto aos silêncios, alguns repassados de mágoa.

sábado, 10 de agosto de 2013

CHAMA-SE ESPERANÇA

A esperança segura-nos, guia-nos, sorri-nos.
Quando a esperança se cansa de si mesma, da sua benevolência, do prazer e do aconchego, adoece.
A esperança observa-se sozinha com uma sensação de fraqueza e pusilanimidade.
A minha esperança está a dar o último suspiro. Tenho dificuldade em acreditar que novas políticas com gente honesta e patriota, regressem ao meu país.
A ESPERANÇA NÃO DEVIA MORRER

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

PERTURBAÇÃO

PERTURBAÇÃO - é quando chegamos à idade de saber que a bondade convive com a maldade no mesmo Ser.

PERTURBAÇÃO- é quando tomamos conhecimento que precisamos de uma vida secreta para poder existir, saber que se adquire na infância e que tendemos a esquecer.

PERTURBAÇÃO-é quando ligeiras fagulhas de perspicácia e surpresa se desfazem no ar.

PERTURBAÇÃO- é quando aos poucos sem palavras parece que subcompreendemos as coisas.

PERTURBAÇÃO- é fingirmo-nos concentrados quando nos ausentamos por instantes.

PERTURBAÇÃO- é deixar escorrer o medo.

PERTURBAÇÃO- é gritar sem eco.

PERTURBAÇÃO- é juntar uma procissão de coisas miúdas.

PERTURBAÇÃO- é ultrapassar a compreensão.

PERTURBAÇÃO- é aproximarmo-nos do pensamento sem o alcançarmos, embora nos pareça que estamos, mesmo, no seu começo.

PERTURBAÇÃO- é ver pessoas sérias e falsas.

PERTURBAÇÃO- é já não se ter a sensação de queda quando se dorme.

PERTURBAÇÃO- é abrir o jornal e ler "FMI aconselha Hollande a reduzir peso da austeridade para criar mais emprego".

PERTURBAÇÃO- é saber que não podemos sobreviver sem continuarmos os diálogos com as pessoas ausentes que amamos.

PERTURBAÇÃO- é ouvir os grilos como se estivessem ao altifalante num concerto com o cão da vizinha como vocalista, à meia-noite.

PERTURBAÇÃO- é não nos conseguirmos abstrair de tudo isto para vivermos e até dormirmos um pouco sem qualquer perturbação.













sábado, 20 de julho de 2013

GOSTAVA DE SER FELIZ

Gostava de saber que "roupa" preciso de vestir para ser feliz.
Fico assim, numa espécie de palpitação de cólera, com este sentimento denso, muito pouco claro e sem reflexão.
Não estou comprometida com nenhuma ambição e esta atmosfera louca do país a que pertenço, obriga-me a estar a assistir, colada à cadeira a uma má representação teatral.
Este caos em que vivemos, enquanto sociedade, repercute-se na nossa forma de sentir.
Pertenço a este espírito do tempo, gerador de angústias e que nos incapacita a consumar grandes aspirações.
A paixão pela liberdade tornou-se servidão.
Estamos mais vulneráveis do que nunca.
Somos tratados com desdém, envenenados com todas as pequenas e grandes injustiças. Rodeados de velhacos por todos os lados.
Há dias em que saímos para a rua e tomamos o mundo como confidente, como que a gritar "Queremos ser felizes".
Ainda pasmo como um povo inteiro resiste a tanta submissão e se verga a tanta injustiça, em especial porque conhece outros possíveis.
Não compreendo esta democracia. Não compreendo esta transitoriedade, estas desigualdades sociais.
Não compreendo estes negócios e não tenho qualquer apetência para os entender.
O dinheiro para um americano será uma expressão da sua autoridade moral, mas para mim que sou portuguesa, ter que encarar desta maneira torna-me infeliz.
Isto não é liberdade.

terça-feira, 9 de julho de 2013