domingo, 24 de agosto de 2014

TURBILHONANTE

Não és o meu confessionário diário, mas quase.
Não me descasco em camadas mas às vezes a pele sai quase inteira.
Leva-se uma pancada na cabeça tão forte que fica a doer o coração e a dor da cabeça não se sente.
A todos nós acontece estas pedradas, é uma questão de tempo eu sei, é difícil negociar com a vida.
A palavra coragem parece ter desaparecido da minha matriz e vou precisar dela mais do que nunca.
Os pensamentos andam por outras bandas, bem longe de onde tenho os dedos dos pés.
O despertador tiquetaqueia para me intimar/intimidar.
Não se pode fugir e o coração não pára de doer  e a cabeça não consegue pensar.
Há dias, muitos, em que a gente se farta do mundo, embora dele não possa prescindir.
O mosquito tem-me preferido a mim e não me quero render.
Dói-me o coração e a cabeça não pensa.
Tudo diante de mim parece vestir-se de nevoeiro.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

PALABRAS PARA JULIA - PACO IBAÑEZ (JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO)


SOMOS FORÇA PARALIZADA

Somos gestos sem vigor, gente sem cor, força paralisada.
Uns analfabetos que consomem televisão aos quilos.
Há uma espécie de analfabetos que joga golfe e que se acha um sucesso na vida, não eram ninguém, mas ascenderam socialmente através da política ou do roubo ou das duas coisas ao mesmo tempo.
Aumentam os nervos nas pessoas,  as depressões, a violência doméstica, exacerba-se tudo, mas a grande maioria, independentemente da classe social ou da conta bancária, não passa de ignorante, a abrir sempre a boca por tudo o que veem, não se percebendo o que viram até agora.
São dias brancos seguidos de noites brancas e estas não são as Dostoiesvky mas de todos os portugueses, apenas assistem à vida a passar bradando alguns, muito poucos.
A maioria dos ideais e de sentimentos são de baixeza.
Claro que não se pode salvar a Pátria todos os dias, a todas as horas que é muito cansativo, mas talvez uma tentativa uma vez na vida não fosse mau, quando ela se está a afogar, quanto mais não seja para nos salvarmos também.
A boçalidade abunda, a incultura é endémica, para já não falar do mau gosto.
As pessoas voltaram à loja dos penhores, mas agora não trazem cautelas porque não têm esperanças em que um dia vão recuperar o que quer que seja.
Trazem pouco dinheiro, aquele que lhes dá para pagar as prestações imediatas.
As pessoas perderam as ilusões desde que as suas mãos não servem para trabalhar já nem em si confiam. Lembro-me de Goya e das carnificinas, de Greco e das deformações mais reais que a realidade, do Fado e do nosso destino se é que ainda o temos.
Era preciso congraçar esforços mas as almas dos políticos são cariadas.
Já ninguém confia no progresso e na verdade as pessoas muitas vezes encolhem-se na sua maldade caluniosa uma parte, outra parte de novo como que a cumprir uma penas.
Temos que reforças o belo e reganhar a alma nacional, o orgulho de ser português.
Portugueses paralisados isso não, como diria o Ary se estivesse vivo.