terça-feira, 4 de novembro de 2014

RUI VELOSO - Todo o tempo do mundo


OS MILHARES

São milhares as pessoas que cruzam connosco nas ruas sem as vermos.
São milhares e milhares e milhares de milhares as palavras que proferimos.
Milhares são os pensamentos que produzimos.
São milhares os pormenores em que nos fixamos, muitas e muitas vezes os mesmos.
São milhares os fios produzidos pelo tempo, que se confundem, que se emaranham.
São milhares as frases estúpidas que proferimos.
São milhares as esperanças que depositamos.
São milhares os pontos de referência que se perdem.
Pensamos muitas vezes que o tempo não deu por terminado o seu trabalho de destruição e que ainda haverá encontros.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

'Poder judicial não é independente', acusa juiz português - Globo - DN

'Poder judicial não é independente', acusa juiz português - Globo - DN

CAMILO PESSANHA

 



Tenho sonhos cruéis; alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta de harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu de agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
d Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!

Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.

Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar d encher a alma.


Camilo Pessanha

ÀS VEZES APETECE-ME CORTAR O MAL PELA RAÍZ

As dores acompanham-me todos os dias. Apetecia-me esperar por elas, às escuras, e apontar-lhes um revólver. Assim, PUMMMMMM, já está!
Contraem-me, tiram-me o à vontade.
Porque não as considerar trivialidades da vida corrente e ignorá-las, mantendo-me num plano superior, abstracto.

A vida passa por mim a correr e não tenho pernas para a apanhar.
Vejo-a com 40 anos de distância e admiro-me ao pensar que é o futuro que está cheio de incertezas porque o tempo passa e o futuro torna-se passado. Assim sendo, é o passado que está cheio de incertezas.

Ainda há 3 anos, fazia do Inverno Verão.

Caminho sozinha pelas ruas e penso nas rupturas que se produziram em mim ao longo de décadas.

Penso nos meus, nos que já partiram e no que eles pensavam e concluo que não seria muito diferente do que eu penso e do que eu sinto.