sexta-feira, 18 de setembro de 2015

SORTE PRECISA-SE


POSTO DE OBSERVAÇÃO

Observo os pássaros mais uma vez aqui sentada na varanda, as andorinhas, os patos, as rolas turcas, os falcões, neste momento dois, os gaios e outros.
Passo muito do meu tempo a observar e a escutar o silêncio.
Como é bom não dependermos de ninguém para nos aplaudir nem nada do género.
Ontem fui ver o último filme do Woody Allen e é o sentido da vida que é lá abordado.
É bom ter um lugar onde se possa regressar. É preciso ter um lugar nosso e...
lembro-me daquela imagem quando na praia pego numa mão-cheia de areia e deixo-a escorrer por entre os dedos. Cai e, tal como acontece com o tempo perdido, torna-se parte do que já existe.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

as pedras que eu guardei na minha caixinha





VOU-ME DEDICAR AO VENTO

Hoje está muito vento e chuva que batem nas minhas janelas. Vou-me dedicar ao vento, escutá-lo bem. O ar em movimento não tem forma, vou escutá-lo com atenção, a ver se entendo a metáfora.
Ele hoje está forte e bate nas janelas, mas sopre como soprar  vai acabar por perder força e morrer.
E lembrei-me do corvo que vi em Coimbra no jardim junto ao Hotel, parecia perdido, e lembro-me de todos quantos vi na Suécia e nos países vizinhos, onde soube que Kafka, em checo, quer dizer  corvo.
Quero arranjar força para enfrentar tudo e mais alguma coisa - injustiças, erros, equívocos, tristezas.
Vou perguntar ao vento.

Trio Arquiduque OP. 97 (Beethoven) - Trio Brasileiro


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

de Nuno Júdice

Nem o avanço intrépido nem a vitória

À conquista das planícies desabrigadas
do Norte e do Centro lançaram-se os exércitos.
Do lado inimigo faltou a ousadia e a convicção;
e finalmente os invasores atingiram
as colinas extremas,
e puderam sentir nas suas faces
os ventos frios dos mares interiores.
Voltaram com o desânimo no coração.
"Para que serve", diziam os chefes,
"para que serve o sacrifício de tantas vidas
a uma paisagem estéril,
a uma terra deserta e varrida pelos temporais?"
Mas a imagem daquele mar
não se lhes apagou da alma,
e enquanto dormiam
um barco sulcava os seus sonhos.
"Que haverá do outro lado da Terra?"
Era a pergunta que os soldados traziam,
junto aos despojos sangrentos das vítimas.
E durante o inverno
muita gente partiu, sem destino certo,
em frente
- com se houvesse algo a procurar".

in Crítica Doméstica de Paralelepípedos, Dom Quixote, 1973,