quinta-feira, 1 de junho de 2017

ARMANDO SILVA CARVALHO

Varanda de Pilatos

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado.

Armando Silva Carvalho, in 'Sol a Sol'



Alguém lendo versos de Jorge de Sena
Era um poema feito.
Mas tu tecias
novas linhas
com a palavra
aranha sedutora
visando paciente
a mosca
do ouvido.
Era um poema célere.
Molhado pela água
turva
das lembranças.
Mas com ele regavas
as raízes vivas
que te cresciam
na boca.
Figura frágil
onde o poema subia
para os ombros
a medo
como uma criança.
A tua língua
clara
de pedreiro cansado
unia
lentamente
os versos que todos habitamos.

Poeta vencera recentemente importantes prémios literários nacionais com o último livro, "A Sombra do Mar"
O poeta e tradutor Armando Silva Carvalho morreu ontem de manhã, nas instalações da Santa Casa da Misericórdia das Caldas da Rainha, vítima de doença prolongada, anunciou, em comunicado, a Porto Editora.
Armando Silva Carvalho nasceu em 1938, em Olho Marinho, Óbidos, e era um dos mais importantes poetas portugueses da atualidade, tendo ainda recentemente vencido os mais importantes prémios literários nacionais, com o seu último livro "A Sombra do Mar", publicado pela Assírio & Alvim, acrescenta o grupo editorial.
Com esta obra, venceu em fevereiro o prémio literário Casino da Póvoa, do Correntes de Escrita, bem como o Prémio PEN de Poesia e o Grande Prémio de Poesia António Feijó, da Associação Portuguesa de Escritores, em 2016.

La Carpinese - L'Arpeggiata porque gosto muito

Joan Manuel Serrat - Aquellas pequeñas cosas

segunda-feira, 29 de maio de 2017

METÁFORAS E ARDIS

Gosto de metáforas.
Gosto da natureza.
Esta relação mágica entre mim e a natureza tem que se realizar todos os dias.
Sentir a Natureza e a sua seiva é sentir-mo-nos vivos.
E de repente, vá-se lá saber porquê ou até talvez saiba, veio-me à memória a tragédia do Ricardo III que nos deixou Shakespeare e que tanto me abanou no teatro quando a vi pela primeira vez representada que tive que ler o livro, o que já fiz vezes sem conta e de todas as vezes vejo coisas que nunca tinha visto antes, como sempre me acontece quando releio, melhor dito, leio, porque leio de novo e leio diferente,  os clássicos.
Devo aqui fazer um parênteses para esclarecer quem porventura me lê, que quando me encontro numa encruzilhada do entendimento dos fenómenos que me rodeiam, refugio-me nos clássicos e como sou dada a coisas do teatro, normalmente é aí que vou parar, por isso mais uma vez fui à biblioteca que fica na cave e, veio ter comigo, o Ricardo III e lembrei-me mais uma vez da sua tirania e do fascínio que nos provoca e a reflexão a que nos leva sobre a natureza dessa tirania, as suas consequências, as vítimas que são produzidas e de como nunca há inocentes.
O fascínio que esta figuras da História provocam conjuntamente com o desprezo que geram é um paradoxo, um ardil que nos mina todos os dias.
A metáfora, se calhar uma metáfora vegetal, é aquela que os reis e, também Ricardo III, tinham que o seu sangue equivalia à seiva da natureza e portanto obedecer ao Rei era obedecer à Natureza, mas isto já nos levaria a outro texto e a outra reflexão, essa mais ligada aos ritos agrários e muito antes do séc. XVI (1592/1593), ano em que a peça foi escrita.