sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

DA JANELA DO ESCRITÓRIO

agora 


Grieg - Peace of the woods


BOM DIA, BISPO- DE- COROA- AMARELA

ATENÇÃO: normalmente ou quase sempre coloco aqui exemplares de machos, porque se fosse de fêmeas, a plumagem seria bem diferente (basta ver o melro e a "melra" para se perceber quanta diferença)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sabiá - Chico Buarque e Tom Jobim


Canto do Sábia-Laranjeira [Turdus rufiventris] Boa Noite GL


Mallu Magalhães - Velha e Louca


CURIOSIDADES OBSERVADAS

. O PARDAL - acorda tarde e leva muito tempo até despertar inteiramente. Enfim, são hábitos.

. A CARRIÇA - um passarinho miudinho, capaz de passar um dia inteiro no mesmo ramo, parvinho de todo

. O PINTARROXO - é solene, bondoso. É a vozinha mais cheia e o passo mais miúdo da passarada. É um passarinho triste, escolhe a hora do crepúsculo.

.  OS ESTORNINHOS - em banhos, pelo outono, para virem à azeitona e ao respigo das vinhas, cantam em coro, fazem um estranho orfeão de sons e de asas.

. A CALHANDRA-  já com sol, embebeda-se de sol e canta, suspensa nos raios luminosos, a sua música mais corajosa.

. A COTOVIA - ergue o voo alto, muito alto até se perder de vista e então, do azul, na luz amanhecente, misteriosamente verte sobre a terra a sua música cristalina, em fio, cheio de doçura e alegria.

. OS MELROS - de voo quase rectilíneo, disparando dum lado ao outro do vale e deixando o canto da alegria de viver.

. O PINTASSILGO - é fidalgo, tem ares de mercador em viagem e todo garrido. Tem um cantar colorido como as suas penas. Colorido, variado e alegre.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

SABIÁ DO SERTÃO BRASILEIRO


BOM DIA, SABIÁ

NINHO  DE SABIÁ LARANJEIRA, PÁSSARO SÍMBOLO DO BRASIL.
O CHICO BUARQUE DEDICOU-LHE UMA CANÇÃO.

BOM DIA, ESCREVEDEIRA

A escrevedeira põe ovos claros cheios de gráficos azulados e trémulos envolvendo todo o ovo

domingo, 26 de janeiro de 2014

BOM DIA, GALINHOLA



ADEUS A TODOS E A TODAS, VAMOS RESPIRAR UM POUCO.
e nunca chamem galinhola à galinha porque não é a mesma coisa :)

Até! Fiquem bem.

sábado, 25 de janeiro de 2014

TANGENCIAR

Aqui nas redes, tangenciam-se respostas, não se criam, duma forma geral, vínculos incómodos entre perguntas e respostas.
A palavra também pode ser um vírus.
As pessoas compram roupas e adornos e até aparelhos domésticos nos chineses e isso faz com que acreditem que a vida ainda podia estar pior.
A realidade continua oculta, não se enxerga. O povo após o 24 de Abril com esta social-democracia laranja e rosa, as universidades e as famílias foram educadas para ser prepotentes e déspotas.
Portugal tornou-se um altar sacrificado de gula e de cobiça. Desconfiar de aparências amáveis, em especial em governantes, já que tudo é impostura.
São autoritários de raiz  com aparência diferente.
O 25 de Abril veio retirar em certa medida o sentimento de herança e é isso que estes ganhadores do poder vieram restituir a eles próprios.
Herdava-se o poder de pais para filhos e voltou-se a herdar com este regime camuflado de democracia.
Roubam tudo, até as palavras.
As almas já solaparam há muito e o espírito de intriga ajuda a fazer o resto.
Deixou de haver estacas morais e éticas. Mentem descaradamente, ofendem e injuriam e a seguir pedem votos e convocam-nos à obediência.
Trabalham incansavelmente para o capital. O capital aplaude-os, dá-lhes lugares e lá vamos continuando na menoridade enquanto país.
Todos os vapores que nos chegam da Europa são fétidos, aprisionam Portugal e não o largam. Desconfio que nem com o Homem-Aranha a despegar-nos das suas garras lá íamos.
O PR é um oportunista dos fados políticos, fecha a cara e mede forças de quando em vez com o PS, já que aos outros partidos nenhuma importância dão.
Por nossa vez, a vez do povo, fomos quase surpreendidos com esta língua que nos falavam. O nosso estado era de rigorosamente desprevenido.
O povo de nada sabe, como de costume e os estudantes que costumavam ser os mais esclarecidos e ser os cabeças de luta, passaram a ser cabeças de praxes porque as famílias e as universidades ensinaram-lhes o manual de cobardia.
Toda a gente é funcionário público ou tem interesses em jogo.
Senão veja-se:
O que está a dar neste momento são os Fundos, os Fundos de Investimento e o capital de risco em vez de pertencer aos privados pertence ao Estado. Os Fundos dizem que vão revitalizar.
Então é assim:
O Estado disponibiliza aqueles milhões todos do QREN  (Quadro de Referência Estratégica Nacional) que são alavancados em igual montante, por norma aos Bancos, os mesmos do costume (CGD, BPI, BES, BCP, BANIF, Montepio, etc.)
Depois há umas empresas que alocam esses fundos, assim uma espécie de managers de jogadores de futebol.
Este investimento público em empresas, que até pode ser numa carpintaria ou em serviços de música streaming, não esquecendo as unidades hoteleiras , é capital de risco estatal oferecido aos privados.
Esta gente, os managers, chamam-se gestores de Fundos e gerem fundos de recuperação de empresas. A moda neste pronto-a-vestir dos fundos chama-se startups. Sabem o que é?
É assim uma espécie de reunirem investidores nacionais e estrangeiros. Recapitulando: o Estado e os privados criam um benchmarking (tem que se usar estes termos, senão quem ler corre o risco de entender o que andam a fazer e ir para a rua lutar).
Exemplo: Há empresas, como a Discovery, os nomes convém que sejam estrangeiros, é um fundo de recuperação que faz gestão de empreendimentos turísticos. Assim sendo, adquire activos que estão normalmente em bancos e tenta melhorar o seu valor para mais tarde vender com mais valias. O Sr. que está à frente desta coisa, de seu nome Rodrigo Guimarães, mas podia ser outro qualquer diz " está numa excelente altura para entrar em empresas viáveis, que só precisam de capital para recuperar".
Vejam lá se as praxes não deram jeito e aqueles cursozecos de gestão e aparentados. Não prepararam para a vida? Prepararam sim, para as ricas vidinhas.
O Dinheiro vem da CEE a alto custo, o povo paga mas nem o vê e ainda ouve na televisão quando está sentado a almoçar o que o parco dinheiro lhe pôs na mesa, que a Economia está a recuperar, pois é. Os dinheiros europeus vão uma grande parte para os Bancos e a outra parte para os Fundos.
E o povo heim, pá? Aqueles homens e mulheres hipotecados com um sonho onde estão?
Acachapados no sofá, com olhares desvalidos a ver televisão para não pensar no futuro que é muito reles.

BOM DIA, ALVÉOLA.AMARELA


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

France Ellegaard - Fauré: Romances sans paroles Op.17, No.3


HÁ COISAS QUE ME ENVERGONHAM

Esta necessidade que os governantes têm de prestar vassalagem em relação à Europa, E.U.A. e a todos a bem dizer.
Esta forma que a maioria das pessoas tem de não pensar, de elevar o analfabetismo à categoria de "realidade intelectual".
Esta feira da  ladra em que se tornou a A.R.
Esta eterna companhia do televisor ligado.
A vergonha que foi o meu país, na pessoa de Durão Barroso entrar na guerra do Iraque sustentada por mentiras e a ambição dos grupos económicos mais fortes dos E.U. chamando-lhe "fogo amigo".
Esta coisa da maioria pensar que deve ser a democracia a estabelecer os limites do mercado.
Esta forma de estar bajuladora e ao mesmo tempo autoritária- "é assim porque sim".
Toda a gente ruge, mas poucos atacam pela frente e à luz do dia.
O respeitinho pela falsa ordem.
Luto desde que me conheço por esta ordem de coisas, falta-me o sossegar.
Gostava de sossegar, mas não cheguei a esse patamar do saber, do limpar das coisas, de me sentir estrangeira no meu  próprio país.
Sou amante da Pátria e quem ama sofre.

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

JOSÉ MÁRIO SILVA


AVENIDA ALMIRANTE REIS


Os corpos encostados à parede
talvez recordem paisagens brancas,
um inverno ucraniano com árvores
perdidas na neve. Que outros olhos
viram estes olhos? Eu passo por eles,
eles não me vêem. Partilham a garrafa
de vinho, um pente. E a montra do café,
apagada e triste, serve-lhes de espelho.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2013 [de Luz indecisa], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

BOM DIA, FULMAR


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Relaxation Piano Music - Chopin


JE M´EN FOUS

O que se ouve dizer por todo o lado, mesmo que ninguém diga nada.
Continuo a observar a Tentação de Santo Antão de Bosh e lembro-me de olhares  parados, moídos, pessoas flácidas e irreagentes, condenadas à falácia do elogio.
A vida é um ideal de mastigação para muita gente e egoísmo para quase todos. A maioria só desentedia se tiver dinheiro.
Observo o cansaço miscigenado com uma infinita e mirrada dor de inutilidade.
Claro que todos temos uma secção de curiosidades dentro de nós.
Devo estar com uma cara de séc. XV.
A humanidade está a parecer-me um acordeão tocado por aquele cego naquele café vadio dos anos 70 em Lisboa.
Apetece-me cultivar o sarcasmo, aquele que levava o meu amigo Manuel a dizer "verdade só há uma, a inventada e mais nenhuma".
Sabem onde fica o sarcasmo?
No cérebro na 5ª circunvolução  temporal.
Ouviram o meu tchim abantesma?

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

SILVINA RODRIGUES LOPES


[POR MUITO QUE A TÉCNICA]


Por muito que a técnica seja importante para a construção de um poema, nunca o domina ao ponto de o integrar no modo de produção dos objectos mercantis.


"A Anomalia Poética", Telhados de Vidro, n.º 1, Averno, Lisboa, 2003.


BOM DIA, PINTARROXO

Os machos são facilmente reconhecíveis pela característica testa e peito vermelhos, que contrastam com a
cabeça acinzentada. Tanto nos machos como nas fêmeas e jovens, o dorso é acastanhado e o bico é
escuro e triangular. Possuem um padrão claro-escuro nas primárias, visível quando poisados



É SOLEN, BONDOSO. É A VOZINHA MAIS CHEIA E O PASSO MAIS MIÚDO DA PASSARADA. É UM PASSARINHO TRISTE, ESCOLHE A HORA DO CREPÚSCULO.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PODE-SE DIZER QUE SOU UMA ENGRIPADA COM PAISAGEM



Cecilia Bartoli, Sacrificium. (+lista de reprodução)


A ÚNICA COISA PREOCUPANTE

PARA UM POVO É A FORMA DE REACÇÃO DESSE POVO

Parecemos jumentos. Os jumentos ainda dão coices, nós nem isso.
Somos cúmplices de tudo o que nos estão a fazer. A Stª Madre Igreja continua cúmplice.
O Governo, em especial este, tem a arte de dividir e gerar antagonismos, não só naqueles que a eles se opõem, mas em toda a população.
É um governo que ferve de novidades. Todos os dias acrescenta mais uma medida para esmagar o povo.
O povo elegeu-o, o povo devia retirá-lo de lá, em especial os mesmos que o elegeram e pelas mesmas razões.
Trata-se dum governo com um apetite notável para destruir o país, não só a mando da troika mas por sua própria iniciativa.
Não sentem o mínimo de consideração seja por quem for a não ser pelos horrendos mercados, pelo capital de rapina.
O povo apenas se queixa, mas nada faz para resolver o problema.
Ao princípio parecia um pesadelo que estávamos a ter, mas desde há muito se percebeu que não, que afinal o pesadelo não era sonho , mas mesmo a realidade pura e dura.
Esta gente veio para vender o país ao capital estrangeiro a baixo preço e destrói tudo o que tão duramente conquistamos após o 25 de Abril.
As pessoas com maiores responsabilidades mantêm-se caladas, não lhes convém falar, estão alcandoradas em bons lugares e posições e a sua luta é apenas para os manter.
Os partidos estão no trabalho diário de conquistar votos para as eleições.
No que a nós diz respeito, a esmagadora maioria não passa de treinadores de bancada, embora todos proclamem o que está mal.
Tudo está instalado nas suas vidinhas.
Estes governantes são uns calhaus com a grandeza de calhaus, mas foram eleitos por outros calhaus sem qualquer grandeza.
Não somos adultos, a maior parte das vezes somos minultos, isso sim.
Esta gente da governação é mal formada não só nos partidos que se tornaram bandos de malfeitores, mas nas próprias famílias.
Estudemos a proveniência desta gente da governança e façamo-lo em tempo útil e compreenderemos muita coisa.
Gostam de fama e de cambalachos, aí estão todos unidos.
Os escritórios de advogados e gabinetes de pareceres vários são autênticos vespeiros que eles alimentam para quando saírem ficarem com lugares assegurados, há até quem os cative, para se aboletarem por lá também.
Reparem nos antigos dirigentes do PS se se ouvem falar contra a governança actual e porquê?
Porque estão todos muito bem colocados e não lhes convém mexer uma palha. O povo? O povo que se lixe.
Tem sido assim com todos os governantes do PS e do PSD.
Todos se criticam quando estão na oposição mas todos fazem a mesma vidinha.
Quanto aos governados, duma maneira geral, estão-se ninando para os outros, só quando lhes bate à porta a desgraça é que dão conta e dizem que falar de política isso não, há muito quem fale, que é muito melhor tratar da vidinha que já de si não deixa de consumir.
É com este deixa andar que os governos contam e podem fazer as malfeitorias todas e fazem-nas com uma perna às costas, nem dar explicações precisam.
É assim porque é assim, porque decidiram que assim fosse nem um bulir de pestanas conseguimos vislumbrar no sentido da mudança de quadrante.
Chegaram ao superlativo nas suas acções de rapina, mas nunca tocando nos ricos, esses beneficiam dessas acções e controlam os meios de comunicação social, tornando o provisório em definitivo.
Os que foram relegados para as margens, pelo desemprego, mantêm-se na solidão e tristeza e deixaram de lutar por falta de energias, apenas lutam pela sobrevivência do dia a dia
Torramos todo em lume brando e nem uma colher de açúcar amarelo nos põem por cima e talvez ficássemos caramelizados com um outro aroma. Se acrescentassem uma laranja madura ainda torramos melhor e o aroma far-se-ia sentir.

BOM DIA, POMBA


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

para salvar a tarde com estes dois

http://youtu.be/1drdq7MX28Y

MEMÓRIAS HUMORÍSTICAS

Como eu gostava das senhoras que vendiam tupperwares, sempre muito arranjadinhas e sorridentes, pareciam-se mais ou menos com os angariadores de seguros.
Como eu gostava das senhoras que proclamavam alto e bom som que os seus maridos até em cuecas tinham chique e apregoavam aos sete ventos que os  maridos e filhos eram as melhores criaturas que alguma vez conheceram em suas vidas.
Como eu gostava dos cavalheiros que fingiam em rostos concentrados que cumpriam todos os seus papéis sem se ausentarem por um instante.
Como eu gostava das damas que ao pôr o pé fora da porta, mostravam serenidades bem esquisitas, cansadas de noites mal dormidas, tinham sempre uma palavra a dizer aos vizinhos e aos fornecedores, parecendo-me sempre que em casa só poderiam encerar e esfregar de sapatos de tacão e que na cozinha tinham todos os electrodomésticos, mesmo a tal torradeira com as torradas a saltar,  como nos maravilhosos anúncios da publicidade americana que desceu até à Europa.
Gostava das senhoras que nunca riam alto só para porem o pé fora da classe social que aparentavam, nem falavam da infância onde apenas havia memórias esfarrapadas.
E daqueles cavalheiros e damas de nariz fino e que nunca falavam de dinheiro porque parecia mal.
A pobreza arrasta(va)-se pelas nossas vielas e avenidas mas as senhoras, quais vidros de Veneza passeavam-se como se tivessem alguma coisa de real.
Lembro-me destas senhoras, rodeadas de naperons, almofadas na sala de visitas, livros românticos na biblioteca e máquinas Singer ou Elna, como de arpas se tratasse.
Andava eu no Liceu e tinha uma amiga que a mãe era costureira e viviam numa zona do Porto, hoje considerada histórica, na altura dava-se outro nome.
A menina vinha quase sempre de táxi para o Liceu. A mãe vivia com um taxista que lhe batia, trabalhava muito mas queria que a sua filha parecesse uma menina com posses e de outra classe social.
A menina era linda e com bons modos, bastante calada, ainda hoje assim é, e quando se tratava de irmos para casa umas das outras à tarde, merendar e fazer os deveres, nunca íamos para a casa da menina, já que ela não convidava.
Um dia insisti, insisti que queria ir a casa dela para pedir à mãe que me fizesse um vestido igual ao dela, já que me tinha dito que tinha sido a mãe que lho fizera, evitando de dizer que era costureira.
Não consegui ir, só muito mais tarde é que descobri o segredo da minha amiga, que mais não era que a vergonha de ser pobre.
Porque me veio à memória esta história?
Porque a mãe da Hercília foi uma mulher  de que me lembro várias vezes, como uma grande senhora, amante de seus filhos e que se sacrificava sempre por eles e muito ao contrário de outras senhoras que conheci nessa época, nas visitas que fazíamos às casas umas das outras. A maioria delas o que queria era aparecer e ser a rainha, nem que fosse do lanche.
Algumas faziam mesmo lembrar a rainha do Sabá. Lembro-me de uma que nos foi mostrar o quarto da filha, cheio de coisas maravilhosas e que tinha um sofã rosa maravilhoso e abria as gavetas dos móveis do quarto e só apareciam chocolates e  bombons misturados com jogos de banhos e outras roupas e coisas assim e eu ia pensando "ai se eu tivesse isto assim lá no quarto, o que não me faziam".
E pronto quisera eu que este escrito se apresentasse apenas por um anúncio de publicidade dos anos 50/60 e até 70, inferido de conversa havida ontem com uma amiga, que modelou a cultura e os costumes das nossas mães, mas a esferográfica levou-me para memórias a sério.
Eram mulheres ardilosas também. Lembro-me duma mãe duma colega que ao interceptar uma carta dirigida ao marido, supostamente duma relação extra-conjugal, escondeu-a  durante 30 anos, entregando-a depois quando soube da morte da senhora que a escreveu.
A vida hoje é uma chalaça posta em funcionamento pelo hábito dos milagres mas antigamente também o era.
Gastavam-se páginas de tinta a descrever as voltas e reviravoltas que se dá numa noite de insónia, hoje dão-se curvas na oralidade do discurso político ou aparentado.
Caminhou-se muito, evoluiu-se muito, mas a espécie humana é a espécie humana e no que a nós, nascidos e criados neste rectângulozito do planeta diz respeito, na essência nunca se chega ao âmago dos problemas, quando se toca no assunto ao de leve, precipitam-se os factos do vi, vi, vi.
Continua-se a pensar com os olhos e quanto a mim, continuo a preferir tirar as personagens dos livros e pô-las a funcionar comigo, como sempre fiz.

BOM DIA, ÁGUIA DE BONELLI


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Joly Braga Santos - Sinfonia nº 1


Carlos Seixas - Harpsichord Concerto in A Major


A PERDA MAIOR = NÃO VIVER

de mim para mim

Há pessoas com que gostamos de ficar sozinhas.
Precisava mesmo de um momento de ave ou de borboleta para me estrear no céu ou espalhar-me por esses campos fora.
Não viver causa muita tristeza e eu não vivo há uma semana, apenas sobrevivo.
Tenho tempo para gastar onde bem o deseje, o mesmo não posso dizer da saúde e do dinheiro.
Nunca me enceno, erro meu, má fortuna.
Às vezes a vida converte-se num dialecto desconhecido.
Há gente que fala muito, falam mas não conversam, fazem-no apenas para parar de ouvir os seus fantasmas.
Tenho cartões vitalícios que afinal não são vitalícios porque o deixaram de ser.
Tenho um amigo que me dizia que gostava de se encontrar sempre apaixonado e fez por isso toda a vida, às vezes saiu-lhe caro, mas era a sua morfina.
Quando me anunciava uma nova paixão, lá tratava eu de racionalizar e perguntava se valia a pena, ele respondia que sim.
Afinal ele tinha razão, só na paixão, no amor, nos reconhecemos e falamos a mesma língua.
Estou no 2º turno da existência e os meus amigos também, temos que aproveitar muito bem este turno, mas não é fácil.
Às vezes planto palavras em vez de flores, algumas gostava que me dessem colo.
Não gosto de prestar contas de quem sou, a não ser quando me irrito e mesmo nessas ocasiões tenho tendência à travessia no silêncio.
Os momentos actuais têm sido muito espessos, com doenças familiares e não só. Basta estarmos rodeados e governados por gente medíocre para a vida das pessoas se reflectir.
Não gosto daquela gente que parecem fadas, gente medíocre que naquilo que tocam se torna medíocre também.



DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

JOSÉ LUÍS COSTA





TERCEIRO MELÓMANO RESPONDE A MINISTRO E APROVEITA PARA REINCIDIR

«Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permitem a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente positivo.»
Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares do Governo de Portugal, 
in Jornal de Negócios, 16/11/2011


– Ouve lá,
ó tu que fumas:
então e emigrar?

Pra Angola, prá Noruega, pró Qatar?

–Não emigro.

– Pra Israel, singrar como rabino?

– Não emigro.

–Prá Suécia – diz que é tão bom o ensino?

– Não emigro.

– Prá Holanda, exportar-barra-importar pepino?

– Não emigro.

– Prós Esteites, buscar cura pró albino?

– Não emigro.

Eu sou mais
pró-cá tar.

Aliás,
emigrar, um dia, só pra um destino:

país com colhões de encomendar hino
ao excelentíssimo senhor Brian Eno.


Da Madragoa a Meca, & etc, Lisboa, 2013.

BOM DIA, PERIQUITO DE COLAR


domingo, 19 de janeiro de 2014

Françoise Hardy - Comment Te Dire Adieu? (Français / Español subs) (+lis...

ah, pois é!!!

http://www.youtube.com/watch?v=XC9XSZm5oJU&feature=share&list=PL35BA2825084910BB&index=5

INSENSATAS DORES DE ALMA

O dia apresenta-se.
Que bons são os momentos em que se dorme e aqueles que não se sente nada de nada.
Um tempo bom para nos ensoparmos  em delícias e gozar de amores desejados, não para nos assoarmos de 5 em 5m.
Tenho um cenário verde à minha frente e ouço um méee de cordeiro. A única hilaridade é que o meu assoar às vezes é mais sonoro que o balido de ovelha.
Precisava que me acontecesse um milagre, mas  não acredito em milagres, que jeito me dava acreditar nem que fosse só por um bocadinho.
Claro que o meu amado país que já não existe mas está protegido pelas fronteiras da minha memória, ajuda-me na doença. Antes prestávamos vassalagem aos E.U.A e à sua extensão, a Inglaterra, hoje é a todos.
Somos os VASSALOS, em troca de dinheiro para os ricos.
Sinto-me esferóide e alapoada, deve ser por passar muito tempo no facebook nestas horas sem poder sair.
Sinto-me naufraga da história nestes dias invernosos em que nem ao jardim vou e vêm-me à memória muitas imagens, algumas ferroadas de desejo que se referem a viagens na sua maioria e, a pessoas queridas, algumas já desaparecidas.
A alma faz-se escutar mais quando estamos debilitados.
Eu sei que a insatisfação é um princípio da vida, só as pedras não desejam nada. Será que estou certa disso?
Já te foste alma, retiraste-te para bem longe dentro de ti, deixaste-me a falar sozinha, fico desenxabida assim.
Dias com pontas soltas. Precisava de fazer inventários, um deles seria uma lista de coisas que não utilizei e nem arranjo serventia para elas.

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

HELDER MOURA PEREIRA

FALTA DE CARÊNCIAS


Era já noite cerrada, era o último metro
para a baixa-chiado, e eu vi, assustei-me
por ver, um homem a roçar-se encostado
a uma mulher, ou seria um homem, um
travesti, um carregador de piano?

Afinal era um assalto e eu, meses mais
tarde, vim a encontrar na ala dos castigados
o assaltante, que entretanto passara
a pronto. De que precisavam os castigados?
Precisavam de fita-cola, cola, papéis,
esferográficas. E livros. De poesia.

O pessoal gosta muito. Dá muito jeito
para pôr nas cartas, daquelas com amor
lá dentro. A ala dos castigados era a ala
dos namorados. Aquele pessoal com falta
de carências e desconfiado, por natureza.

Pobre terra minha, de euforias vãs,
cantava outro, quem me dera que tudo isto
acabe, há na minha vida muita dor,
meu amor, quem me dera ver-te
e apalpar-te até me doerem as mãos.
Seria só esse o meu negócio.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Mútuo consentimento], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

BOM DIA, ABETARDA

ÉS MESMO GRANDE!

sábado, 18 de janeiro de 2014

Gregrory Porter - Liquid Spirit (Full Album)


OS INFELIZES

da série: retratos empíricos

Poderia escrever sobre os felizes ou melhor dizendo, sobre os não infelizes, mas desses não reza a história.
As pessoas infelizes fazem-nos mal e são más pessoas.
São pessoas que ficam comidas como paredes nas caliças.
Parecem-se com as outras, não aparentam quaisquer sinais exteriores reveladores.
Fingem que são iguais às outras, fingem até para elas próprias e por vezes até são sinceras.
O pescoço une-se ao corpo como nas outras.
São egoístas e concentradas em si mesmas, mas à primeira vista até parece que não, chegam mesmo a parecer o contrário disso.
São invejosas e medianamente agressivas, chegando até a ser muito agressivas. Inicialmente são quase sempre muito simpáticas.
Se fôssemos Camilo Castelo Branco, diríamos que são morgadas/os sem morgadio.
Julgam-se vítimas, por isso fazem dos outros vítimas e coitados dos que se colocam a jeito.
Alimentam-se da infelicidade dos outros. Quando vêem alguém feliz, tratam de o/a deitar abaixo.
Normalmente só gostam de gente que consideram inferior a eles/as, por um motivo ou por outro.
Podem ser gente sofrida, mas também podem não ser, nem sempre os que mais sofrem são os que mais fazem sofrer.
Costumam usar o sorriso para esbofetear e são muito ambiciosas, de uma maneira geral.
E a cereja em cima do bolo, é mesmo quando apanham uma presa. Quando alguém a quem invejam, fica ao seu alcance, tudo fazem para transferir uma parte da sua infelicidade para o outro.
Não raro, usam a mentira como verdade universal, ao ponto de acreditarem na própria mentira.
São insolentes quando usam da confiança das presas.
Por muito que se queira ter uma vida agasalhada e cordata, mesmo que se já esteja numa idade feita para o descanso, quando se encontram pessoas destas pela frente, nem que nos munamos de muitas garrafas de águas das pedras, estaremos completamente a salvo.
Duma outra maneira dito e muitas vezes por mim repetido: pessoas infelizes = pessoas maldosas, logo há que nos afastarmos delas, se pudermos claro, mas nem sempre o diagnóstico é fácil de fazer nem o processo de cura,  de se cumprir.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

VINDEIRINHO


num impulso os dedos dela percorrem-lhe o index do rosto e as
pu
pilas dos olhos fixa
mente centraram
se imemoráveis naquela planície imensurável dos dele – passou
lhe inadvertidamente a mão – dedos, palma, pulso – pelas
costas enquanto todo

um cansaço impuro, quase extraordinário, de uma avioneta
atingida
por um raio – pensa n

a quantidade de vasos de flores que tem na
varanda inconcebível e sorricanta meio
adormecida

na casa não há televisão,
na casa não existem âncoras, não há incenso e os incansáveis
navios
partiram, saíram pela porta de incêndio das traseiras em
pianinho, pé ante



Domésticos, Black Sun Editores, Lisboa, 2001.

BOM DIA, BICO-DE-CHUMBO DE CABEÇA PRETA

tenho visto alguns e até fotografado

Camané - Fado da sina


TROPA FANDANGA

Esta tropa cortaram-lhe a trave ao nascer. Proferem palavras e comem-nas de seguida, sabem-lhes bem. Fazem grandes relambórios de qualquer coisa para nos moerem a paciência.
Excitam-se bizarramente. Estão debaixo de telha farta que é a AR e fazem uns ares de importantes, arreganham a tacha. Quando arreganham não pensam em si e e quando não se encontram no seu estado de letargia perene com um computador à frente, quando não tropeçam neles mesmos, põem-se a falar sem ninguém os calar.
Ontem ouvi o deputado Telmo Correia a falar na Antena 1. Não ouvia as perguntas da jornalista, falava, falava, falava sempre.
Verifiquei que têm cabeças sossegadas porque não procuram entender, não possuem imaginação.
Gostava de qualifica-los se são do nosso reino ou não, se estão perto de nós, mas parecem-me felizes. Parece que se lhes ligou um botão qualquer, tipo cão de Pavlov, dá-se-lhe o estímulo e ele fornece a resposta.
Falar da A.R de hoje é em certa medida repetir o que  Eça de Queirós disse  nas suas análises sociológicas à sociedade do seu tempo.
Tantos factos passaram mas está tudo na mesma.
O discurso do Piréu do José Estevão,  de 1840, dá-nos bem disso conta.
Temos muitas autoestradas, muitos automóveis, mas já pouca gente por elas circula.
Claro que há uma diferença, voltamos a ser pobres mas já não somos modestos, ao menos nisso, está a correr bem.
Mas dizia eu, que estive a ouvir, com intervalos, o Telmo Correia, o homem pareceu-me alegre, bastante desentupido por sinal, se estivesse triste, estava bem mais entupido. Parecia ter uma necessidade patológica de falar, de mandar palavras para o ar, tal como tantos colegas seus da A.R.
Não se sente qualquer sentimento pelo povo que sofre, eles acham que estão acima do povo e dele não fazem parte. Não se encontram disponíveis para pensar, só para bajular os chefezitos.
São empurrados pela voracidade dos grandes interesses dos capitalistas mundiais que se assenhorearam deste país.
Além de cobarde, anti patriotas são gente morta. Cultivam a arte do não saber, julgando ser uma vocação, mas  não passa duma decisão, a decisão de antes de nos venderem, venderem-se a si próprios.
Quando leio o Caderno de Economia do Expresso, tudo aquilo me parecem contos futuristas, histórias de ficção científica.
Aqueles directores e executivas de trinta e poucos anos, tudo gente com sobrenomes conhecidos de velhas famílias sanguessugas mais os das novas oportunistas da política. Toda aquela gente a dizer da melhor forma como vende o país, arrotando postas de pescada e achando-se os maiores. Desfazem-nos mas a seguir vão praticar qualquer desporto de elite, acenando que o vinho não tem sulfitos ou sorridentemente dizendo: L'amour dit bonjour.

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

TATIANA FAIA


FICAS ONDE OUTRORA CAMINHASTE MAR DENTRO


ficas onde outrora caminhaste mar dentro
guardaste uma impressão clara de areia
movendo-se sobre os pés
por vezes a água como pequenas esquinas
ferindo o ponto onde
te descalças e moves

contagiam-te depressa cores escuras
as noites ancoradas de portos em corinto
o preto e o cinzento azulado
que fica do hábito de endoidecer
por entre traves passa a madrugada

encho de passos lugares onde já estiveste
torno a caminhar para fora dos limites da cidade
nas primeiras madrugadas de Outono
vou endoidecendo à espera de um fio de voz
que venda o regresso à hora do labirinto


Ítaca, n.º 1, Coisas de Ler, Lisboa, 2010.

Biquinho de lacre cantando mesmo BOM DIA

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Cristina Branco - Se não Chovesse (Fado Súplica)


Paul Mauriat - Love is blue (+lista de reprodução)


IGNORANTE ME CONFESSO

Apetecia-me fazer como Óscar Wilde quando disse "não tenho nada a declarar só o meu génio". Copiando-lhe só uma parte da frase, digo "não tenho nada a declarar só a minha ignorância".
Sinto-me rodeada de idiotas superlativos, dispostos a tudo para erguerem bandeiras.
Às vezes temo editar o meu diário porque pode acontecer ser confidente de pessoas que tenham sofrido para além de certo limite e essas interpretam-nos mal e inventam sempre explicações para tudo, atá para a ignorância.
Leio os jornais, o 1º momento diário e penso, se eu não lesse isto aqui não sabia, mas como sei se o que leio é verdade ou não, se é um facto manipulado?
Não sei, nem vou saber.
Duma maneira geral, somos todos muito ignorantes, uns numas coisas outros noutras, basta perceber que o que não conheço não existe, no entanto muitos de nós sabem que as coisas existem independentemente de as conhecermos.
Há quem queira fazer da ignorância, uma doença, será?
Li que o Rousseau abandonou os filhos e maltratava a mulher. Seria verdade? Não sei, mas tenho tendência para acreditar. Ter tendência faz tornarmo-nos menos ignorantes? Claro que não.
Sermos desconfiados obvia a ignorância? Claro que não, apenas nos faz mais desconfiados.
A arma mais poderosa que conheço no dia a dia é a ironia a e o humor.
Se as soubermos utilizar livram-nos de muitas desgraças do mundo.
Vejo muita gente a perorar no meio da turbamulta, olhando para o que acontece como se fossem espectadores que vão ao teatro, como se não fizessem parte das situações.
Julgam saber tudo e com frases ditirâmbicas e temperamentos peripatéticos têm a ilusão de tudo saber.
Os ricos não têm livros. Não precisam, já que leem, escrevem, contam com alguma proficiência.
Os pobres também não e todos estão unidos naquela enorme sensatez que manda reorganizar o mundo a partir do que ele é e não a partir do que ele poderia ter sido.
Sou tão ignorante que acreditava que a velhice era um termo de residência. Nota-se!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

DANDO A CONHECER, OS MENOS CONHECIDOS

CARLOS POÇAS FALCÃO

"ICH HABE GENUG"


1.
O balouçar
da roupa sereníssima
no bairro das traseiras
recorda-me o engano
que ilumina em volta o mundo.
Não saltes tão de força, coração, mas também tu
oscila sereníssimo no tempo que ainda tens
para não desesperar

2.
E estava-se tão bem

Mas depois abriu
depois fugiu
desapareceu

Depois da tua morte
continua a claridade
a luz faz doer os olhos

E não podendo já
falar ao teu ouvido
nenhum segredo escuto
para dizer ao mundo inteiro

3.
Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar


Público, Lisboa, 12 de Novembro de 2011.

BOM DIA, GRALHA

ESTA EMBALSAMADA NO MUSEU DE COIMBRA. FOI EM COIMBRA QUE AS VI, NO JARDIM, AO VIVO E A CORES

Projeto Canção Nua: A Lista, de Oswaldo Montenegro


Joan Baez and Emmylou Harris - The Grey Funnel Line - July 27, 2013

A MANHÃ ESPANTA-ME O DIA

Não me apetece falar da política. A política actual é uma tragédia, ergue-se sobre o lixo e parte do lixo numa bizarra e cruel harmonia.
Não me apetece falar do tempo, que vai mau a fingir-se indiferente.
Não me apetece falar dos que têm sempre muita pressa e o tempo não lhes chega para nada, nem dos que ambicionam desmedidamente, dos confusos e caóticos.
Se fosse tocada pelos deuses calava-me e a luz transpirava de transparente.
Não me apetece falar dos que têm medo de se cansarem e de todas as personagens insólitas com que tropeçamos nesta vida.
Não me apetece pensar na mosca e no mar que ainda dorme ao longe.
Então de que respira o corpo para falar hoje?
Toda a gente fala na Europa mas não vivemos na Europa. Vivemos na órbita da lua. Onde é que isso fica?
Fica nos bairros sociais do Porto, nas ruas cheias de mendigos, na periferia da Brandoa, no continente metafísico.
Fica no português embófia, naquele "importante", naquele que fala segundo a categoria funcional do interlocutor.
Não quero falar de caras fechadas à chave.
Então do que quero falar? Do Sol.
Do Sol habitável, da ignorância limpa, de dias limpos de vésperas.
É difícil falar sem ser com um sorriso miúdo nesta algazarra difusa. As palavras não se ouvem, parecem que correm, não reinam, guerreiam. Levam-me pelas rédeas. Não sei se desejam mostrar a sua própria competência e confundir-me a ignorância.
Quando eu era pequenina, a minha avó fazia-me sopa de letras porque ingurgitava-as melhor, diziam a rir.
Se calhar comi letras a mais, mas diziam que a sopinha era para comer.
Nunca me deram sopa de ângulos, uma grande falha. Se tivesse comido sopa de ângulos, agora talvez encontrasse o ângulo justo para ver as coisas.
Falar da verdade e com verdade é quase como quando estou  a adormecer e me encontro naquele território de fronteiras em que ainda sabemos quem somos ou julgamos saber, mas em que já não conseguimos abrir os olhos e sonhamos e experimentamos sentimentos e sinto tudo o que quero sentir ...e cumprimos Portugal e a nós próprios num distante arrabalde de uma infância feliz.

BOM DIA, BORRELHO-DE-GRANDE-COLEIRA



JÁ PARASTE E FITAS-ME, DEPOIS DE TERES DADO OS DOIS PASSITOS?

pele de muro

Depois de 1,30m a resolver um problema do computador fica-se assim com a pele

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

La Bella Noeva: Musique italienne du XVII siècle | Marco Beasley


INTIMISMO NA ESCRITA

Há palavras lindas, tão lindas que parecem flores com aromas. Há outras que o não são. Há aquelas que nos oxigenam a mente e outras que nos intoxicam, mas não quero ir por aí, em tempos já escrevi sobre este tema.
Apetece-me antes abordar o caminho do intimismo. Há escritores que consideram que o intimismo, o falar mais individualista, afasta os leitores, porque os leitores querem considerar-se eles próprios protagonistas, eu, que não sou escritora mas leitora assídua, acho pelos mesmos motivos, o contrário.
Não considero que o intimismo não seja igualmente uma forma não ficcional.
Quando partimos do particular para o geral não estamos a fazer generalizações, mas antes a ficcionar o pessoalismo, a torna-lo de todos.
É aquela velha história "somos todos muito parecidos apesar de muito diferentes".
Sentimos necessidade de narrar em especial quando se vivem dias grossos e sem luz.
Distinguimos palavras, pensamentos feitos de palavras e quando se escreve diz-se adeus a palavras naquele instante ligeiramente iluminado. Isto passa-se com todos, no entanto é bastante intimista.
As imagens agora saltam-me, se calhar estavam todas caiadas de azul, metidas em vasos à porta e de repente parece que saem dos seus sítios e vêm aqui para ver e ouvir e perceber uma linguagem falada  que foi pelos meus avós.
E vezes há que me calo em vez  de as deixar sair uma por uma. Parecem que não sabem falar, falta-lhes o dom.
Desconfio até que não se querem encontrar comigo, já que nem sempre faço de mim própria, mas a maior parte das vezes, sim.
Nem sempre sei que existo no mundo, mas pergunto-me se alguém sabe e lá vem a história: O que se passa comigo, interessa aos outros?
Supondo que cada um de nós é muitos e quando nos escrevemos, escrevemos o outro, interessa sim, porque o que se passa comigo passa-se com os outros.
Apetece-me dizer que é como fazer amor. De todas as vezes que se faz amor, inventa-se o amor, não sei quem disse isto, mas é verdade.
De todas as vezes que se escreve, nem que sejam assim uns escritinhos como os meus, parece que nos reinventamos, desarrumam-nos o espírito, nem que seja para o manter na mesma.

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

  DE MARIANA PINDO DOS SANTOS


Escreveste há tempos numa carta para ninguém «pensei que sempre estarias aí». Agora sabes que não há presenças perenes nem ausências definitivas. Basta folhear as páginas dos livros para escutar as conversas entre poetas, um diálogo tímido que se trava e acelera no excesso que não cabe em lado nenhum. Oferecem-se uns aos outros as mais brutais ou gentis palavras. Palavras velhas como o mundo, tantas vezes ditas e escritas que dele se separaram há muito, mas às vezes voltam para o saudar. Perdem-se, encontram-se e perdem-se e encontram-se. E assim por diante.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/ Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

BOM DIA, NARCEJA

http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fichas-de-Especies/content/Ficha-da-Narceja?bl=1&viewall=true

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Jürgen Habermas

. Habermas, filósofo alemão de 87 anos falou  da síndrome pós-democracia em Lisboa, em Outubro passado.
Entende que é um fenómeno que se explica como resposta racional dos cidadão à percepção do esmorecimento das suas oportunidades de ter algum impacto sobre a verdadeira orientação da política governamental.
. Considera que os governos nacionais sofrem dum espaço limitado para a acção política enquanto a rede compensatória das organizações internacionais se afasta do alcance da legislação democrática doméstica (como lhe chama). Há uma transição da condição nacional para a pós-nacional.
. Há decréscimo na militância partidária.
. O eleitorado flutuante representa, hoje, cerca de um terço de eleitores. Este eleitorado não é homogéneo.
. Há eleitores que mudam frequentemente de preferência partidária, normalmente  são cidadãos bem informados e educados. O comportamento errático destes eleitores indica uma redução geral da confiança na competência dos partidos políticos.
Todas estas tendências que vêm desde os anos 80, coincidem com a desregulação económica e seus efeitos na distribuição do rendimento, segurança no emprego e a desigualdade  social, de um modo geral.
. A Globalização iniciada nos anos 70, colocou os mercados fora do alcance da regulação normal.
. O cepticismo em relação à democracia aumenta na população com o crescimento da desigualdade social.
. Habermas diz que em vez da participação política nos partidos acrescem as iniciativas cívicas, petições e manifestações num corte transversal por todas as faixas etárias
(no caso português muito deficiente, digo eu)


. Diz Habermas que estes instrumentos de democracia directa e protesto predominam nos sectores mais privilegiados e conclui que os partidos políticos a administrações públicas respondem aos pedidos de formas alternativas.
À pergunta: Como pode a democracia ser transnacionalizada? Responde: alargando a cadeia da legitimação democrática para além das fronteiras do Estado-nação, só se tornará possível na condição de tipo de comunidade política supranacional.
A partir daqui não explica como e, deixei eu de me interessar pela explicação do sistema supranacional com vários níveis, mas baseado no Estado-Nação que confere o alinhamento social e territorial.


(encontra-se explanado na Net, Expresso e muitos outros locais o pensamento deste filósofo/sociólogo, para quem queira obter mais infomações sobre o mesmo)

ATÉ JÁ

EU E O BLOGUINHO APANHAMOS UMA GRIPE DAQUELAS À MODA ANTIGA


ESTAMOS EM INTERMEZZO

Anna Netrebko - Norma Casta Diva (Vincenzo Bellini)


o canto pintassilgo - BOM DIA



O PINTASSILGO É FIDALGO, TEM ARES DE MERCADOR DE VIAGEM E TODO GARRIDO TEM UM CANTAR COLORIDO COM AS SUAS PENAS. COLORIDO, VARIADO E ALEGRE

domingo, 12 de janeiro de 2014

DIZ-ME COMO (TE) CONDUZES, DIR-TE-EI QUEM ÉS.

Os queridos portugueses foram educados para a dissimulação. Aprenderam a prescindir do pensamento.
Nesta Terra de seres-camaleões a hipocrisia constitui virtude muitíssimo apreciada.
Portugal está cheio de derrotados que se limitam a concordar só por ser mais fácil e não dar trabalho.
Há muita gente com mau feitio e de preferência parecidos uns com os outros.
Há muita gente de bom feitiozinho e de preferência parecidos uns com os outros.
E muita gente que se trai a si própria, que não vive e que está em desamparo.
As pessoas perderam a curiosidade duma maneira geral ficam-se pela cusquice. Não querem gastar-se, faz mal à pele; não querem atritos com as outras pessoas que faz mal às unhas.
O que queriam ser mesmo era patrões, mas dá muito trabalho também, a bem dizer, mais vale emigrar.
Todos são espectadores interessados e de liberdade sabem pouco, a não ser a deles, mesmo que afecte de sobremaneira a dos outros, o que isso interessa, pá?
Todas estas características da nossa personalidade-base são fáceis de observar quando se conduz, estão lá todas.

Canto del cuco común (cuculus canorus)


DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

...OU FALADOS (mas com obra feita)


JORGE DA SILVA BRAGA (um poeta da minha terra, demasiado bom para não ser lido)






MORTE EM VENEZA


De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza


Poemas com cinema [de O poeta nu], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.





sábado, 11 de janeiro de 2014

Testamento - Toquinho & Vinicius de Moraes (+lista de reprodução)


ESPECIALISTAS


Palavra e conceito que esteve sempre presente e considerado por mim, mas não venerado.
Quando ouvi esta palavra pela 1ª vez, andava na escola primária e perguntei o seu significado.
A professora, fervorosa adepta do ensino americano explicou o conceito, dando o exemplo da escola americana em que formavam especialistas desde muito cedo e deixavam para trás, os mais inaptos.
Lembro-mo muito bem de ter pensado, tenho que ser a melhor, senão não me querem aqui.
Comecei a partir daí a recear a palavra e o seu conteúdo.
Ao longo dos anos sempre estive atenta à palavra. Recordo, como se fosse hoje, de perguntar ao meu avô o que queria dizer, depois de ter perguntado à professora e ele se ter munido duma porca e dum parafuso da despensa e me ter dito: estás a ver isto? É um parafuso. Vês isto? É uma porca e entretanto enfiou a porca no parafuso, dizendo-me solenemente, se a porca não entrar no parafuso nem o parafuso na porca, se não encaixarem bem e se só houverem especialistas, vais ter que chamar dois, o especialista da porca e o do parafuso, caso contrário podes só chamar uma pessoa para te resolver o problema. O meu avô era empresário e antiamericano. À época, só sabia que era empresário, a outra vim a descobrir mais tarde.
Na época em que tinha que escolher encaminhar-me para o estudo das letras ou das ciências, veio outra vez o medo da palavra. Tanto me fazia ir para ciências como para letras, eu gostava de tudo, as notas eram semelhantes.
Lá em casa havia grande liberdade de escolha, tu é que escolhes, mas a última palavra era do meu pai. O meu pai era um criativo de profissão e comunista.
Mas tentei cumprir o veredicto e escolhi, não quero ser especialista em nada.
Esta sentença que dei a mim própria saiu-me bem cara. Fiz três alíneas do 7º ano, entre ciências e letras. Estudei grego, latim, biologia, matemática, etc. Fiquei na mesma, aliás, valeu-me dois cursos, esta minha mania da justiça, neste caso entre as Letras e as Ciências. Tirei um de Letras e um de Ciências, para aprender duma vez por todas que se deve ter ideias feitas se possível e, tudo se torna bem mais fácil.
Mas devo confessar  que a explicação do meu avô sobre a porca e o parafuso a que aderi de imediato, ainda hoje me norteia.
E vem tudo isto a propósito de duas coisas essenciais ( e agora deixa-me bloguinho meter "publicidade". Lembras-te do Evaristo, aquele professor catedrático da Faculdade que quando aqui chegava dizia: a Primeira e a Segunda e nós baixinho repetíamos, a primeira e a segunda e lá nos atirávamos à Sebenta? :)


1ª Quando alguém me diz "eu não sou especialista nisso, não posso comentar".


2º Os saltimbancos encostados à política e aos políticos dos poleiros a serem especializados em tudo.


A palavra especialista continua a ser um problema, não para mim que a dissequei ao longo dos  anos como se duma rã se tratasse e só resolvi o problema, tornando-me tecnicamente especialista, sendo a mesma não especialista em coisa nenhuma, graças a mim que muito esforço faço para conseguir esta verdadeira 'especialização', mas para os outros, para os que o não são e julgam que os outros é que são ou os que são, julgando que os outros também o são e todas as outras conjugações que se podem fazer com esta palavra que parece inofensiva mas não é, apenas porque não há palavras inofensivas.
És especialista em Literatura barroca? Em conto gótico inglês? Em poesia épica? Não te deves aproximar de Fernando Pessoa ou pelo contrário deves ir ao seu encontro.
Quando me dizem: "eles é que sabem, eles é que são os especialistas, se dizem assim é porque é assim", exceptuando o futebol em que toda a gente é especialista, talvez por isso seja um desejo de massas, muitas Massas.
Saber mais de qualquer coisa, em especial no que à actividade profissional diz respeito, faz sentido e torna-se necessário. O que não faz sentido é preterir tudo o que à volta está.
Quer isto dizer que toda a gente tem que saber de tudo, de ser generalista? Não. Como não devemos ficar reféns de um único saber que nos impeça até de criticar o saber do vizinho, porque "especializado", também não devemos descurar saber mais e mais sobre aquilo em que trabalhamos. Os saberes são dinâmicos e o que sabemos hoje não serve para amanhã, como toda a gente que trabalha sabe.
O conceito e sua definição desta palavra e de outras tem evoluído ao longo dos tempos. Nos anos 70/80/90 olhávamos esta palavra, especialista, duma dada forma. A especialização seria muito interessante sim, se salpicada de outros saberes e formaram-se as equipas pluridisciplinares.
Não gosto de ouvir, por exemplo: " eu de política não sei nada, isso é lá com os políticos, eles é que sabem, eu não me meto no assunto".
Não gosto de ouvir: eu é que sou especialista, eu é que sei, aqui só se mete quem souber tanto como eu do assunto".
E vem-me à memória a "metáfora" da porca e do parafuso.
A minha doutrina, porque os anos vão altos, continua a ser a de pequena, basicamente a que o meu avô me forneceu, só acrescentei que ser especialista vale a pena e convém sê-lo para se perceber que o nosso saber é tão, mas tão pequenino que se não soubermos de tudo um bocadito, podemos lá não ter o especialista à beira e por causa do parafuso e da porca, a máquina não trabalha. É pois uma teoria bastante simples e com ramificações para todo o universo.
Gosto de catar palavras à infância, seguir-lhes o percurso: como nasceu, como viveu, como se reproduziu,  se morreu ou continua viva.


NÃO SE TEM CÃO, CAÇA-SE COM GATO

continuo sem saber como enviar fotos, portanto socorro-me de outras formas menos ortodoxas de apresentar os nossos pássaros e hoje é:


o CHAPIM-REAL




http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fichas-de-Especies/content/Chapim-real-um-caso-de-versatilidade?bl=1



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

DANDO A CONHECER OS MENOS CONHECIDOS

inauguro hoje este cantinho de gente com grande valor literário e menos conhecidos pelo grande público


MANUEL DA SILVA RAMOS




[EU, QUE TINHA IDO À BARRAGEM DO BELICHE]


[...]
 
Eu, que tinha ido à barragem do Beliche nadar e ver se me afogava, nesse dia tive um desastre propositado numa curva contra um eucalipto, e o que é mais curioso é que não entrei no coma, como eu desejava, fui projectado e saí dessa minha vontade de morrer completamente ileso.
 
[...]



Undine em Cacela, Centro de Cultura e Desporto dos Trabalhadores da Administração Tributária do Distrito de Lisboa, 2005.







TERRITÓRIOS EXPLORADOS

Ontem a felicidade passou por aqui.
Estive à conversa, cerca de 30m com aquela mulher que vende a revista Cais em Stª Catarina. Há anos que lhe compro a revista. Falou de tudo um pouco. Falou das pessoas que lhe puxam pela revista sem a comprarem.
Falamos das pessoas que se mantêm à tona e lutam desesperadamente por isso, referiamo-nos aos ainda bem vestidos que por ali passam.
Claro que lhe dei muito mais do que a revista custa e achei-lhe piada que ela queria ao fim da força, devolver-me uma parte do dinheiro e eu insistia, olhe que eu não sou rica, não preciso dele.
Não é mulher de muitas falas, mas vi-lhe o sorriso naquele rosto marcado pela vida.
No final, disse-me quase sussurrando: soube-me tão bem falar consigo, soube-me melhor do que o dinheiro que me deu, obrigada. Apeteceu-me chorar, mas fiz-me de forte, virei-lhe as costas e despedi-me com um até à próxima.
Se calhar fez-me melhor a mim do que a ela.
Vinha dum almoço com amigos de há longa data que me falavam da vida que está muito mal. Um anunciava-me que não estava em pleno porque lhe deviam milhares de euros e mais à frente consultava o telemóvel a ver quanto tinha ganho em bolsa.
Outro, médico, referia-se às dificuldades actuais como funcionários públicos que somos e da quebra do vencimento, como se eu não soubesse.
Não há dúvida que me correu bem o dia, principalmente porque me encontrei com gente diferente.
Nunca me deu conforto nenhum conversar com gente da mesma "espécie"  em idade, preocupações, sítios frequentados e etcs.
Onde me sinto bem é mesmo com os desfavorecidos da vida, sinto-me peixe na água, mas não numa de caridadezinha barata, era incapaz de ser voluntária nesta área, por exemplo. Gosto de falar de igual para igual, na tal arte do encontro.
Gosto desta gente, não para coleccionar personalidades como se coleccionam cromos em pequenos, mas porque acho que podia ser uma pessoa destas, estou próxima, sinto-me muito próxima.
A vida é uma sucessão de eventos extraordinários e nem sempre os vemos porque estamos distraídos.
Claro que depende da intimidade e da perspectiva. Mas neste caos em que vivemos, com todas as banalidades que ouvimos de línguas escorregadias e lisas, cada vez mais me interesso pelo insólito, em cavalgar a vida com gente interessante.
Ontem ao almoço com amigos, falou-se do país, dos políticos, da política e de muitas outras coisas.
Foi bom e o almoço estava óptimo, mas o que eu gosto mesmo é de estar com a "minha gente", com os que já percorreram corredores escuros e silenciosos e amplos salões desamparados.
Gosto de ver as pessoas a sorrirem com aquele sorriso do coração.
Há dias que correm mesmo bem. Logo ao sair da estação deparei-me com um senhor que não conseguia colocar a coleira à cadelinha dálmata. A cadela atrapalhava-se a andar porque a coleira estava colocada ao contrário. Fui ter com ele e pedi-lhe para recolocar a coleira da cadelinha.
O senhor agradeceu imenso mas a cadelinha lambeu-me a mão, assim começou o meu dia.
Logo a seguir juntou-se a nós um "bêbado" da estação, em estado de sobriedade, que nos queria falar dum cão que lhe tinha falecido há pouco e por quem ele estava de luto e relatava o amor que os unia desde que o tinham abandonado ali mesmo e ele tinha visto o carro a larga-lo.
Estivemos eu e o senhor da cadelinha, que esperava a filha  e ao princípio nem olhava para o sofredor homem de luto pelo cão que tinha partido, a escutar a dor daquele homem, tenho a certeza que fez bem aos três. Perdi um cão, o meu querido sweet o ano passado.
Gastei mais 30m do meu dia, aproveitei-os desta maneira. Claro que ia com uma agenda que não cumpri, nem pela metade, mas a felicidade trespassava os minutos .
Não gosto de ideias feitas.
Não gosto de cadáveres ressuscitados por artes mágicas cumprindo ordens, gosto de saber que o amor existe e o amor esteve presente ontem e cumpriu-se, não por um dos amigos, sentado àquela mesa de restaurante confessar que teve um "fraquinho" por mim em anos que já lá vão, nunca dei fé devo dizer, junto a uma garrafa de bom vinho e em tempo de "confissões" entre amigos. Dizia ele que eu era uma mulher do "caraças" mas absolutamente inacessível. Ri-me e fui rectificar  quantos graus tinha o vinho, ainda hoje lido mal com estas coisas, no entanto, ri-me muito, quase à gargalhada, depois de irmos ao passado e festejarmos o presente com fogo de artifício, que a alegria leva a isso.
Um dos empregados do restaurante disse: hoje   é dia de festa, os srs. drs. juntaram-se todos, e nós   continuávamos com aquela alegria que se conhece quando se juntam amigos, mas a felicidade, a felicidade que não se anuncia com fogo de artifício, essa senti-a no instante em falava com a minha conterrânea, a ex-drogada que vendia a revista Cais e que ficou contente por falar comigo, mulher de poucas palavras, confessava que as pessoas não perdem tempo a falar com ela.
Não nos rimos à gargalhada, mas estivemos felizes por momentos.
Não posso contar isto a toda a gente bloguinho, por isso conto-te a ti que sei que me interpretas o sentimento e não te ris baixinho.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Mirlo cantando (Turdus merula) - Common Blackbird - Melro-preto


Antonacci - Baïlèro (Proms 2010) (+lista de reprodução)


PARA MIM AINDA TENHO, ENTÃO PORQUE ME CONSUMO?

Porque me preocupo com a cidade mártir de Tacloban, porque me preocupo com estes filipinos da ilha de Leyte no arquipélago filipino? Com esta gente sem tecto e crianças a banhar-se em poças de água nas ruínas?
Porque me preocupo com o Líbano, melhor, com os libaneses que as religiões dividem?
Um país de 4 milhões de habitantes que tem o azar de estar a 75km de Israel e a 80 da Síria, em que os Tribunais são religiosos, com 40% da população maronita cristã, os mais ricos, 5% de drusos, 25% de muçulmanos xiitas, os mais pobres.
Um país com muitas crianças e em que todo este sectarismo levado ao rubro faz mortos às dezenas, todos os meses que nós saibamos, porque a realidade que nos chega é sempre pintada de várias cores.
Porque penso nesta gente que nem sequer conheço e de que tão afastada, mas tão próxima me sinto?
Estive no Médio Oriente e senti-me bastante identificada com esta gente em muitos aspectos.
Os muçulmanos são  na sua grande maioria gente muito boa, aliás só os fanáticos e esses não são os religiosos, mas os que actuam em nome da religião é que cometem todo o tipo de anomalias e crimes muitas vezes, como os católicos em boa verdade, embora com metodologias bem diversas.
Porque me preocupo com os sírios? A Síria, um país moderno, com gente linda e que os imperialistas americanos estão a destruir e muitos outros exemplos poderia dar.
Porque me preocupo eu?
Pela simples razão que nestes países vive gente, gente igualzinha a nós, que pensa e sente como nós, que ama como nós, exceptuando aquela pequena parte  fanática da população que se encontra ao serviço dos diversos interesses mundiais e sempre, mas sempre, comandados por  jogos do capital financeiro e económico, nem que para isso se vistam nestas partes do mundo, de religião.
Porque me preocupo com os portugueses se para mim ainda chega?
Preocupo-me porque tive uma educação que me ensinou a olhar para o outro, porque me fiz, ajudando os outros na medida das minhas possibilidades, porque tenho o sentimento pátrio muito arreigado, logo me sinto universalista da cabeça aos pés.
A minha identidade é apenas feita por o oposto aos outros e assim vou continuar até durar.
Não precisava? Preciso e muito, senão não sou eu.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Keith Jarrett - Somewhere Over the Rainbow

AS ERVAS CONTINUAM A CRESCER

Vivemos o fim do Império nos anos 70, uns do lado de cá como eu, outros do lado de lá, das ex-colónias.
Há coisas em que somos os maiores, somos os maiores a remendar um país.
Vieram os emigrados das ex-colónias, os retornados assim chamados e nós, os que já cá estavam, demos-lhes espaço.
Eles vinham com imprestáveis solidões e nós demos-lhes lugares para se integrarem na administração pública, a maioria foi recebida aí.
O novo mundo, neste caso Portugal, nunca mais foi o mesmo. Portugal mudara e nós nem sabíamos muito bem o que fazer com esse novo mundo.
A maioria dos retornados integrou-se, mas todos nós continuamos com nuvens negras e tréguas no horizonte.
Hoje o 25 de Abril começa a cair no domínio das lendas.
Estamos outra vez no caos, de novo temos que inventar o futuro, mas a maioria de nós ainda não sabe.
Temos que ter opinião sobre o que dizemos. Precisamos de mudar de novo.
As pessoas duma maneira geral, estão distraídas, não percebem o que lhes está a acontecer.
Sabem que caem, que estão a cair cada vez mais, mas ainda a sensação que têm é a da queda quando se dorme, julgam que vai passar não fazendo nada. Não abrangem com o olhar as suas próprias vidas e a do país, ainda falam no 25 de Abril como se ele se pudesse remendar, como se existisse, ainda não deram conta que morreu.
Continuam com medo, o medo escorre-lhes e paralisa-as. Subcompreendem as coisas muito de vez em quando deixam que as ervas continuem a crescer e a vibrar ao vento.
Sempre fomos mais ou menos ressentidos e quietos.
Somos um povo agachado, um povo que fala muito e pensa pouco, mas que nos mobilizamos por uma grande causa, aconteceu com a Independência de Timor.
Execptuando estas grandes causas, improvisamos, improvisamos sempre e no fim da linha, caímos na mendicidade, choramos pelos outros, choramos muito, mas esquecemo-nos de chorar por nós próprios, embora quando o fazemos pelos outros o façamos também por nós próprios e na maioria dos dias mantemo-nos num silêncio infeliz de actos.
Vivemos com aquela frase sempre a bailar-nos na mente "não quero pensar nisso".
Evitamos, com cuidado clarezas, não nos convém de outro jeito, apagamo-nos e apenas existimos.
Existir já contém suficiente volúpia, sentimos.
Revemo-nos em partidos do poder e quando achamos que é preciso começar de novo, enovelamo-nos outra vez em zumbidos de memória e antes de voltar à grande natureza morta em que vivemos voltamos ao princípio, àquele princípio  em que as forças se enovelavam  e chamamos-lhe recomeçar.
Rugimos muito, bajulamos muito, mas pensar por nós dá muito trabalho, reunir palavras e pensamentos, organizá-los, expô-los como ideias e opiniões é demasiado cansativo.
Falta-nos um qualquer fluido para nos fundir isto tudo, argamassar as raivas contidas, os zumbidos do pensamento e passar à fase seguinte.
Parece que vivemos cansados, a maioria de nós muito cansada, uns de nada fazerem, que são a maioria outros, exactamente do contrário, a minoria.
É algo como se estivéssemos no meio de um pensamento de cujo início não nos recordamos e até as raivas se esfarrapam todas.
Se fossemos um coro e nos juntassem recomeçaríamos dissonantes e violentos.
Às vezes penso que o nosso principal mal é mesmo nós próprios, mas isto fica para outra vez já que me chegou aquela leve emoção no corpo que me dita a necessidade de parar.

Canto do Papa-figos (Oriolus oriolus) Golden Oriole


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O QUE EU NÃO GOSTO É DE PESSOAS TÉPIDAS

Poderia começar como a Adriana Calcanhoto na canção "O que eu não gosto é de bom senso..."
Eu sou do tempo em que havia silêncio, mas esse mundo acabou com o tempo.
Hoje o silêncio, falo do verdadeiro silêncio, compra-se.
Pertenço ao século passado, ao século em que as pessoas lutavam por causas e possuíam ideologias, em que não havia as audiências e os espectáculos oferecidos ao público não passavam somente pelo sofrimento, tristeza ou alegria para os espectadores se converterem à sensibilidade do choroso ou do alegrinho.
Não gosto de pessoas que assistam à ruína do seu mundo e ruam com ele.
Não gosto de virtuosos e pálidos de feito, não gosto.
Não gosto de gente perversa, enfeitados daquela perversidade em que aceitam as coisas como elas são, mas preferem vê-las de longe para poder irritar-se a seu bel-prazer.
Não gosto dos ricos que não têm livros e quase todos não os têm.
Há pessoas da minha idade que são autênticos Matusalém, o tal avô de Noé que viveu 969 anos e que se limitam a contabilizar o dia-a-dia, eu só tenho 899,  ainda não atingi a  tal identidade.
Gosto de paixões, de beleza. Não gosto de acompanhar na televisão os negócios da pátria.
É difícil distinguir, a partir duma certa idade, o que é hábito e o que é vício, eu sei.
Não gosto de conselheiros para assuntos gerais.
Gosto de quem não ache que está condenado ao cativeiro por estar sentado numa biblioteca rodeado de livros ou numa paisagem rodeada de natureza.
Gosto de pessoas que gostam de dar cor a um quotidiano com demasiados laivos de cinzento.
Gosto de palavras antigas.
Gosto da ruralidade e de cidades.
Não gosto de alarves, dos que têm tendência com o seu riso para conquistar o mundo, mas o que eu não gosto é de gente tépida, não gosto.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

PARTILHO UM BLOGUE QUE ME É MUITO QUERIDO

http://mendesferreira.blogspot.pt/

YERMA di Federico Garcia Lorca - Regia di Gianni Leonetti


POESIA PELA MANHÃ

SÍSIFO 

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


 MIGUEL TORGA

A PROPÓSITO DA MORTE DE EUSÉBIO OU TALVEZ NÃO

SUBTÍTULO- OS SIMPLES

Os simples urbanitas são diferentes dos restantes. No campo, traduzindo para os lisboetas na província, ainda se encontra Deus vestido de trolha e com as unhas manchadas de tinta, ainda há gente atacada duma categoria de doenças inclusive a admiração. Na cidade, a maioria das vezes nem se ouvem os guisos da inteligência.
Compreende-se sempre tão pouco. A maioria tem olhos de feldspato.
Ouve-se mal na cidade, para se ouvir bem é preciso prestar homenagem a uma flor. Ouvir é ser ao mesmo tempo generoso, sincero e honesto. 
A simplicidade está ofçaide  que é o mesmo que dizer que está fora de jogo que é mesmo que dizer que está fora de moda. Há mesmo quem julgue que ser simples é um problema de natureza vulcânica.
Há quem se julgue ouro puro, a maioria, mas a maioria de nós é apenas simples limalha de ferro.
A maioria dos urbanitas não tem mais do que 2 pensamentos na mão e sofrem não raro, de várias descalcificações, penso ter sido o Papa Francisco a utilizar esta palavra ou outro alguém, ouvia-a, li-a em qualquer lado, não é da minha autoria a expressão, é, a concordância com a mesma.
Os urbanitas, duma maneira geral, não gostam de amochar e fala quem sabe do que fala.
O país encornou-nos e encorna-nos (desculpa bloguinho, mas é o que me apetece dizer neste momento) e as lágrimas pedem-nos por favor para sair.
Morreu um símbolo do futebol duma época passada, daquela época em que país não era conhecido apenas pela dívida ou por não se revoltar sendo espezinhado por todos. Era a época do país do Estado Novo, nesse passado nada glorioso, a não ser para um negro moçambicano integrado. Era o tempo da guerra colonial e um integrado e simples era importantíssimo, com jeito para a bola e que fazia maravilhas de pés e pela Amália Rodrigues, cantante exímia dumas melodias tão tristes, tão tristes que dizem ser a nossa alma a chorar.
Neste silêncio brutal num país que nos volta a castrar, em que a grande maioria assobia para o lado, chamando-lhe modéstia e normalidade e se julga certinha e outras coisas do género, deu imenso jeito o Eusébio morrer, morte aliás adiada há dois anos quando esteve internado e quase a despedir-se.
As lágrimas podem cair à vontade, o país vê-se ao espelho. Prevê-se um funeral cheio de êxito em que ninguém quer ficar em casa.
Estamos todos demasiado encurralados.
Num país em que apenas se vê televisão nos tempos livres e como tal viu o funeral do grande líder Mandela, um homem importante para o Mundo pela contribuição que deu  na abolição do apartheid na África do Sul, em que as televisões incitam ao funeral do nosso "símbolo", neste país cheio de buracos insatisfeitos, comandados por televisões ao serviço do capital, empenhadas em distrair o povo da realidade, neste país a abarrotar de pecados soltos das pessoas devido às suas várias desistências da luta colectiva, em que a maioria não passa de chorinhas sem se revoltar pelo que lhe fazem parecendo até pedirem para ser mais amachucados, nestes país em que se vive em planos inclinados de aldrabice, neste país em que parece tudo apático ou morto e se coloca ao sol lisboeta para curar as anemias, que tudo parece inútil, em que as pessoas parecem desfazer-se de si próprias, neste país em que o casamento com o mundo é putativo, neste país sentado na caixa dos sonhos...Este país resolveu chorar tudo duma vez como uma esmola para os olhos e sentimentos vários.

BOM DIA, CORUJA-DO-NABAL

AQUELA QUE PODE SER VISTA DURANTE O DIA

domingo, 5 de janeiro de 2014

MORREU O EUSÉBIO


MESMO NÃO SENDO BENFIQUISTA, SINTO A SUA MORTE, MAS TRÊS DIAS DE LUTO NACIONAL NÃO, NÃO SE JUSTIFICA.
DESCANSA EM PAZ
 

MUITAS SAÍDAS, MUITAS ENTRADAS

pensamentos soltos a propósito da frase titulada, lida em contexto da fotografia


É sempre preferível não pensarmos muito em todas as hipóteses que temos de ir por um caminho ou por outro, nas razões que nos levaram a tal escolha, que às vezes não passam de escolhos.
A descoberta de nós mesmos nunca acaba e só nos podemos descobrir através dos outros, a dificuldade está em encontrar os tais outros.
Viver é uma arte, já muitos o disseram, mas todos os que vivem o confirmam.
Estar presente na presença das coisas não é fácil, antes pelo contrário.
A maioria de nós anda ao sabor da corrente, dissolvemo-nos.
Temos normalmente duas escolhas e até mais, a não ser em situações extremas e escolhemos normalmente, mesmo que a nossa escolha seja a de não escolher e fazer com que o tempo resolva e decida por nós.
Nestas escolhas somos muitas vezes confrontados com flutuações da mente, mas o vivido e o experienciado estão sempre presentes e muitas outras variáveis, algumas bem parasitas, por sinal. Vezes há, que perante as "mesmas" situações, sendo que as situações nunca são as mesmas, decidimos de forma diferente e mesmo contraditória.
Somos, efectivamente, um mistério, mas também é verdade que muitos de nós renunciam ao poder da sedução e não perdem o poder de sedução, emprestando às situações diferentes saídas e entradas.
Porque aderimos a uma e não a outra, todas temos uma explicação " a posteriori", raros "a  anteriori".
Dizemos que se deveu a isto e não àquilo, que fiz isto por causa daquilo e fiz aquilo por causa disto, mas muitas vezes na hora da decisão, julgamos apenas ser a melhor e, logo queremos que transite em julgado, mesmo que após um minuto se possa achar que a decisão é errada.
Também se poderia falar aqui do processo de escolha masculino e feminino, bem diferentes por sinal, mas ficará para outra ocasião.

BOM DIA, CHASCO-RUIVO

pareces o zorro com mascarilha

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

TUDA MUDA

. Até o passado muda, muda consoante o presente.

. Muda o discurso dos políticos que agora já não contém apenas paradoxos e jogos de palavras.

. Muda a percepção que temos sobre os outros. Foi talvez por volta dos 40 anos que descobri que somos todos estranhos uns em relação aos outros. Podemos usar as mesmas palavras, mas não falamos a mesma língua. Foi uma descoberta dolorosa.

. Muda a arquitectura do medo. Alturas há que temos medo de nos perder de nós próprios.

. Muda o erro.

. Muda a perspectiva e a intimidade com o que nos sucede.

. Mudam os disparos para a felicidade.

. Mudam os cheiros do tempo.

. Muda a forma como acompanhamos e desacompanhamos o mundo.

Sei que não tenho nada para dizer, no entanto digo e escrevo.
E por hoje já plantei as minhas casuarinas escangalhadas.

BOM DIA, GAIVOTA-DE-BICO-RISCADO

estou a pensar em vós e neste temporal no mar

PARA QUEM QUISER OUVIR O CANTO DOS PÁSSAROS

http://www.bird-songs.com/indexpt.htm

UM DIA DE CADA VEZ

Agora entendo o que as pessoas me querem dizer quando me falam assim.
É uma espécie de escreverem num diário juvenil "coisas para fazer" e no primeiro item coloquem "um dia de cada vez". É assim como me dizerem: já não tenho idade nem saúde para grandes esforços de mudança umas e outras, já aprendi que tudo pode acontecer num instante, num dia.
É difícil exorcizar da vida tudo quanto se interpõe entre nós e os nossos planos.
O envelhecimento dá-nos alguma mais valia, sem dúvida. Há quem, eufemisticamente, prefira chamar-lhe maturidade, mas a  maturidade carrega consigo, o envelhecimento.
Por exemplo: saímos para a rua com a agenda preenchida, mas o que nos acontece, não raro, é o inesperado quer para o bem quer para o mal.
Alguns chamam-lhe o acaso, outros a esperança, outros a sorte outros ainda, a magia da vida.
Mesmo para aquelas pessoas que se resignam estoicamente a que nunca nada aconteça, ajudadas por uma desencantada ironia que impregna a sua visão do mundo, mesmo para essas, acontecem coisas.
Há sempre inesperados e os "sábios", aqueles que sabem disto, sabem que cortejar o inesperado, nem sempre dá resultado, mas que há dias em que parece ilimitado mesmo que ainda se encontre naquela fase de cidadão indignado que no nosso caso português e pertencendo a esta Europa corrupta, se prolonga quase até à morte.
A descoberta pessoal pode ser um drama, mas também é um acto de liberdade.
Descobrir, por exemplo, que aquilo que não tens, não te faz falta. Não é fácil esta descoberta, mas quando se descobre é, igualmente, uma libertação.
As descobertas não se fazem por ter lido uma série de teorias, mas também. Trata-se dum momento mágico, um clique.
Vivemos épocas das nossa vidas em que estamos na ribalta, em que não recuamos perante nada e temos a razão do nosso lado, tudo é um alvo; estamos ao ataque; e  nós, e só nós, temos razão.
Mas de um momento para o outro,  subitamente, há um lampejo de sabedoria e eis que de novo se reafirma uma força impulsionadora.
Por exemplo: quando visitamos uma cidade, que pode muito bem ser a nossa, assimilamos as  ruas através dos  cinco sentidos e em miríades de pensamento, sentimos as cidades e as pessoas que nelas habitam como se tudo= esta força gravitacional já estivesse dentro de nós, mesmo antes de as vermos.
Sabedoria, um constructo, um substantivo abstracto difícil de definir.
Este substantivo, tal como a inteligência, não são fáceis de definir, já não falando como o Piaget dizia se adquiriram  o raciocínio abstracto ou  apenas possuem o concreto.
Há quem saiba o que é e quem não saiba e, nada tem a ver com os significados dos dicionários. Mais uma vez me refiro ao clique, ao momento mágico, àquele em que cada um de nós descobre por si próprio, do que se trata.
Mais um exemplo e por hoje termino bloguinho, que me esqueço que estás editado e que a vida não és só tu. Hoje confesso-te ficava aqui toda a manhã ou mesmo todo o dia, mas continuando com o exemplo de que te falava: eu diria que sabedoria é perceber que nos enganamos nove vezes em cada dez.
Sabedoria é viver um dia de cada vez, fazendo a síntese do passado, presente e futuro.


Ai bloguinho, este tema é um dos que merecia o contraditório. Eu sei: não fizemos nada para que isso aconteça, um pouquinho de "mailing" talvez,  às vezes faz falta, não é? Mas pensando bem, ninguém lê ninguém.

BOM DIAAAAAAAAAAAA, CARRIÇA, OLÁ!


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mulher das castanhas

das Irmãs Flores - bonequeiras de Estremoz

Recuerdos de la Alhambra - guitarist Kim Chung


HUMANIDADE(S)

São humanos os que nunca deixam de elogiar os outros e muitos fazem-no  naquele tom de liberdade propositada que encobre uma velhacaria.
São humanos os que nunca elogiam com medo de não serem nunca elogiados.
São humanos as multidões de pacientes e sombrios.
Somos humanos desde que nascemos até que morremos.
São humanos os ricos que fazem os pobres e os pobres que fazem os ricos.
São humanos os que violam, os que violentam, os que roubam, os que matam.
São humanas as mulheres de mamas despencadas  a proferirem impropérios.
São humanas aquelas outras que passam a vida no ginásio e lêem (?) revistas cor-de-rosa.
São humanos os banqueiros que com a sua cobiça matam gente, desconhecendo que o fazem.
São humanos os homens com pescoços de "galinha morta".
São humanos os invejosos, os sem escrúpulos, os impostores de todas as espécies.
São humanos os salafrários e as suas esposas que nem sequer querem saber de onde o dinheiro é proveniente.
São humanos os que dividem e os que fingem.
São humanos os ignorantes e os que o não são.
São humanos os que se contradizem e os outros.
São humanos os que apontam para os indefesos e os indefesos.
São humanos os insaciáveis.
São humanos os que não sentem a vida ao passar.
São humanos os que deixam no ar desperdícios de palavras e sílabas sem préstimo.
SOMOS (OS) HUMANOS!

BOM DIA, PEGA-AZUL

então V. Exª  muda assim, de repente, de direcção e eu não consigo fotografa-la, aiaiai!