terça-feira, 24 de março de 2015

Até quando pode a memória, e quanto pode, sou o actor e o espectador cúmplice de uma vida perturbada, dramática e irónica.

O pouco que percebo dessa massa teatral caótica pode inscrever-se na pauta de uma interpretação menor.

Não compreendo nada.


- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Photomaton), 2006.

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MORREU HERBERTO HELDER

Cada texto possui o seu natural movimento interior.

Há uma escrita que corresponde ao ritmo brusco, obsessivo, repetitivo, suspenso, recorrente, problemático, descontínuo da investigação que ela mesma, escrita, é – e da realidade que cria.

Certas obsessões (até vocabulares) iluminam-se durante a realização de um texto.

A escrever é que se aprende o que somos.

Referências a objectos, situações, movimentos, aparecem como imagens ou metáforas de experiências muito antigas, como elementos da composição interior, portanto: do mundo, da vida.



- HERBERTO HELDER, Photomaton & vox (Em volta de), 2006.

segunda-feira, 23 de março de 2015

ELES COMEM TUDO E NÃO DEIXAM NADA

Nem é preciso ir ao passado,  embora este sempre ajude à compreensão do presente.
Até os pensamentos foram buscar a um lugarejo chamado fascismo. Sentem nostalgia dum passado que não viveram.
Adentram esses tempos.
Desde que ascenderam ao poder, colocado por quem deles nunca abdica, cuidam de si deixando os outros nas bordas da estrada à mercê de todos os perigos.
No entanto, sabem aquilo que qualquer gato sabe, que a lei da vida é a lei da guerra, os mais fracos fogem, os mais fortes atacam.
Precisávamos de um estratega para vencer, mas ainda não o temos ou os que temos neles não acreditamos. Assim, eles vão prosseguindo em frente sem pejo.
Mas ELES não são indomáveis, apenas pensam que controlam plenamente tudo com o apoio que lhes é dado pelo PR internamente e a C.E. no exterior, mas não passa duma ilusão, os anos passam e tudo vai mudar um dia. Nada é estático, estes dirigentes europeus um dia serão afastados, mas entretanto  comem tudo e não deixam nada e de toda a parte chegam os vampiros.
Por ora, são insaciáveis, não largam as presas e deglutem-nas quase inteiras.
Os piores portugueses, tipos que não passariam da cepa torta se não se fizesse o 25 de Abril, julgam-se grandes capitães, são úteis às empresas do capital que não podem passar sem eles. Estes últimos foram trazidos por Ângelo Correia, um  'manager' angariador destes talentos que aproveitou a equipa anterior estar em queda, pessoas de representação, neste caso o inefável Passos Coelho.
Vivemos na época de todas as violações, da violência, dos pactos negros, a corrupção vence sobre tudo e sobre todos.
Esta gente destruiu tudo, desafiou o tempo, não presta sentido às pessoas.
Toda esta gente organizou o caos, resta desorganiza-lo, fazer tudo de novo.
Tentemos o Novo.
Tomemos o Novo.
Deixemo-nos seduzir pela Sabedoria.

É preciso, é urgente que o difícil desça às escolas para elevar o ser humano.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A poeira levantou-se do chão e fico encolhida.
Que pena não haver humor à venda.
Apetecia-me tanta coisa, tenho uma lista a crescer e a levedar há tanto tempo.
Na minha cabeça há pedidos ensurdecedores.
Sempre me encarei de frente, mas agora com a doença da minha mãe,  não posso fugir nem salvar do estragamento da vida.
Passei a falar de árvores num lugar cor-de-rosa.
Quando me ponho a mão no ombro, tenho medo, medo de me deglutir.
São muitas as contradições e às vezes apetece-me gritar para não sufocar, mas acabo por fazer o mesmo que todos os pecadores e pareço-me com aqueles que vão à missa atrasados porque não querem ir.
Muitas vezes era estouvada a falar, agora sinto-me estouvada a pensar.
Sermos todos os dias seres exemplares é muito difícil e cansativo e as estratégias de raciocínio da minha mãe abalam-me afectivamente.
Há também a considerar aquelas pessoas que se esbarraram comigo durante a vida que têm uma incapacidade natural de entendimento.
O coração é pequeno dentro do peito.
Fecho os olhos para suportar algum sofrimento, embora esta técnica cada vez se revele mais difícil.
E apetece-me dizer a mim própria: sossegue a sua cabeça, não procure entender, parece uma criança a descobrir o mundo".
Pronto e lá vou eu continuar o dia a sonhar com o futuro, a entrar por aqui e por acolá como em criança o imaginava.
Olha, vem ali no vento.
Aproxima-se e apoia-se no parapeito da janela.
Tropeçou e agora espreita apoiando o cotovelo.

em dia de eclipse


quinta-feira, 19 de março de 2015

Neste Dia

Dizer que estou triste, não será verdadeiro.
Tenho os ruídos principais e os ruídos figurantes, muitos.
O ruído de ansiar, do querer, do procurar e  lamentar.
Há ruídos que se multiplicam exponencialmente.

segunda-feira, 16 de março de 2015

E MAIS UM DA NATÁLIA

O ESPÍRITO





Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;



E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.



Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:



Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.




NATÁLIA CORREIA

NATÁLIA CORREIA DESAPARECEU FISICAMENTE HÁ 22 ANOS

O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS



De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia

sexta-feira, 13 de março de 2015

PORTO


NEVOEIRO



Hoje tenho carta de alforria para sair, mas tal como os presos qualquer dia não a utilizo. O impulso é de ir ao Porto, é sempre esse, ir ver e cheirar a minha terra.

quinta-feira, 12 de março de 2015

O TEMPO

O tempo é um bem precioso que se malbarata.
Todo o tempo de ócio, assim chamado, é tempo ganho, escutando, observando, ouvindo música, fazendo e recebendo amor, é um tempo precioso.
Ouvir a natureza, os sons-rugidos de exultação do vento, observar as pequenas e gordas nuvens brancas, sentir o perfume de flores ingénuas.
Aquele tempo em que seguimos o contador de histórias é um tempo precioso.
O ano ainda há pouco se estreou e já estamos quase a meio, na Páscoa.
O tempo pode ser um grande capricho mundanal.
Nós somos do mundo, deste mundo que apodrece e apodrecemos com ele.
Para viver temos que liquidar deuses e semideuses.
Complicamos tudo.
Diminuímos tempo ao tempo. Distraímo-nos do importante e lutamos pelo supérfluo.
Afinal o que é importante é tão pouco, conta-se pelos dedos das mãos e sobram dedos.
O tempo do tempo em que esborrachávamos os narizes contra os vidros.
O tempo em que guardávamos lembranças em cheiros e bebíamos os tempos de olhos fechados.
Levamos vidas pequeninas e estreitas e às vezes imaginamos que delas fugimos, mas não passa disso, de imaginação.
Sorver o tempo é algo de sábio, é como ouvir música ou fazer amor de olhos fechados.

quarta-feira, 11 de março de 2015

ACORDEI ANTES DOS PASSARINHOS

Sabe-me tão bem ouvi-los a esta hora. Parece que cantam só para mim e me oferecem o dia novo.

INSULTOS/PIROPOS

Um dos insultos que me fizeram ou julgaram fazer foi:

'Tu tens muita dificuldade no abstracto, não chegas lá, agarras-te ao concreto' ou qualquer coisa parecida com isto.

Na altura, achei um insulto. O tempo passou, tenho analisado o dito e quem o proferiu e acho alguma piada ao que aconteceu ao insulto.
Sabem o que aconteceu?
Virou piropo. Não porque quem o proferiu tivesse essa intenção, convencida estou que não teve embora o dissesse a sorrir como convém quando se convém diminuir alguém, mas porque me situo no concreto muitas vezes, segundo J. Piaget, o período das operações abstractas só é possível após os 12 anos de idade, já que até aí mantemo-nos no período das operações concretas, melhor dizendo o abstracto só a partir desta idade ou por volta dela, é quando os meninos podem estudar geometria espacial, até aí torna-se difícil obter estes conceitos.
Posto isto, fiquei a saber que tenho ainda uma infância bem arreigada e depois quando 'estou no abstracto' é uma alegria (rio-me) consigo ser adulta e "inteligente".
Viva o concreto e já agora o abstracto, já que não há hipóteses de ficarmos toda a vida com menos de doze anos, como a pessoa que julgou insultar-me vaticinava porque se calhar quer o melhor para mim, quem sabe, melhor do que conseguiu para si ao sair do concreto tão cedo e manter-se no abstracto.

os meus passeios


segunda-feira, 9 de março de 2015

NO MEIO DA NOITE

Não tenho unhas para enterrar na terra.
As sombras mudam-se consoante o candeeiro.
Precisava retirar-me de dentro de mim.
Transpôr fielmente aquilo que sinto como Raul Brandão fazia, é um objectivo.
As ideias não arrancam, colam-se cada vez mais.
Encolho-me sem me desembrulhar.
O tempo não nos civiliza.
Dizem que não se chama insónia quando não se readormece. Se calhar não, se calhar é apenas beijar o patamar dos sentimentos neste átrio da vida.
Estas sombras da noite ajudam-me a perceber o meu pensamento. Por muito que olhe nunca vejo o que quero ver, começa a depender do foco a minha visão.
Nem já os pensamentos transpiram de transparência.
Vejo gente caiada e outra azul e o Inverno lá em baixo.
Preciso compreensão de compreender.
Este Portugal esmaga-me.
A doença de memória da minha mãe coloca-me junto à Boca do Inferno. Os pescadores na Boca do Inferno andam à sardinha durante a noite e dormem durante o dia, eu nem isso.
Tudo me impressiona, estou demasiada aberta às sensibilidades.
Cada vez sei menos falar em português para portugueses. Nunca se chega ao âmago das coisas.
Mais uma vez só entre escolhas e escolhos.
Investi em mim própria como se de uma obra de fomento se tratasse, se calhar investi mal.
A certa altura não temos com quem falar, as pessoas apenas querem respirar para sobreviver, ficam felizes por nada saber, saber incomoda, faz insónias.

UM DIA A SEGUIR AO OUTRO

NUNCA ME SENTI TÃO DEPENDENTE NA MINHA VIDA

quinta-feira, 5 de março de 2015

Porque gosto de Rodin e gosto da poesia do Amadeu Baptista

Rodin, o pensador

Entre as mil e seiscentas disponíveis
escolhí esta manhã a pedra para o meu trabalho,
a única com o mistério de um coração a pulsar-lhe
nas entranhas e a que só poderei responder com a dimensão
do silêncio. Quando posicionar o escropo
sei que irei ver a luz jorrar desse primeiro orifício,
depois a treva incontornável, mais tarde
uma espécie desconhecida de linguagem que me avassalará
e atingirá também o silêncio
o meu coração. Por muito que me perscrute a memória,
por mais evocações que procure na alma, sei bem como tinge
as mãos
este inefável sentimento de abandono, esta voz
silenciada que sinto na cabeça
como um puro sinal de asfixia, uma marca
áugure de nascença. O que resultar da pedra,
tal como o pó regressa ao pó, hei-de ser eu a morrer
pelo tempo dos tempos, como algo pensado para além de mim
a agir sobre o que fui quando já não existir eu próprio, a pedra,
a linguagem com que comuniquei com que os talvez
não entendessem
que foi o amor que fez esculpir a vida
nesta pedra, que só aparentemente está no coração
que pulsa.

Do poema "Da Mais Alta Janela"

de Alberto Caeiro

"Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste."

quarta-feira, 4 de março de 2015

tarde de sol

e eu e a mamã vamos merendar um magnífico bolo de laranja que acabo de fazer.
Afinem o paladar e venham até aqui conversar um pouco. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

tenho um fogão que fala comigo
não é mentira, é verdade
o isqueiro zanga-se e ele barafusta

a minha linda mamã


Leninha não tiras fotografia nenhuma, não quero.
E eu tirei