segunda-feira, 30 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA



DA MINHA JANELA

O POVO

Falam todos ao mesmo tempo. Nenhum se importa com o que diz o outro.
Será que já acordamos por completo? Acho que não. Parecemos sufocados por um pesadelo.
Das últimas eleições, muitos julgaram que dera lugar a uma trégua e que esta ia reinar entre os ribeiros do sonho. Agora continuam a meditar sobre as armadilhas que o destino tece.
Têm uma longa série de projectos por cumprir. (é melhor desde já, explicar que uma vezes penso no plural as pessoas, muitas pessoas, a maioria das pessoas outras, no singular, no povo, como entidade abstracta que só se concretiza em cada um de nós. Vou deixar fluir o texto assim pensado, sem qualquer tipo de arranjo, para futuramente  melhor analisar a estrutura de pensamento que lhe esteve subjacente em cada momento, já que era assim que fazia quando ainda não publicava aqui).
Olhou para o espelho e viu que em breve envelheceu muito e até o cabelo tinha ficado com a cor da tempestade. Começa a ver que tem governantes mentirosos e ignorantes que o entretém com conversa sempre igual.
Ultimamente tem andado a flutuar docemente pelo espaço, aturdido por tudo, rodeado por um horizonte cheio de miragens e é preciso não esquecer que vinha do país do diabo, habituado a submeter-se às regras, mas na 3ª parte do tempo, entraremos dentro em breve, começará a fazer os seus "estragos".
Não se pode viver eternamente nesta crise, neste cinzento.
O povo sentia-se à beira da queda e em breve faltar-lhe-ia as forças. Era a fase das reclamações.
Já era altura para estarem a florir, por isso votaram nestes, mas pressentem que a sorte lhes tinha virado as costas.
Este interim, em que pensaram que isso se ia verificar mas que não se verificou, tinha que terminar.
O povo gosta de dormir, mas anda com dificuldade em adormecer, na realidade só fecha os olhos e afunda-se até ao pescoço, mas essas eram as brincadeiras de outros tempos, as da areia molhada, não agora, o tempo todo. Estava decepcionado. Este Portugal seu, colorido, cheio de sol, de repente começara a ficar tenebroso e obscuro e incapaz de reter uma pessoa decente.
Sempre lhe tinham feito crer que eram os anteriores governos que tinham governado mal, mas então e este, este que faz mais ainda do que a troika manda fazer e não se percebe porquê. Este que quer empobrecer o país ao fim da força, que tira tudo ao povo, menos aos filhos deles, este que mente descaradamente e que nos vende quase de graça ao estrangeiro, que pensar, que fazer duma coisa assim?
Está farto de se queixar. Começa a ser mortal.
Os portugueses costumam estar ausentes de si mesmos por longos períodos da História, assim aconteceu durante quatro décadas e continuam a estar ausentes, indo votar apenas porque é sua obrigação, o seu acto cívico e "revolucionário", começa e termina aí a sua participação.
A maioria de nós integra tudo, sem grandes problemas de consciência.
Tivemos 500 anos de existência imperial e parece sempre que separamos o facto de sermos donos reais em terras longínquas do que somos no nosso rectângulo.
Os holandeses e os ingleses tornaram-se outros nas suas aventuras imperiais, nós tornamo-nos nos MESMOS.
Vejo perfis Salazaristas a ressurgir. É urgente  uma vaga de fundo que nos liberte da crise, não da económica, mas a das atitudes, a das consciências.
Precisamos urgentemente de nos libertar daquele sentimento de fragilidade que é o desejo de querer fazer boa figura, de estarmos sempre a representar, ainda ontem se observou no funeral dum deputado da Nação e irmão dum Ministro, aquela vontade de exibição que toca as raias da paranóia; exibição trágica, não a desinibida, que é a característica das sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge este grau patológico.
Como diria Eduardo Lourenço é "um erro funesto" ter deixado os valores de "pátria", "patriotismo", "sentimento nacional" para a direita.
Não é só a ideologia que faz com que triunfe uma revolução, mas também a afectividade.

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domingo, 29 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA



VILA NOVA DE CERVEIRA

REFLEXÕES DOMINICAIS OU ASSUNTO RECORRENTE


Ligo o PC, abro o facebook. O que vejo? Lamentações de tudo.
Constato que as pessoas não se desimportam da vida pelo menos, sentam-se nas suas cadeiras a ranger ou não e deitam-se às lamentações e penso que é melhor, mesmo assim, do que ficar com a alma quieta.
Conecto-me com os murais e blogues que sei que falam e mostram cultura, sempre foram o meu refúgio, antes e depois de cair nas lamentações, o sítio onde gosto de pousar; estes não me confundem nem estragam a cabeça.
E penso que há muitos de nós que para participarem, copiam o que os outros copiam e tudo é uma espécie de realidade que continua para além dela, a que muitos, cada vez mais, querem pertencer.
Encontra-se alguém e perguntam-te: "estás no facebook? Eu também", tal como um cartão de visita antigamente outros porém, resistem, afirmando: não, não aderi, eu pertenço ao mundo real.
Muitas manchas no silêncio eu vejo, soluços apagados mesmo e, como sempre, tenho aquela sensação de não pertencer, pertencendo ou não, o que vem a dar exactamente ao mesmo. A sensação continua a ser a de não pertencer, sempre foi assim.
Desfastio-me e percorro vários "postes" que é o mesmo que galgar vales de espaço e tempo e se por vezes consigo detectar o fumo pálido dos sinais de cada um, a maioria das vezes, o que concluo é que as pessoas de previsíveis nada têm e a caixinha preta de Skinner está sempre à espreita.
Gentes há que para não bocejarem de tédio e porque já não conseguem ouvir a televisão ou ouvindo continuam a exsudar desvarios, porque "não acontece nada" e evitam assim, o adormecimento.
Encenam-nos comportamentos novos, copiam-se outros.
Partilha- Partilho eu, tu, nós, vós eles, não o pão nosso de cada dia que soaria melhor porque o verbo é lindíssimo.
Não sei bem porquê, ou se calar sei, inconscientemente usei  nas primeiras vezes, o verbo roubar: vou roubar isto, dizia. Tem que se lhe diga esta questão, mas não me apetece ir por aí.
E continuando a reflectir, considero que não podemos adormecer a meio da vida e enquanto pudermos pensar em nós próprios por meio de palavras, de imagens, é bom. Que outra maneira há para o fazer?
Claro que há conchas onde nos escondemos mas isso que importa?
Há palavras a que temos de renunciar, temos que lhe deitar o fogo e ter a coragem de o fazer logo que nos aparecem e, não nos devemos esquecer parva securi prosternitur quercus, que o carvalho é derrubado pelo pequeno machado.
Mas uma coisa também é certa, nos tempos que correm não faltam inimigos externos, não há necessidade de fazermos de nós próprios, inimigos.
Valha-nos Stº Ambrósio!...   

sábado, 28 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA



E COMO O OUTRO DIZ: FUI FELIZ AQUI

O GRANDE ENXAME

Autarcas, governantes, empresários de grande porte, têm sido uma espécie de infantaria que pilham tudo por onde passam com raras e honrosas excepções.
Apoderam-se de tudo, até dos argumentos que encontram pela frente.
Parece que tudo nos escapa. Falam, falam para nada dizerem. Não se compreende nada. Não se consegue estar seguro de nada.
Querem, dá-lhes jeito que esta guerra perdure, que não haja vencedores nem vencidos, ficamos em frente uns dos outros, mas isto não pode durar para sempre.
São seres luciferinos.
Ontem ouvi o debate quinzenal na A.R. e não se pode negar que a verdade é distinta para cada um  e cada um leu livros diferentes.
Pedro Passos Coelho já não distingue privado de público. O Presidente da Caixa Geral de Depósitos, banco do Estado, com interesses públicos, foi convidado para presidir à Associação dos Bancos Portugueses, com interesses privados em instituições nacionais e estrangeira
s. O Primeiro Ministro não vê qualquer incompatibilidade. Este senhor, Eng. Faria de Oliveira, até escolheu auferir o vencimento que ganhava na concorrência, porque a função onde está não o dignifica, tal como o Presidente da República, mas não há qualquer problema, segundo o PPC.
É igualmente irritante estes desgovernantes apresentarem-se com aquelas caras de santas putas arrependidas. Estes safados estão a mudar-nos o futuro e mexem-nos no passado.
Apossam-se de tudo, de novo, deixam-nos completamente na miséria.
Interesses estratégicos nacionais há, que estão a ser vendidos/dados, a patacos, que nunca mais se vão recuperar e isto está para além de tudo, é um saque de guerra. Nem os fascistas ousaram tal.
Esvaziam-nos, mas vão acabar por se esvaziar também.
Nada fica igual. Mais tarde ou mais cedo vão dar lugar, estes todos, vão reunir-se em torno de 4/5 grandes empórios económico/financeiros e tudo o resto será um deserto.
Até lá vão-se saquear mutuamente, desmantelam-se, espatifam-se, levando-nos a todos na enxurrada.
Já todos vão abandonando as suas boas maneiras.
São egoístas, espalhafatosos. Andam muito agitados, sinal de pouca força, imodestos, de corações petrificados, embora passassem a distribuir a sopa aos pobres, o mesmo que atirar a tábua de salvação quando a criança cai ao lago, continuando a fumar o seu charuto e não correndo e atirando-se ao lago para a salvar.
Parece que foi ontem, mas foi no séc. XIX que o Times escreveu que Portugal era intelectualmente tão caduco, tão casmurro, tão frágil, que se tornara um país bom para se lhe passar muito ao largo e atirar-lhe pedras. A Europa olhava para nós como uma nação de medíocres, como uma raça de estúpidos, diziam.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA



DA MINHA JANELA

C'EST VRAI ET C'EST PAS VRAI

Como se o espectáculo da vida se passasse  em dois planos distintos. Tudo existe desgarrado deles.
A vida parece uma co-produção entre Deus e o Diabo, a nossa, financiada pelo FMI e outras altas montanhas.
Vivemos momentos terríveis. Já vivemos momentos semelhantes na nossa História e dizíamos que era o fascismo.
É terrível não ter trabalho, achar inútil o tempo. Muitos portugueses vão ficar seres estranhos, com os anti-depressivos que os médicos prescrevem para ajudar a obviar a crise, a desaprender aquilo que aprenderam, a confundirem inactividade com férias.
Ouve-se cada vez mais as pessoas a falarem em doenças. A doença tornou-se uma saída para cada crise individual.
É muito mais difícil passar por estes tempos velhos feitos novos, quando já se teve casa e se viveu a felicidade. Viver a infelicidade, a dúvida, a  amargura é o que acontece a muita gente neste país.
Os pais e mesmo avós, em época de gozo das suas reformas,como seria o normal, aproveitando o tempo que lhes resta, descansados de uma vida de trabalho, servem de segurança social dos filhos e netos, amparando-os nas suas angustias e mais infelizes se somam aos infelizes.
A vida está fora das molduras, os desejos desencontrados.
Ao fim de alguns anos estes jovens abandonam o idealismo, pela força das circunstâncias e dão lugar a homens e a mulheres abrasados na tortura duma existência sem paz, sem planura, sem horizontes nem recolhimento interior.
Ao capital e seus acólitos com todos que nos roubam/desgovernam à cabeça, não lhes interessa estes grandes dramas dos pequenos.
Rapam o tacho já rapado, porque apenas conhecem essa receita, dizendo que o fazem em nome da crise, que a colocam com epicentros longínquos, mas nós sabemos que a crise está bem perto, está neles. Este nós não é real, é ficção, parece que sabemos se conversarmos com cada português individualmente, mas depois é o que se vê, vão às urnas e elegem sempre os mesmos, de cor-de-rosa ou laranja vestidos, porque não sabem mais o que fazer? A falta de educação e de instrução são as maiores responsáveis.
Estes eleitos chamam-nos piegas, sem preparação para a vida, que depois de ter revolvido os lodos, desencadeamos uma loucura de grandezas, nós o povo português.
Afastam o crime dos verdadeiros criminosos, de quem não mexeu na lei das rendas, de quem abriu bancos como se arregimentam quadrilhas, de quem pediu dinheiro à C.E.E., de quem se governou para todo o sempre, não pagando impostos e colocando dinheiro em offshores, de quem foi premiado e se alcandorou a Presidente da Republica, por um dia ter colocado o povo a viver acima das suas possibilidades, criando-lhe ilusões caríssimas.
Gente desperdiçada em conflitos de meia tigela, partidecos de oportunistas, lacaios de capitais sem fronteiras. Gente que se impacienta, pacientando-se, que prefere a ira doméstica à manifestação pública.
Gente mobilada com "modéstia", assobiando para o lado.
Gente que faz um país castrado, com vidas de molho.
IL Y A LONGTEMPS QU'ILS BOUFFENT.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA



A MINHA ESCOLA PRIMÁRIA- A ESCLOLA DA TRINDADE

(há uns anos fechou por não ter alunos já que as mensalidades eram caras. aqui havia meninos e meninas na mesma turma e foi por isso que  o meu pai lá me matriculou)

A MORTE

Devíamos tratar a morte por tu, mas não é isso que acontece, nem os católicos de verdade, o fazem. Alguns tentam esquecer.
Todos somos sobreviventes, tens diante de ti, diante de vós, uma sobrevivente. Faço parte, como vós igualmente.
Estamos todos na linha de montagem, embora cada um de nós evite a sua vez muitas vezes, no meu caso coleccino os pormenores.
Não conseguimos fugir-lhe, mesmo que lhe ofereçamos todos os nossos bens, não é corruptível, considera toda a gente igual.
Os fanfarrões, os dogmáticos, os burgueses, os idiotas, os maus, os bons, todos se vão.
Claro que não pensamos na morte, isso só acontece quando nos morre alguém que conhecemos e temos que contactar com ela mais de perto, mesmo assim, quando nos poupa o sacrifício do corpo, quando só pratica antropofagia psíquica ou o assassínio da alma, é só durante um certo tempo. Às vezes dá-nos lugar à solidão, quando nos leva os nossos entes mais queridos, mas ainda aí, o corpo medita o espírito e a tristeza promete a lucidez e só fazemos um intervalo da morte quando as lágrimas secam e se instala o luto.
Nestas altura reflectimos e acreditamos que não somos tudo.
Vivemos em busca dos prazeres e muitos de nós também buscam objectivos, enquanto assim é, a vida torna-se clara e paradoxalmente repousante.
Conhecemos pessoas que se querem sempre apaixonadas, em constante princípio do prazer, exactamente para fugirem e se protegerem do desaparecimento, torna-se uma espécie de refúgio, embora a morte duma paixão os torne uma espécie de extra-terrestres, mas que preferem ignorar.
Carregamos connosco toda a carga de amargura, de ternura, de deixa-andar fechada a cadeado, insuspeitos fardos que acumulamos, brincamos a pessoas normais, às vezes a adultos, outras a intelectuais, mas não deixamos de ser aquele ou aquela rapariga que nos  conhecemos na juventude que mora por baixo das palavras. Podemos até construir personagens, coleccionar segredos e somos uns desconhecidos para nós-mesmos. Quando o deixamos de ser a morte está perto.
Há mortes que mais não são que um estoirar de amargura.
Vou acabar este tema hoje, se calhar ainda não estou preparada para o abordar, mas de tantas vezes que me visita, necessidade tenho de o "debater".
Prefiro terminar com um tema, que será um dos próximos a abordar e que é a paixão ou as paixões, já  no outro dia abordado, no que confere à idade uma certa habilidade para jogar com o prazer, com o que concordo.
Quanto à morte só lhe podemos marcar encontro, escolher a ocasião sem sermos surpreendidos por si numa única situação, se nos concentrarmos e quisermos ter o sentido do limite, de contrário é sempre ela a mostrar-nos os nossos limites e os dos outros, é irmã gémea da vida.
Logo que possa, eu, tu, ele, nós, vós, eles vamos esquecer tudo isto e continuarmos nos pormenores do quotidiano, insignificantes, mesquinhos, até horríveis, mas estes assuntos  também, se calhar, farão  parte apenas dos nossos diários íntimos, se conseguirmos lá chegar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA






DAQUI ONDE ME ENCONTRO

José Carlos Ary dos Santos

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU




Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Lisboa, Julho-Agosto de 1975











Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram

das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ATÉ AO DIA 25 DE ABRIL DAREI A VOZ A OUTROS

 

POR José Alexandre Rodrigues Henriques O ANTES E O DEPOIS DE 25 DE ABRIL DE 1974



Nasci em 1955, o que equivale a dizer que vivi 19 anos no regime ditatorial do Estado Novo, tempo mais do que suficiente para sentir os efeitos da opressão e do despotismo exorbitante que era exercido pelos órgãos do poder e pelas classes sociais mais favorecidas, sobre os mais pobres e desprotegidos. A injustiça social começava logo pela impossibilidade dos jovens oriundos de famílias pobres poderem estudar para além da 4ª classe, pois não existiam apoios para que isso pudesse acontecer. Assim apenas alguns, nem sempre os mais inteligentes, podiam aspirar a frequentar um curso superior, sendo cerceada essa hipótese a outros, com boas aptidões, apenas porque não tinham tido a sorte de terem sido postos no mundo por progenitores ricos. Isto mesmo foi o que se passou comigo, que apenas pude estudar até à 4ª classe, tendo que iniciar a vida de trabalho aos 10 anos. Não quero dizer com isto que tivesse uma inteligência invulgar o que possuísse fortes aptidões para os estudos, creio até que não tinha e, a prová-lo, está o facto de só ter conseguido a obtenção do 12º ano há cerca de um ano atrás; apenas me refiro ao que de facto aconteceu, que era afinal o que se passava com a maioria dos jovens, na altura. No entanto conheço algumas pessoas, mais ou menos da minha idade, que concluíram licenciaturas em regime de trabalhadores estudantes, começando a exercer tardiamente a sua profissão, tendo havido assim um desaproveitamento de talentos que, de algum modo, terá prejudicado o país.

Embora já existisse alguma legislação sobre matéria laboral, ela era manifestamente insuficiente para proteger os trabalhadores do autoritarismo de alguns patrões que, visando apenas o lucro, admitiam e despediam trabalhadores a seu bel-prazer, fazendo-se aqui notar a ausência de sindicatos livres, apesar de eles já existirem, o que era comprovado pela quota sindical descontada nos salários. Assim era frequente o despedimento individual e colectivo de trabalhadores sem que fosse efectuada qualquer negociação ou pagamento de indemnizações e sem direito ao recebimento de subsídio de desemprego. Felizmente naquela altura (refiro-me ao período entre 1965 e 1974), as ofertas de emprego eram maiores do que actualmente, o que era devido, em parte, ao facto dos meios técnicos de produção não estarem ainda amplamente desenvolvidos e haver necessidade de muita mão-de-obra humana. A atestar isto mesmo está o facto de, neste período, ter sido impedida de se instalar em Miranda do Corvo, uma empresa que ali pretendia construir uma fábrica para produzir produtos para construção, a que os empregadores do concelho se opuseram com receio de falta de trabalhadores para as suas indústrias.

Outra condicionante económica das pessoas mais pobres era o facto do comércio ser muito restrito, existindo pouca concorrência, o que no caso da aquisição de bens essências se tornava problemático devido à impossibilidade de escolha, existindo por isso uma sujeição aos preços praticados pelas mercearias, ao contrário do que hoje acontece com a imensidão de grandes superfícies comerciais o que impede, de algum modo, o inflacionamento dos preços.

Nesta altura não existia liberdade de imprensa, sendo camufladas muitas noticias que diziam respeito às lutas dos trabalhadores e também a desastres ocorridos na guerra do Ultramar, sendo ocultado ou diminuído o número das baixas sofridas pelos nossas tropas, para não ferir ainda mais a imagem do governo, originando assim a existência de altos níveis de ignorância sobre a verdadeira realidade do país.

Embarque de tropas para África
Mas o facto mais marcante deste período foi, sem dúvida, a guerra colonial que teve o seu início em 1961 e se prolongou até 1974. Na vida dos jovens estava sempre presente a obrigação do cumprimento do serviço militar, o que condicionava os seus planos para o futuro, existindo por isso uma incerteza e uma angustia permanente dos pais sobre o futuro dos seus filhos, existindo, por isso, o desejo de que essa guerra terminasse o mais rapidamente possível. Não foi de estranhar, portanto, a enorme alegria sentida pelo povo quando soube das acções desencadeadas pelas Forças Armadas, para pôr fim ao regime opressivo do Estado Novo, que possibilitou o inicio das negociações com os Partidos Africanos de Libertação, para o fim das hostilidades, com vista à sua independência.

Esperava-se muito da revolução. O povo queria, com todo o direito, melhores condições de vida e um futuro melhor para os seus filhos e por isso aderiu de alma e coração aos ideais do Movimento das Forças Armadas, na esperança de que com novas pessoas e outro sistema político as coisas evoluíssem no sentido de serem criadas novas oportunidades, de uma mais justa distribuição da riqueza e, sobretudo, que fosse posto fim ao conflito ultramarino.

Cartaz publicitário dos S.U.V.
Os meses que se seguiram à revolução foram de alguma confusão e anarquia, principalmente no seio das próprias Forças Armadas, onde durante algum tempo grassou alguma indisciplina, tendo sido criado um movimento clandestino que apelava à união dos soldados e de todos os trabalhadores para prepararem condições com vista à destruição do Exército burguês e a criação do braço armado do poder dos trabalhadores: O Exército Popular Revolucionário. Este movimento denominava-se S.U.V. Soldados Unidos Vencerão e, eu próprio, cheguei a deslocar-me a Évora para participar numa manifestação promovida por este movimento. Este período conturbado teve o seu apogeu no «verão quente» de 1975, terminando com o golpe contra-revolucionário de Novembro de 1975.

Foi um período épico, com amplas massas populares a tomarem em mão a construção dum futuro melhor, no qual, então, acreditavam. Período épico e alucinante, com um ritmo desenfreado de acontecimentos naquele «verão quente»: ocupação de casas vagas, nacionalizações, “caso República” (19 de Maio), Lei do Divórcio, «caso Rádio Renascença» (25 de Maio), prisão de elementos do MRPP (28 de Maio), independência das antigas colónias africanas, fuga de vários elementos da PIDE-DGS, da cadeia de Alcoentre (30 de Junho), assaltos e massiva destruição de sedes dos partidos de esquerda no Norte; ameaça separatista nos Açores; famoso discurso de Vasco Gonçalves (em Almada, a 18 de Agosto), pronunciamento de Tancos contra Vasco Gonçalves (2 de Setembro), desvio de 1000 espingardas automáticas G3 do Depósito Militar de Beirolas (10 de Setembro), posse do VI Governo Provisório, chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo (19 de Setembro), assalto e destruição da embaixada de Espanha (27 de Setembro), 50 feridos nos confrontos junto ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, no Porto (8 de Outubro), grande debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal na RTP, com o célebre «olhe que não, olhe que não!» (6 de Novembro), ataque à bomba contra os emissores da Rádio Renascença, ordenado pelo Governo (7 de Novembro), famosa manifestação pró-governo no Terreiro do Paço, com o deflagrar de granadas de fumo, dando origem à celebre frase do primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo: «o povo é sereno. É só fumaça» (9 de Novembro), manifestação de trabalhadores da construção civil junto à Assembleia Constituinte e Palácio de S. Bento, com vaias ao primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo, o qual retorquiu com o contundente «vão à bardamerda» (12 de Novembro), o Governo entra em greve e suspende o exercício da sua actividade, acto inédito no mundo (20 de Novembro).

Assembleia Constituinte
De facto foram tempos difíceis para o país e a mudança para melhor, tão esperada pelo o povo, tardava em chegar. Mas o país tinha imensos problemas para resolver e não se podia esperar que fossem resolvidos de um dia para o outro. Estava em elaboração uma nova constituição para a República Portuguesa, tendo sido realizadas, em 25 de Abril de 1975, eleições por sufrágio directo e universal, para formar uma assembleia parlamentar que foi designada de Assembleia Constituinte, que teria a seu cargo a missão de elaborar, discutir e aprovar as leis fundamentais por que o país se iria reger. A nova Constituição foi concluída em 31 de Março de 1976, tendo sido aprovada em votação final global em 2 de Abril.

Nesta altura já tinham regressado muitos soldados portugueses das províncias ultramarinas, no entanto, em Angola, apesar da proclamação da sua independência ter ocorrido em 11 de Novembro de 1975 e, devido à sua complexidade especifica, derivada da existência de três partidos de libertação, que não se entendiam, ainda por lá se mantiveram algumas tropas, estando lá, precisamente nesta altura, o meu irmão mais velho, que prestou serviço militar em Cabinda e que para lá foi destacado já após a revolução. De resto Angola após a independência passou a viver uma nova guerra que praticamente só terminou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi líder da UNITA, um dos três movimentos de libertação.

"Retornados" livro de António Trabulo
Mas Portugal tinha outro problema em mãos, que era o regresso dos portugueses de África, os denominados “retornados”, que chegavam em massa a Portugal; muitos deles tinham deixado todos os seus haveres em África e era por isso necessária uma intervenção activa com vista à sua integração. O regresso destes portugueses, feito em condições tão adversas, terá sido motivado pela descolonização um pouco apressada que foi feita, sem que tivessem sido acautelados alguns dos seus direitos. No entanto, apesar das dificuldades, acho que foi feita uma óptima integração destas pessoas e, passado algum tempo, já a maioria tinha a sua vida novamente organizada, pois eram pessoas habituadas a lutar, que não se deixaram vencer por estas contrariedades.

Passado este período muito difícil da vida do país, as coisas começaram lentamente a melhorar tendo até, na década de 80, havido algum desenvolvimento e, consequentemente, um aumento de postos de trabalho e uma melhoria das condições de vida dos portugueses. Em 12 de Junho de 1985 é assinado o tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, tendo vindo para o país elevados fundos destinados a ajudar o desenvolvimento e a estimular a economia, com a formação de novas empresas. Infelizmente muitos desses fundos não foram bem geridos e terá havido uma utilização menos própria desse dinheiro, por alguns sectores empresariais, o que terá impedido um maior desenvolvimento do país nos anos seguintes à adesão. No entanto, até finais da década de 90 e do século XX assistiu-se a uma significativa melhoria das condições de vida dos trabalhadores, com o aumento dos salários e uma maior estabilidade no emprego.

Infelizmente a partir do inicio do novo século, coincidente com a adesão de Portugal à moeda única europeia, houve um regredir da situação, talvez derivado de má gestão e políticas erradas de alguns governos, o que faz com que actualmente, os trabalhadores e o povo em geral, se vejam confrontados com a deterioração dos rendimentos provenientes do seu trabalho, agravada com o aumento constante do desemprego e da precariedade no trabalho, com medidas impostas aos trabalhadores, principalmente na Administração Pública, completamente injustas que agravam, sobretudo, as condições dos trabalhadores mais novos, que se vêm impedidos de subir nas carreiras, auferindo salários bastante mais baixos, o que configura uma situação de violação dos direitos humanos, cuja Declaração Universal diz no seu artigo 23º que “todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual”.

Neste novo século, as tecnologias de informação e comunicação têm tido uma enorme evolução e, o governo actual, tem estado a investir fortemente em equipamentos informáticos, tentando também aumentar as qualificações dos portugueses através do programa «novas oportunidades», dando assim seguimento ao seu plano tecnológico.

Em resumo, a vida no país após a revolução, comparativamente ao período de 1960 a 1974, caracterizou-se essencialmente pela vivência e participação democrática do povo, com a realização de eleições livres para os diferentes órgãos de poder e pela liberdade de imprensa e opinião, no respeito pelas diferenças e pelas conquistas alcançadas pelos trabalhadores como: o direito à greve, a implementação do salário mínimo nacional, o direito ao subsídio de desemprego, o direito a férias e respectivo subsídio, protecção do emprego, a universalização do direito à segurança social e à saúde.

Actualmente fala-se muito em crise. Este termo está a ser utilizado para uma maior precariedade e despedimento de muitos trabalhadores, fazendo aumentar o sentimento de mal-estar e revolta das classes mais desfavorecidas. É certo que a crise existe e está perfeitamente instalada no nosso país, no entanto era tão fácil diminuir os seus efeitos e diminuir as injustiças sociais! Tenho ideias muito próprias a esse respeito, que não vou dizer quais são, mas que tenho a certeza que teriam sucesso se fossem implantadas. Ninguém ficaria prejudicado, pois não seria necessário abdicar de nada que fizesse falta e toda a gente se sentiria melhor. Vou levantar uma pontinha do véu e falar de uma medida que se fosse tomada beneficiaria muitos trabalhadores, sem moralmente prejudicar ninguém:

A maioria dos trabalhadores aufere durante um ano 14 meses de remuneração, equivalentes a onze meses de trabalho, um de férias, um de subsídio de férias e um mês de subsídio de Natal. A retribuição correspondente ao subsídio de férias e subsídio de Natal é igual ao ordenado dos restantes meses, descontado o respectivo subsídio de almoço. Por este motivo muitos trabalhadores com ordenados elevados, podem perfeitamente esbanjar em compras supérfluas pelo Natal o que a outros faz falta para necessidades primárias. E o subsídio de férias? Porque é que uns podem ir para as praias douradas do Havai e outros têm que procurar, no mês das suas férias, tentar encontrar mais uma ocupação para obter mais uns “tostões”, para adquirir qualquer coisa de que necessitem ou para pagar dívidas. A ideia era muito simples e facilmente se poria em prática. Bastaria para isso recorrer a alguns cálculos matemáticos, bem simples por sinal: Bastava somar um mês de ordenado de todos os trabalhadores de uma empresa ou de uma instituição. O resultado dessa soma seria dividido pelo número de trabalhadores e o resultado dessa divisão era o que corresponderia ao mês de subsídio de férias ou Natal de cada um dos trabalhadores. Era uma forma absolutamente democrática de fazer a retribuição de fundos que não correspondem a trabalho efectivo e que atenuaria algumas desigualdades. De resto isto é o que vigora em relação ao subsídio de almoço em que é atribuída uma verba igual para todos.

O presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, recentemente eleito, anunciou o congelamento dos ordenados de alguns dos seus colaboradores próximos, partindo do princípio de que devia dar um exemplo às famílias americanas afectadas pela crise. Ora aí está uma medida, que seria aplaudida pela maioria dos portugueses, se fosse adoptada pelos nossos governantes. Andam para aí muitos gestores de bancos e empresas públicas a auferirem ordenados imorais, de que é exemplo o governador do Banco de Portugal, que está sempre a falar em contenção de salários, mas que não fala em conter o seu! Na minha opinião o que faz falta ao país é uma equipa governativa com coragem para tomar as medidas certas, sem se intimidar com os arrufos dos privilegiados da nação.


Atualização em 24 de Março de 2012
Este artigo foi publicado em Maio de 2010, mas a história do pós-25 de Abril continua e, infelizmente, o que há a dizer sobre ela até este momento é muito negativa. O governo de José Sócrates tentava combater a crise implementando sucessivos pacotes de austeridade que ficaram conhecidos como PECs (Planos de Estabilidade e Crescimento). Não estava a ter sucesso nos seus intentos e a situação agravava-se de dia para dia, com o país a ter imensa dificuldade em se financiar, devido ao descrédito a que estava votado pelos mercados financeiros que cobravam juros muito altos, influenciados pelas avaliações negativas das agências de rating.


Começou a pairar no ar a ideia de que o país não ia conseguir escapar à bancarrota sem a intervenção do Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e União Europeia (a Troika), intervenção a que o primeiro-ministro se opunha terminantemente. O maior partido da oposição espreitava a oportunidade para ocupar o poder e tentava lançar a ideia de que a situação de crise era da exclusiva responsabilidade do governo que, no seu entender, geria o país com incompetência.
Cada vez eram mais as vozes que se faziam ouvir exigindo que o país recorresse à ajuda externa, tendo finalmente, em Abril de 2011, Sócrates se decidido pelo pedido de ajuda à Comissão Europeia, após o chumbo do seu IV Plano de Estabilidade e Crescimento.
A não aprovação do PEC IV levou à demissão de Sócrates, mas este ainda confiava que seria capaz de obter uma nova vitória eleitoral, o que não se confirmou pois o Partido Socialista foi derrotado pelo PSD nas eleições antecipadas realizadas em 5 de Junho de 2011.
Pedro Passos Coelho substituiu José Sócrates no cargo de primeiro-ministro, mas a exemplo dos governantes anteriores, quando tomou posse fez exatamente o contrário do que prometera agravando ainda mais a já periclitante situação de muitos portugueses, com o aumento de impostos, corte de ordenados e eliminação de subsídios, estes últimos penalizando sobretudo os trabalhadores da Administração Pública.
A situação tem piorado de dia para dia com o aumento do custo de vida e o encerramento de muitas empresas o que provoca um aumento exacerbado do desemprego, sem que os governantes consignam dar uma resposta efetiva a esse flagelo. A única resposta, para já, foi a sugestão do primeiro-ministro convidando à emigração, o que é de algum modo um convite ao regresso ao antes do 25 de Abril, mais precisamente aos anos 50 e 60, quando muitos portugueses procuravam no estrangeiro condições que o seu país não queria ou não lhes podia dar.
O 25 de Abril de 1974 está cada vez mais longe no tempo e na esperança. Talvez por isso muitos se interroguem sobre se esse dia valeu a pena. Outros há que acreditam que só com uma nova revolução a esperança pode ser renovada. Uma coisa é certa a História de Portugal escreve-se com intensidade.
Este trabalho foi elaborado para o Processo RVCC – nível sec.- Núcleo SABERES FUNDAMENTAIS DR 4 - Estabilidade e Mudança.


BOA NOITE

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EMIGRANTES PORTUGUESES EM FRANÇA

Estou triste com a maioria dos emigrantes portugueses em França. penso que uma grande parte votou extrema-direita, como anteriormente tinha votado Sarkosy.
Em matéria de política, só conseguem ver com um olho, bastou a Srª Le Pen dizer bem deles e mal de todos os outros, para votarem nela.
A solidariedade destes emigrantes portugueses com os outros emigrantes, magrebinos ou não, foi toda para o brejo. Tornaram-se racistas, acontecendo o mesmo na América Latina.
Julgam-se superiores aos outros e adoptam as atitudes dos patrões e dos indígenas.
Não conseguem fazer um inventário de perdas e projectar a sua análise num futuro, ser solidários com outros companheiros emigrantes e perceberem que são já uma força em qualquer eleição que pode mudar o resultado.
Acabam por ser cobardes com estas atitudes.
Muitos deles foram "a salto" para França, viveram em locais miseráveis, os bidonville de Paris por exemplo, nos anos 70.
Nos anos 50/60/70 viveram em bairros de lata, muitos deles. Em 1967 em Champigny (bairro de lata) residiam 14.025 portugueses. Daqui eram distribuídos trabalhadores para toda a França, até se chamava a capital dos portugueses em França.
Nanterre, Courneuve, S. Dinis ainda hoje existem e são conhecidos, mas mesmo assim milhares de portugueses continuam bem integrados na sociedade francesa, tendo até uma crescente influência política, ao ponto de todos os candidatos às eleições presedenciais seduzirem os nossos emigrantes para neles votarem. Mas a maioria cultiva uma espécie de "Arte de Não Saber", que provém duma decisão, quase apriorística, ditada por uma visão ególatra e egocêntrica do mundo e da sociedade.
Os 20% de votos na extrema-direita e que podem decidir do futuro da França e até mesmo da Europa tem uma assinatura portuguesa.
Trata-se de gente trabalhadora, que passou as passas do Algarve, como se costuma dizer na minha terra, integrados na sociedade francesa, com os seus pequenos negócios e que talvez por isso, já se julgam chefes do mundo e que não lhes passa pela cabeça sequer, serem um público de borregos amestrados que mal os políticos franceses estalam os polegares a engraxá-los, a aplaudi-los, eles se desfazem na exaltação desses modelos culturais e políticas que não são as suas, esquecendo que os outros emigrantes, sejam eles oriundos de África ou da Europa do Leste possuam as mesmas histórias que a sua.
Não percebem que continuam a ser carne para canhão e que são jogados como bolas de ping-pong por imperiosa necessidade dos pontos de vista ideológicos, reflexo dos grupos económicos a que pertencem ou são simpatizantes os diversos candidatos.
São dóceis e cúmplices perante os poderes nem que esses poderes sejam racistas e xénofos, pensam sempre que não é deles que se trata, mas dos outros.
Intoxicados pelos canais televisivos que programam concursos como "quem pensa...perde" e como, os rádios e as televisões pertencem às mesmas empresas e dizem as mesmas coisas e repetem vezes sem conta, passam a ser aceites essas notícias como "aquilo que se sabe", ou "o que devo saber" que não é o mesmo, mas é igual.
São assim a maioria dos emigrantes portugueses em França, que individualmente até são boas pessoas e capazes de socorrer o vizinho que pode ser magrebino ou ÁRABE, vindo da Turquia ou de qualquer outro lado.     

domingo, 22 de abril de 2012

BOA NOITE

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EFEITOS

CELEBRAÇÕES

Temos que celebrar a vida todos os dias.
Ontem acabada de celebrar um aniversário, tocou o telefone a informar-me que o meu amigo Fernando Lopes dos Santos, tinha morrido. Um homem bom, generoso de quem muito gostava e gostava de mim.
Este ano começou com a  morte de pessoas que eu gosto. Preciso de alegria, ontem tive uma alegria breve, parafraseando Vergílio Ferreira, como todas as que têm ocorrido este ano.
Épocas houve em que havia abundância de mim, excesso, exagero e alegria, hoje sinto ausência. 
Não perdi o pecado ainda porque não perdi o desejo da vida, mas às vezes perco-me do caminho.
Por vezes falo alto mas não ouço. E volta a necessidade de me perguntar "o que é a existência? "Porque e para quê existimos?"
Acreditar é um acto de coragem. Já vivi o suficiente para saber que cada época tem o seu modo de explicar e de entender.
A morte de um amigo, além de nos pôr de gatas, faz-nos encarar esta verdade muito simples e muito complicada, que somos bichos diferentes, porque penso e sei  que penso, de estar viva e saber que morrerei.
Viver cansa muito. Tenho vivido um ano em que vários tipos de coisas negativas competem pela primazia, parece que a vida está a ser vivida às avessas.
Parece que há coisas que podem ser esquecidas e que outras não podem, que se instalam, que nos vão encolhendo, assim como uma espécie de traça dos livros que abrem túneis por entre as páginas, escavando arbitrariamente.
E há tantas coisas dentro de nós que cá vão permanecendo latentes, porque só as pequenas coisas acabam por ser ditas, ao fim e ao resto.
Há gritos que se pensam, que esperam, que observam dentro de nós.
Há dias tão húmidos de choro, de lágrimas não choradas que peixes podiam nadar dentro deles.
Dizemo-nos sempre que estamos preparados, que nos vamos preparando, mas apenas nos preparamos para estar preparados, e há dias que nem sequer temos a raiva ao nosso dispor.
Também há dias em que quero voltar a ouvir a minha história, sentada se possível e, voltar a ouvir e que  me sinto confortavelmente a morar nela.
Mas eu sei, nós sabemos que tudo muda e tudo pode mudar num dia só, e as causas essas não repousam em nenhum local, estão vivas e bem vivas.
O mundo só é belo quando o vemos duma forma inocente e simples.
Vou de novo neste domingo cinzento e triste, descobri-lo com os meus óculos 3D, não o quero apanhar apenas com a rede do meu pensamento.
Prometo ao meu EU, despertar de novo e saber pensar, porque sei que não sou uma folha ao vento e que possuo refúgios dentro de mim.

sábado, 21 de abril de 2012

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AVEIRO HOJE

CONFISSÕES II


Medito sobre a finalidade das coisas.
A disciplina da escrita faz-nos mudar, é uma espécie de penitencia diária, a penitência de procurar palavras.
Quando comecei a escrever, assentava num caderninho todas as palavras difíceis e quando me mandavam fazer uma redacção na escola, procurava metê-las a todas, gostava de "falar caro", como dizia o meu irmão.
Muito mais tarde, quando mostrei os primeiros escritos á minha irmã de imediato apelidada de barroca, que tinha uma escrita barroca. E eu sem saber muito bem o que isso era nem nunca me ter sido devidamente explicitado, julguei que fosse alguma coisa parecida com romances de cavalaria, brinco, mais ou menos a avançar pelas folhas em branco e a escavar-lhes vales e cavernas e a enchê-las de arranhões e montes.
Como eu gostava de escrever assim, caro,como dizia o meu irmão e barroco como dizia a minha irmã, obrigava-me a saber palavras e novos significados que agora praticamente não uso.
Após a queda e declínio desses meus "domínios", procurei outras formas, procurando palavras do dia a dia, brincando um pouco com elas. Lembro-me  por exemplo, de dizer lembranças vívidas, em  vez de lembranças vividas e por aí fora. Era uma época em que os conteúdos estavam à mercê das palavras.
E fui aprendendo novas formas, lendo outras literaturas,porque até aí só lia os livros da biblioteca do meu pai praticamente e livros que os meus familiares me davam que nunca me interessavam nada, pois eram os tais livros para a minha idade, eu que tinha lido "O Crime do Padre Amaro" aos 14 anos.
Cheguei a uma altura que quase não sabia distinguir o bom do mau, porque tal como nos vinhos, não gosto de saber o que os especialistas pensam sobre a matéria, gosto de ser eu a dar a minha opinião em primeiro lugar e ia para Feira do Livro sem referências. Não havia muito dinheiro e comprava  os mais baratos porque tinha que decidir em trazer 3/4 ou apenas um, bem sei que também ia à Biblioteca Municipal e aos alfarrabistas.
Foi uma fase em que me lembro de existir também no papel. Ninguém me lia nem eu queria, nem me lia a mim própria, andava já no Liceu Rainha Santa Isabel, mas ainda no velho, escrevia mesmo na cama, queria sempre muitas almofadas, tinha livros debaixo da cama e passava fins-de-semana inteiros metida no quarto a ler, em cima da cama e como tinha um andar praticamente para mim um sótão escrevia e escrevia.
Nem eu própria me lia, às vezes rasgava sem ler o que escrevia para que tal não acontecesse.
Achava que cada página só valia quando a virava porque havia vida atrás dela e quando tinha muitas,tinha a tarefa cumprida.
Começar de novo qualquer coisa não se afigura fácil.
Assenhorearmo-nos de outras formas e outras linguagens leva o seu tempo, dizia um querido amigo, que era como se estivessemos a tomar posse delas,agora passavam a ser nossas também.
As palavras adoptam-nos e nós adoptámo-las, fazem-nos conhecer melhor.
Quando, actualmente, me sento aqui,de manhã, para escolher  o tema que vou escrever e escolho primeiro o título, tal como nas redacções da minha infância, acontece muitas das vezes que escolho um e há outro a querer insinuar-se, a querer sobrepor-se àquele e por vezes,é esse que fica em detrimento do pensado anteriormente.
Como toda a gente sabe, há palavras que nos fazem tristes e outras que nos dispõem bem, com a poesia isso é claríssimo.
Se escrevo mau humor, lembro-me duma série de situações não agradáveis, se escrevo bom humor acontecer-me-á o contrário.
Há palavras que se afastam de nós, que nos abandonam que nos deixam náufragos, há outras que pululam e saltaricam à nossa volta. Há as que nos reprimem e aquelas que nos fazem pensar.
Lembro-me duma palavra, talvez aquela  com que eu me deparei pela primeira vez a esclarecer o pensamento e que foi a palavra retirar. Já foi há uns anos. Não sei porquê, mas andei com a palavra atrás de mim durante quase um dia. Nessa altura lia antes de sair de casa e depois só quando regressava, já quase à noite, retomava  a leitura e pensava ao longo do dia: "mas retirou-se para onde, para bem longe ou para dentro de si própria?"
Há palavras que eu perdi e outras que se perderam de  mim.
Amo as palavras que me libertam e me fazem pensar e não me perguntam nada e me aconchegam e me compreendem e me acompanham.
Há palavras que me amarram e outras que me arejam, há aquelas que me dizem ao ouvido: podes pensar  à vontade estamos aqui contigo", a essas já lhes disse que queria  arranjar um estilo meu, um estilo próprio e até já me sugeriram  a não pensar em escrever previamente o título, que fosse escrevendo, escrevendo, sem título e sem medo, podia ser que acontecesse um dia. Vamos lá ver se têm razão... um dia... sem medos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

BOA NOITE

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COMPREENDER O MUNDO

Explicá-lo, desprezá-lo, nunca foi o meu forte.
Apenas o observo e a mim com admiração.
Sinto-me, actualmente, num palco de todas as formas, tudo o que é presente, passado e futuro.
Há relativamente pouco tempo fiquei a saber que havia uma palavra que não existia, a palavra sempre, já tinha aprendido a palavra nunca. Agora são duas que não existem: sempre e nunca.
Também sei que odiar é uma palavra teatral.
Aprendi que não posso viajar para fora de mim. Não quero afundar-me na realidade. Não quero encarar esta realidade, preciso de sonhar. A doença tem-me afastado do mundo.
Há zonas de sombra do conhecimento humano e tenho-me dedicado a essa zonas, mas verifico em mim um certo cansaço. As minhas simpatias por variadíssimos temas e pessoas começam a ser derrubadas. Estou cansada de compreender a dor, de simpatizar, de me revoltar em palavras ou pensamentos contra a injustiça, algumas vezes estive sozinha nessa luta.
Fui educada na repressão, a quem proibiam meter os dedos no nariz, escrever nas paredes, mostrar a língua ou fazer manguitos e agora está na hora de despejar obuses contra S. Bento. Não é fácil fazermos grandes esforços de acertar as horas uns pelos outros, acoplá-las mesmo para nos encontrarmos na hora certa.
Durante 38 anos fomos libertados das mil cadeias e agora vêm-nos com a conversa, a recomendação da Pax Romana, da paz dos submissos, da paz podre.
Todos nos queixamos, mas são inúteis as nossas queixas. Estes escravos que temos hoje a governar-nos não amam a liberdade. Como podem escravos gostar e formar espíritos livres?
Vivemos numa atmosfera de pouca permanência, de salve-se quem puder, de vamos lá acabar com isto, antes que isto se nos acabe. É fartar, vilanagem.
Não me apetece tentar explicar tudo, todas as injustiças do mundo como antes fazia e começo a ficar uma especialista em estranheza. Vejo muita encenação na vida.
Não se pode chamar democratas a pessoas que apenas arregaçam as mangas, usam chinelos de meter o dedo e vão às compras ao supermercado.
Neste mercado livre, diz-se que a iniciativa e a concorrência produzem igualdade, mas sabemos que esta igualdade, é para quem pode, porque quem não pode arreia.
Sinto-me entrincheirada entre os bota-abaixo sistemáticos e cegos, com a frustração das energias criadoras e os medíocres com almas transviadas reduzidos simplesmente ao mínimo denominador comum, aos que vivem das aparências, na lei do menor esforço, na compostura como mortos-vivos, aos mascarados que adoptaram a postura das renúncia e da acomodação.
Neste momento da vida, a imaginação e a experiência devem estar empatadas.
Com esta idade, recordo uma frase que ouvia ao meu avô, espanhol mas que se sentia português,  teria os meus 16/17 anos: Sabes o que os galegos (ele era de Sevilha) em Lisboa costumavam dizer? "nós vimos cá vender-lhes a água que é deles".
O nosso país parece estar cheio de possíveis salvadores, de profetas e bandos de discípulos.
Impõem-nos uma verdade única, como se impõe uma fé num deus, e dizem-nos que quem não acreditar e venerar esse deus, se torna vulnerável. Mas parece que poucos hoje têm essa fé num país melhor amanhã, sendo que este amanhã varia muitas vezes. Umas vezes é para 2013, outras a iniciar em 2013, outras em 2014 e outras ainda porque 2015 fica depois de 2014 e portanto seria a começar em 2015. Eles sabem tanto como o gato.
O que é ainda verdade? O que é ainda acreditável? E o que sobrará depois de tudo sabermos, se algum dia viermos a saber?
Começo a ficar profundamente cansada.
Definitivamente há coisas que são irrecuperáveis, talvez isso prove a realidade do passado, do meu passado que às vezes se mistura com a do país e, sinto um vazio dentro de mim.
Eu sei que vai passar, tudo passa, mas enquanto não passa, há que reduzir a pó esta impotência e lutar, lutar, lutar contra o "diabo" que quer verdadeiramente tomar posse de tudo, até das almas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

BOA NOITE

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O ECLETISMO


O ecletismo é a tendência natural de uma cultura livre nas suas escolhas.
Para se ser eclético não se pode nem se deve ser preconceituoso ou aderir apenas a um estilo.
Para se ser verdadeiramente ecléctico é necessário conhecer muito, ter lido e visto muita coisa e não nos apropriamos apenas duma abordagem, seja ela filosófica, artística, doutrinária ou o que quer que seja.
Para ser ecléctico é preciso saber discernir entre o verdadeiro e o falso que cada teoria encerra, entre os inventores das utopias e os moralistas.
Não me proponho falar aqui do eclectismo como estilo preferido da grande burguesia, nem do eclectismo na História.
Não tenho saber científico para isso, apenas peguei no termo, digamos, duma forma jornalística, popular se quisermos.
Há uma tendência hoje em dia para se utilizar este termo como um rótulo que se apõe a certas pessoas, de certo modo, na tentativa de menorizar alguém duma forma mais ou menos sofisticada, reconhecendo o seu ecletismo, embora... e nestas reticências ou neste embora esteja sempre a questão subjacente de quem rotula que é a "pseuda" crítica do rotulado não pertencer a uma dada  e única corrente, seja ela qual for, filosófica, artística ou ideológica, e talvez também porque em Portugal, ser ecléctico e, isso vem da história do termo, do séc. XIX e do conhecimento que se tem sobre isso, saía muito caro e só os ricos burgueses com poder económico se podiam dar a esse luxo.
Hoje em dia, continua a ser um luxo, penso eu, embora seja outro tipo de luxo, um luxo das liberdade, de não se estar "engagé".
Ser-se eclético hoje, nas ideias e no modo de vida sai muito caro igualmente, em amizades, em empregos, socialmente falando, duma maneira geral.
O eclectismo hoje para alguns é também visto, malvisto como uma perda de tempo.
Estas cortesias do coração e da razão nem sempre são bem cotadas.
Muitas vezes os ecléticos são confundidos como tendo um vazio de ideias a preenchê-los. A vida contemporânea suaviza a estética.
Sendo na arquitectura do séc. XIX e princípios do séc. XX um estilo ostentatório e bastante criticado pelos Modernistas, aquilo que hoje vulgarmente e chama de eclético, não é tanto do superficialismo desse alguém, embora e como disse logo no início do texto, venha quase sempre o adjectivo eivado de uma ponta de crítica.
Penso que ainda  assim se procede devido a certas atitudes iconoclastas por um lado e por outro, por se continuar a considerar ecléctico sinónimo de superficial.
Convicta estou que quem rejeita pura e simplesmente o eclectismo, é de facto preconceituoso.
Nos séculos anteriores devido a estas atitudes vanguardistas e referindo-me de novo, à arquitectura,um dos meus grandes interesses, muitos edifícios foram destruídos, em nome dessa ideia que considerava o eclectismo arquitectónico com ausência de valor arquitectónico.
Trata-se de atitudes meramente opinativas, pouco fundamentadas e conscientes.
Se naquela época, em especial antes dos anos 60 do séc. XX, o Eclectismo Arquitectónico representava a hipocrisia, a arquitectura das aparências, representando por consequência a sociedade das aparências, também hoje quando alguém é apelidado de ecléctico nem sempre está a ser piropado, muito pelo contrário.
Mas é assim, um aposto ou continuado, embora dum substantivo se trate, é utilizado como adjectivo e aposto para sugerir, muitas das vezes, que esse alguém perdeu a "verdade" ou não apanhou a verdade toda, porque segundo eles, a verdade é só uma, a deles e mais nenhuma.
Tudo isto vem a propósito do que assisto e vejo no Facebook, aliás como na vida.
Muita gente a copiar, lá diz-se postar o que os outros "postam" e postam tão rapidamente que nem fazem ideia da ideia que têm, sobre quase tudo, mas pelo menos pertencem ao grupo e, pertencer ao grupo como se verificou no Hino da Acção Zero Desperdício "ACORDAR" com o patrocínio da Presidência da República, composto dum leque de cantantes da direita à esquerda, já que era esse o objectivo.  Alguns cantores que lá estiveram normalmente colocam-se numa postura de intervenção cívica e política, mas parece terem preferido pertencer ao grupo e ficarem dentro desse círculo elegível para outro tipo de convites, os que são onerados e cantaram coisas como esta: "E nós que queremos ser irmãos/ mas nunca sujamos as mãos/ É uma vida decente/ Não passeio ou aguardente/O que é justo/E há que dar a toda a gente".
Estarei eu a ser preconceituosa?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

BOA NOITE

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QUANDO AS IDEIAS CORREM

Correm na minha imaginação paisagens, pessoas que me rodearam e queria convencer o corpo e a razão de que vivem e que passarão da imaginação de novo para a realidade.
Todas as pessoas deixam pedaços de si espalhados, como se fossem marcos de 500 que os portugueses deixaram espalhados por esse mundo fora.
"Chaque jour nos laissons une partie de nous-mêmes en chemin" - Amiel
É uma forma de chegar ao sagrado e ver as pessoas queridas que por mim passaram, com raízes, como presenças mudas e vegetais.
Quando a locomoção e a vida nos prega partidas, como não podemos correr, fazemos passar a tela do vivido e do experienciado, é uma espécie de compensação, através da imaginação.
Imaginação afectiva, chamar-lhe-ia.
Não quero, não sei, não me apetece desligar-me de quem me é querido e ponho-me a jeito, a aguardar que as imagens me visitem.
É uma saudade tremenda.
As minhas lembranças são como os pássaros, vêm e fazem ninho.

terça-feira, 17 de abril de 2012

BOA NOITE

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ENTRE GIGANTONES EU ESTOU

QUANDO FITAMOS OS PÉS DOS OUTROS

Podem ser as leis do acaso que nos levam aos sapatos de calfe com meias confortáveis do cavalheiro.
Pode ser a vontade que tenho de pensar noutra coisa ou talvez porque simplesmente naquela altura não esteja a fazer jogo limpo... ou ainda para não me pôr verde de cólera... ou quem sabe, para transferir o problema e desta vez do social para o particular.
Trata-se duma espécie de fazer o cenário apagar-se ou mesmo um gesto de socorro ou ainda, quem sabe, sonhando o passado.
Momentos de espera para não emaranharmos os pensamentos, para os voltar a enovelar, para rectificar o coração e sossegar o estômago.
Nem sempre o corpo e o espírito se comportam como  dois amantes experimentados e sabem extrair dos quase nada o calor imenso de tudo.
Por vezes temos medo das nossas próprias palavras e escondemo-nos delas nem que seja por segundos, receamos as suas cheias, aquilo que transportam dos acontecimentos vividos e antes que venham na enxurrada distraímo-nos olhando para qualquer lado.
Já fui(fomos) várias vezes surpreendidos com a potência destruidora de certas palavras.
Muitos autores já o disseram, mas eu leitora delas, também o repito, visitar-me a mim ou revisitar-me duma outra forma é estar de visita ao mundo.
Quem pensa dispõe-se a um infinito de realidades para além de si mesmo,(já nem sei se esta frase é minha ou não, acontece-me algumas vezes, de tão entranhadas em mim tornam-se minhas. Agora lembrei-me, esta é das Gabriela Llandsol, suponho, mas acho o mesmo, aliás penso que toda a gente pensa o mesmo e, ponho-me a pensar como posso eu ter medo?
Não tenho medo, senão não vinha para aqui todos os dias sentar-me ao computador, sem saber o que vou dizer, a não ser que tenho dificuldade em seleccionar tudo o que tenho para dizer, portanto a escrita e o medo são absolutamente incompatíveis.
Porque é que isto acontece?
Será o uso pessoal que faço do  mundo  nestas horas minhas?
Será porque a minha voz se cala em fragmentos de silêncio, silêncio que eu tanto amo?
Será porque continuo a ser uma mulher da Filosofia e tendo sempre para ela, abraço-a quando me sinto mais nua, mais desprotegida?
Ou será porque quando se trabalha com as emoções não nos emocionamos tanto?
Imaginamos o mundo e penso na forma de o decifrar para sobreviver e isso cansa-me muito, quase me esgota e então olho para um ponto que esteja ao meu alcance como me dizia a Teresa Rosmaninho e nesses momentos mantenho-me muda e olho para o cão a farejar pelo chão e a levantar a carpete, se ele estiver por perto e, mais uma vez fito os sapatos de alguém que me está próximo ou em imaginação.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

BOA NOITE

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REFLECTINDO SOBRE LIBERDADE

Sou livre se consigo chorar.
Não é fácil viver, como todos sabemos, no entanto há momentos em que nos tornamos peritos.
Sou livre se me pareço com um sibarita, um intelectual da renascença, podendo entregar-me ao divino prazer de sonhar.
Sou livre se tenho dinheiro no bolso, nem muito nem pouco, o suficiente para que não me faça pensar nisso.
Sou livre se as doenças não falam comigo e me obrigam a falar com elas.
Ser livre  é ter aquele sentimento de que nada me faz falta em demasia, nem a comida nem o estômago, numa palavra.
Ser livre é ser-se completo, no sonho, no amor, no desejo.
Podermos ser nós, sem representações de nós e andar sempre de prevenção, coibindo-nos de simular os próprios sentimentos, i. é, de os sublinhar ou de os recordar.
Ser livre era não me preocupar  muito com o que estivesse para vir.
Ser livre é quase como ser feliz, não tem história. Quando se é feliz não se faz romance, quando se é livre também não.
Ser livre é não ser submisso, é ser-se independente, mas aqui é que começa o busílis. Quem é que é verdadeiramente independente?
A liberdade tem sempre limites. Vivemos em sociedade e as sociedades têm leis, logo a nossa liberdade é sujeita a leis e aos limites  que estas lhes impõe,  para sermos verdadeiramente livres temos que querer apenas o que podemos, não exigirmos mais à vida do que podemos.
Quanto mais respeitamos a liberdade dos outros, mais livres somos.
De facto, só podemos ser livres se deixarmos que os outros o sejam, se formos livres da opinião dos outros.
Falar de liberdade, tema que ontem foi sugerido, não é nada fácil e ao mesmo tempo, facílimo, já que toda a gente sabe o que é  e, difícil de explicar por qualquer um de nós.
A liberdade é um substantivo abstracto, mas ao mesmo tempo muito concreto, é um constructo, como a inteligência.
Liberdade é um conceito muito caro a toda a gente. Toda a gente quer ser livre, embora todos nós tenhamos noções diferentes de liberdade, logo não deixa de ter uma carga muito pessoal.
Lembrei-me agora do "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley em que os nossos sonhos e as nossas esperanças foram domesticados, controlados, medicados. Os outros tomaram conta de nós. Isto é exactamente o contrário da liberdade e recordo como certos conceitos são bem mais fáceis de definir pela negativa do que pela positiva.
Mesmo para nós adultos, "normais" (refiro-me à média e moda estatísticas), que adquirimos o período operatório concreto e noções abstractas, segundo Piaget, é-nos difícil definir o substantivo.
Torna-se mais fácil, bastante mais, fazer comparações. Aquele é mais livre do que.... à semelhança do que fazemos na maior parte das vezes com a inteligência. Fulano é mais inteligente do que Sicrano ou então encontrar-lhe os limites como fez Victor Hugo que disse que a liberdade começa onde acaba a ignorância ou ainda defini-la de dentro para fora como o fez Jean-Paul Sartre: "Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite para a minha liberdade pode ser estabelecido, excepto a própria liberdade".
Mas observá-la e defini-la de fora para dentro e simultâneamente de dentro para fora é bem mais difícil.
Convicta estou, que uns a recebem de fora e outros de dentro. De qualquer das maneiras, a liberdade nunca é somente exterior, ao vir de fora torna-se vivência mais íntima e vindo de dentro, torna-se acontecimento externo.

domingo, 15 de abril de 2012

BOA NOITE

FOTOGRAFIA DO DIA



UM QUERIDO VIZINHO

O QUE É A ESPERANÇA

A ESPERANÇA, título que a Manuela Martins fez o favor de sugerir para o escrito de hoje.

A esperança diria eu se estivesse a ser entrevistada, é sobretudo ter confiança em mim, na minha forma de encarar o mundo.
Bem sei, que hoje em dia a esperança nossa é assim como o gotejar de uma torneira sem conserto, graças à qual alguns encontram uma solução transitória para as suas calamidades materiais.
Esperança é pensar que um dia a justiça vai funcionar e não ver bandidos, transformados em respeitáveis políticos e homens de negócios colocados no epicentro de grandes projectos nacionais.
Esperança é acordar e ver um país com governantes a sério e a bater o pé a todos os invasores, a respeitarem-se a si e ao povo.
Esperança é ver um país menos desigual, menos triste.
Esperança é pertencer a um povo que em vez de procurar as companhia ruidosas e ser espectador de toda a gente seja capaz de passar uma hora sozinho e de meditar sobre um livro ou sobre o que quer que seja.
Um povo em quem se possa confiar.
Um povo livre sem esperar nada de ninguém.
Um povo ambicioso.
Um povo seguro, impossível de alvejar, defendido de predadores.
Um povo que não faça de conta para quase tudo e que não se torna soldado de algumas hostes.
Um povo que não se deixe enganar, que conheça a sua força, e que não ache qualquer graça a ser enganado.
Um povo orgulhoso não por saber mendigar e desenrascar-se, mas por possuir uma armadura brilhante, por decidir por si próprio.
Um povo que não goste de discursos descabelados.
Um povo em que abandone a principal arma que tem utilizado até agora - a dissimulação.
Um povo que não justifique a sua cobardia, mas antes avance nos seus desejos.
A esperança em que todos os medíocres cheios de "sentimento" não cheguem ao poder, ainda para mais eleitos.
Um povo que distinga o que é inofensivo do que é verdadeiramente mau, que distinga o útil do inútil.
Um povo que não tenha medo, porque confia em si e confiar em si é confiar no futuro.
Um povo honrado, não para pagar dívidas, mas para não as contrair e a isso chama-se inteligência.
Um povo que saiba o que é um tratado de comércio e que a mentira é de fogo.
Um povo vivo e que não mumificasse antes de morto.
Um povo que não seja fantasma de si mesmo.
Um povo que saia da adolescência onde estabilizou por pavor de encarar uma consciência adulta.
Um povo que não sinta este monumental complexo de inferioridade, em que deixe de ensinar os outros a serem bons por ser mais fácil e mais nobre do que se tornar bom por si próprio, como dizia por outras palavras Mark Twain.
Um povo que não se venda ao desbarato, que não esqueça tão facilmente, que não se sente a um canto a ver passar a vida, os litígios sem nunca tomar partido.
Ter esperança é imaginar que um dia não vou encontrar em lado nenhum, uma frase começada por: "Os portugueses são... , mas ver antes como são de facto, porque entretanto estão ocupados em ser mesmo.
Ter esperança é pensar que um dia os boatos deixam de ser punidos para passarem a ser punidos os crimes.
Ter esperança é pensar que vou viver num país, o meu, com contornos reais e não desdenhando as realidades todos nós as enfrentamos e somos lúcidos para as ir resolvendo sem recusar ter opiniões e deixar apenas que os outros as tenham.
Ter esperança em fazer parte dum povo que apenda a (des)saber e que se lembre que não tem que deixar de testemunhar para "não se meter em coisas dessas porque não pode", um povo em que não decapitasse todas as esperanças.
A verdade é abstracta,não se vê.
A esperança é concreta e pode apalpar-se.